Como o Pearl Jam transformou uma velha canção trágica dos anos 60 em seu maior hit
Por Bruce William
Postado em 24 de maio de 2026
"Last Kiss" já carregava uma história estranha muito antes de chegar ao Pearl Jam. A música foi escrita e gravada por Wayne Cochran no começo dos anos 60, relata a Far Out, mas só virou sucesso de verdade quando J. Frank Wilson and the Cavaliers lançaram sua versão em 1964. Era o fim de uma fase curiosa da música pop americana, em que canções sobre adolescentes mortos em acidentes, despedidas trágicas e amores interrompidos ainda encontravam espaço nas paradas.
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A letra é simples e quase cinematográfica: um rapaz sofre um acidente de carro com a namorada, ela morre em seus braços, e ele passa a cantar que precisa ser bom para reencontrá-la no céu. Esse tipo de canção era chamado, muitas vezes com certa crueldade, de "death disc", ou "disco de morte". "Teen Angel", "Tell Laura I Love Her" e "Leader of the Pack" pertencem ao mesmo território, em que carro, juventude, romance e tragédia apareciam misturados num drama de três minutos.
No caso de "Last Kiss", a história ficou ainda mais mórbida. Pouco depois do lançamento da versão de J. Frank Wilson and the Cavaliers, a banda se envolveu em um acidente de carro durante uma turnê. O empresário Sonley Roush morreu na batida, e Wilson ficou ferido. A tragédia ajudou, de forma sombria, a recolocar a música em evidência. A versão dos Cavaliers chegou ao segundo lugar da Billboard Hot 100 em 1964, atrás apenas de "Baby Love", das Supremes.
Décadas depois, Eddie Vedder encontrou um compacto antigo da música em uma loja de antiguidades em Seattle. Levou para casa, ouviu e ficou preso na canção. O Pearl Jam não pensou em transformar aquilo em grande single de carreira. A banda gravou "Last Kiss" de forma simples, durante uma passagem de som, para um compacto natalino do fã-clube. Stone Gossard comentou a ironia: você pode passar meses tentando escrever um hit ou simplesmente achar um single usado, se apaixonar por ele e gravar de forma meio descompromissada.
E é exatamente isto, pois a releitura do Pearl Jam não tenta modernizar demais a música. Vedder canta como quem respeita a ingenuidade trágica do original, sem transformar a faixa em piada nem em grande manifesto grunge. Talvez justamente por isso tenha funcionado. A gravação começou a circular entre fãs, chegou a rádios universitárias, depois a emissoras maiores, até virar um fenômeno inesperado para uma banda que, naquele momento, já não parecia interessada em seguir o manual do estrelato dos anos 90.
Em 1999, "Last Kiss" foi lançada ao público como single, com renda destinada a refugiados da Guerra do Kosovo, e também entrou na coletânea beneficente No Boundaries: A Benefit for the Kosovar Refugees. A música chegou ao segundo lugar da Billboard Hot 100, repetindo a posição alcançada pela versão de J. Frank Wilson 35 anos antes, e virou o single de maior posição do Pearl Jam na parada americana.
A situação era curiosa porque "Last Kiss" superou, em desempenho de parada, músicas próprias que definiram a banda, como "Alive", "Even Flow", "Jeremy" e "Daughter". Para Vedder, isso tinha um sabor especial justamente por não ter nascido de plano comercial. Ele diria depois que era a maior música que o Pearl Jam já havia tido no rádio, e que ela nem estava à venda quando começou a crescer. Para uma banda que havia se afastado de clipes, excesso de promoção e jogo pesado de indústria, era uma vitória meio torta, mas perfeita.
Wayne Cochran ainda estava vivo quando a versão do Pearl Jam estourou. Na época, já havia se tornado pastor na Flórida, bem longe da figura de cantor com topete gigantesco que marcou sua fase musical. Ele aprovou a releitura e disse ao South Florida Sun Sentinel que achava a versão "muito suave", elogiando o trabalho da banda. Também admitiu que queria muito ver a música chegar ao primeiro lugar, algo que não aconteceu nem em 1964 nem em 1999.
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