O cantor que não gostou de tocar antes dos Stones, e de sua raiva brotou um show incendiário
Por Bruce William
Postado em 20 de maio de 2026
A missão dos Rolling Stones naquela noite era ingrata: entrar no palco depois de James Brown. Não depois de um artista comum, nem de um bom cantor de soul, mas de um sujeito que tratava apresentação ao vivo como combate físico. Brown cantava, dançava, gritava, suava, comandava a banda com precisão militar e ainda parecia disposto a provar que qualquer um escalado depois dele estava condenado a parecer pequeno.
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O episódio aconteceu durante o T.A.M.I. Show, filmado em 1964, em Santa Monica, na Califórnia. A escalação reunia nomes como Chuck Berry, The Beach Boys, Marvin Gaye, The Supremes, Smokey Robinson & The Miracles, James Brown e Rolling Stones. Para o público, era uma vitrine enorme da música popular daquele momento. Para Brown, havia um problema bem objetivo: ele não deveria estar antes dos Stones.
Mick Jagger contou depois que Brown ficou incomodado por não ser o último da noite. Como Jagger já o conhecia, acabou virando uma espécie de para-raios da situação. "A experiência foi... James estava um pouco irritado por não ser o último do show e, como eu era o único que o tinha conhecido antes - de todas as pessoas trabalhando no show, incluindo os produtores - eu virei o bode expiatório", lembrou o vocalista ao Entertainment News (via Far Out).
O resultado foi uma daquelas cenas em que a raiva trabalha a favor do espetáculo. Brown entrou como se estivesse defendendo seu trono diante de uma invasão britânica. "Please, Please, Please" virou quase teatro puro, com ele sendo coberto por uma capa, tentando sair de cena, voltando para cantar mais, sendo novamente "segurado" pelos músicos e levando a plateia junto. Era soul, era drama, era coreografia, era desafio. Os Stones ainda tocariam depois, mas Brown havia deixado uma cratera no palco.
Jagger reconheceu a força da apresentação sem tentar reescrever a história a seu favor. "Ele fez essa performance incrível e nós entramos depois, mas, no fim, acho que não importou muito", disse. A frase soa quase como rendição elegante. Os Stones estavam em ascensão, tinham carisma, atitude e já entendiam muito bem a linguagem do rock e do blues. Mas competir com James Brown em seu território era outra história.
A irritação de Brown também tinha lógica. Ele não era um novato abrindo para uma banda maior. Já era um dos maiores nomes da música negra americana, um artista que havia construído sua reputação justamente em cima do palco. Ver um grupo britânico jovem, formado por músicos que também bebiam de fontes negras americanas, ocupando o fechamento do programa podia soar como desrespeito, mesmo que a decisão viesse de produtores e não dos Stones.
O tempo acabou dando ao episódio um sabor especial. A apresentação de James Brown no T.A.M.I. Show virou uma das mais celebradas de sua carreira, frequentemente lembrada como prova de sua brutalidade cênica. Os Rolling Stones sobreviveram à tarefa impossível e continuaram crescendo até se tornarem uma das maiores bandas do rock. Mas naquela noite, antes de eles entrarem, Brown fez questão de deixar um aviso: quem viesse depois teria que pisar no palco ainda quente.
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