A banda de rock nacional em que backing vocal se deu melhor que o vocalista após separação
Por Gustavo Maiato
Postado em 11 de abril de 2026
A separação da Blitz, uma das bandas decisivas do estouro do rock brasileiro nos anos 1980, ainda rende leitura curiosa quando o assunto é o destino de seus integrantes fora do grupo. Em entrevista ao canal Corredor 5, Tina Valente, que trabalhou com promoção e marketing em gravadoras e acompanhou aquele momento de perto, relembrou o ambiente da época e comentou o que aconteceu depois do fim da banda. No papo, quem faz a observação foi o apresentador Clê, ao dizer que Fernanda Abreu acabou se saindo melhor na carreira solo do que Evandro Mesquita.

Antes de entrar no caso da Blitz, Tina reconstruiu o clima do período. Segundo ela, o rock nacional vivia uma fase de ebulição, com imprensa, gravadoras e artistas envolvidos de forma intensa no nascimento do chamado BRock. Ela cita nomes como Arthur Dapieve, a revista Bizz, Sérgio Martins, Beatriz Coelho e Jamari França como parte dessa engrenagem que acompanhava e impulsionava o movimento.
"Essa coisa do rock nacional estava fervendo", afirmou. Ao lembrar da imprensa musical da época, ela disse que havia um senso de participação coletiva naquele processo. "As pessoas se envolviam", contou, ao descrever viagens, cobertura de shows e o interesse crescente em torno das bandas brasileiras que começavam a ganhar espaço.
Blitz, Fernanda Abreu e Evandro Mesquita
Quando Clê puxou o assunto do fim da Blitz, perguntou diretamente como a ruptura foi sentida "lá dentro". Tina respondeu que a impressão foi de susto. "Foi meio assustador", disse. A explicação dela vai por um caminho bastante clássico no histórico de bandas de rock: o choque de egos.
"As bandas acabam, é sempre por conta do ego", afirmou. Na sequência, ela desenvolveu esse raciocínio com um exemplo bastante claro. Segundo Tina, a atenção da imprensa e do mercado se concentrava muito mais no cantor do que nos outros integrantes. "Normalmente o líder, o cara que canta, todo mundo quer fazer entrevista com ele", disse. "Não quer fazer com o outro, com Ricardo, não quer fazer com Juba... o cara quer o Evandro." Na visão dela, esse desequilíbrio vai corroendo a convivência. "Aí vai cansando", resumiu.
Clê então trouxe à tona uma história bastante conhecida dos bastidores da Blitz: a narrativa de que uma campanha publicitária internacional com Tina Turner teria ajudado a agravar a crise. Ele citou a versão segundo a qual a banda queria aparecer junta, mas o foco teria recaído apenas sobre Evandro Mesquita. Tina não desenvolveu muito esse episódio específico e respondeu de forma cautelosa. "Isso eu não lembro", disse.
A parte mais chamativa da conversa veio logo depois, quando Clê comparou os caminhos seguidos por Evandro e Fernanda Abreu após o fim da Blitz. O apresentador deixou claro que é fã de Evandro, a quem chamou de possível "primeiro ídolo" de sua vida, mas afirmou que o cantor nunca conseguiu repetir sozinho algo perto do impacto vivido com a banda.
"O Evandro nunca mais conseguiu, com música, nada próximo do que aconteceu com a Blitz", disse. A seguir, ele foi ainda mais direto: "Dá até para dizer que a Fernanda Abreu foi muito mais bem-sucedida do que o Evandro na sua carreira solo". Tina concordou imediatamente. "Melhor", respondeu.
Clê então desenvolveu a comparação. Segundo ele, Fernanda emplacou várias músicas e construiu repertório próprio forte o bastante para sustentar um show sem depender da história da Blitz. "Se você for no show da Fernanda solo, ela não precisa tocar nada da Blitz", disse. Na sequência, citou sucessos associados à cantora, como "Garota Carioca", "Swing da Cor" e "Rio 40 Graus", para reforçar a ideia de que ela encontrou uma identidade musical própria e popular fora da banda.
Já no caso de Evandro, o apresentador fez uma leitura bem mais dura. "Se eu for parar para pensar um show do Evandro solo, eu não sei nem o que ele vai cantar. Ele vai cantar música da Blitz", afirmou.
Tina ainda comentou que reencontrou Fernanda recentemente e ficou com a impressão de que o tempo não tinha passado na relação entre as duas. "Encontrei com ela outro dia na Jovem Pan, como se tivesse saído daquele dia lá", disse.
A Blitz, formada em 1981 no Rio de Janeiro, foi uma das precursoras do rock nacional dos anos 1980. A formação clássica reuniu nomes como Evandro Mesquita, Ricardo Barreto, Lobão, Fernanda Abreu, Márcia Bulcão, Antônio Pedro Fortuna e Billy Forghieri. Dentro desse contexto, Fernanda ocupava o posto de vocal de apoio - e é justamente por isso que a observação feita no programa chama tanta atenção. A backing vocal de ontem, na leitura de Clê endossada por Tina, acabou se dando melhor que o principal rosto da banda quando cada um precisou caminhar sozinho.
Confira a entrevista completa abaixo.
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