Muitos se lembram de um show do Led Zeppelin que talvez não tenha acontecido
Por Bruce William
Postado em 23 de novembro de 2025
Na história do rock, não faltam relatos de "shows pequenos" que todo mundo jura ter visto antes da banda estourar. Mas existe um caso em que a questão vai além do "eu estava lá": é a história de um show do Led Zeppelin que alguns moradores de uma cidade americana descrevem em detalhes... e que, até hoje, ninguém consegue provar que realmente aconteceu.
A noite em questão seria 20 de janeiro de 1969, dia da posse de Richard Nixon. Três dias antes, o primeiro álbum do Led Zeppelin havia sido lançado nos EUA, e a banda cruzava o país em sua primeira turnê, ainda anônima para o grande público. De acordo com vários relatos, naquele dia o grupo teria tocado para cerca de 50 ou 60 pessoas em um centro juvenil de bairro em Wheaton, Maryland, num show encaixado às pressas entre datas maiores. O público foi tão pequeno que o empresário Peter Grant teria pressionado o promotor local por dinheiro de gasolina e saído dali com apenas 100 dólares no bolso.

Quem diz ter estado lá não fala em lembranças vagas. Alguns apontam no ginásio o lugar exato em que cada integrante teria ficado, descrevem a guitarra usada por Jimmy Page, recordam a entrada com "Good Times Bad Times" ou comentam que o som era tão barulhento que nem sabiam direito o que estavam ouvindo. Em encontros organizados anos depois, fãs levaram até objetos guardados desde a época - como um par de tênis que, segundo o dono, estava no pé na noite do suposto show. Para esse grupo, não há dúvida: o Led Zeppelin passou pelo lugar antes de se tornar gigantesco.
Do outro lado, a lista de ausências é difícil de ignorar. Não apareceu até hoje nenhum contrato, anúncio de jornal, recorte de crítica, pôster, flyer, foto ou ingresso que comprove a apresentação. A diretora do centro juvenil na época diz não se lembrar de show algum do Zeppelin, embora recorde sem problemas de outras bandas que tocaram ali, como Iggy Pop e Alice Cooper. Uma frequentadora que guardou em álbum recortes e anotações de dezenas de apresentações entre 1967 e 1972 simplesmente não tem registro daquela data. Para muitos que circulavam pelo local naquele período, a ideia de ver o Led Zeppelin ali soa tão improvável quanto uma lenda urbana.
Foi nesse conflito entre memória e falta de papel que o cineasta Jeff Krulik resolveu se enfiar. Conhecido por ter realizado o doc Heavy Metal Parking Lot, ele começou pesquisando o circuito de shows da região para um filme sobre o Laurel Pop Festival, mas acabou esbarrando na história do centro juvenil de Wheaton. O resultado foi o documentário Led Zeppelin Played Here, em que ele entrevista fãs, jornalistas, historiadores e gente da cena local, tentando costurar a cronologia dos shows que a banda fez na área em 1969 e avaliar se aquela noite de janeiro faz sentido dentro do quadro geral.
Ao longo da investigação, Krulik encontra elementos que reforçam a plausibilidade da história. O centro juvenil efetivamente recebia nomes importantes - de Dr. John a Bob Seger, passando por Nils Lofgren - e a própria gravadora teria, na época, o hábito de colocar bandas em datas pequenas entre compromissos maiores. O promotor Barry Richards fala desse show desde os anos 1970, e um ex-funcionário que trabalhava com ele na Atlantic confirma que esse tipo de evento "cabe" no padrão da turnê. Ao mesmo tempo, colegas o descrevem como alguém dado a exagerar, e o próprio diretor admite que algumas memórias podem estar misturando shows de outras bandas que tocaram no mesmo salão.
Nem mesmo as fontes "oficiais" fecham a questão. O site oficial, na parte que compila a cronologia de shows do Led Zeppelin, inclui Wheaton na lista (veja neste link), mas se apoia justamente em um livro sobre a cena local, não em documentos da própria banda. O ex-tour manager Richard Cole, quando questionado, diz não se lembrar do show. Mensagens enviadas aos integrantes sobreviventes não tiveram resposta, e mesmo quando Krulik teve a chance de encontrá-los em uma cerimônia de homenagem em Washington, o mistério continuou sem uma confirmação definitiva. O que há, por enquanto, é um conjunto de depoimentos coerentes de um lado e um vazio de evidências físicas do outro.
No fim, o "show de Wheaton" diz tanto sobre o Led Zeppelin em início de carreira quanto sobre a maneira como histórias de rock sobrevivem sem foto, sem vídeo e sem redes sociais. Para quem jura ter visto Page, Plant, Jones e Bonham em um ginásio de bairro naquela noite gelada de 1969, pouco importa se algum documento aparecer ou não: a lembrança do som alto em um lugar quase vazio é parte da própria biografia. Já para quem exige prova em papel, a história continua ocupando o mesmo lugar de sempre - aquele canto nebuloso em que o rock vive entre o que foi, o que poderia ter sido e o que a memória insiste em não deixar morrer.
Com informações de Yahoo! Entertainment e Washingtonpost.com.
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