O clássico do prog setentista apontado pelo Hall da Fama como essencial ao rock moderno
Por Bruce William
Postado em 01 de julho de 2026
O Yes teve seu maior sucesso comercial nos anos 1980 com "Owner of a Lonely Heart", mas a história da banda não começou ali. Antes de chegar ao rádio com um som mais direto, moderno e adaptado ao período da MTV, o grupo já havia construído uma reputação enorme dentro do rock progressivo, com músicas longas, arranjos complexos e uma ideia bem pouco econômica de composição.
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Nos anos 1970, o Yes era uma banda que parecia interessada em abrir espaço dentro das músicas. Não bastava riff, refrão e solo. Havia mudanças de andamento, passagens instrumentais, camadas de teclado, linhas de baixo muito presentes e vocais que criavam uma espécie de arquitetura própria. Para alguns ouvintes, aquilo era excesso. Para outros, era justamente o encanto.
"Roundabout", lançada em 1972 no álbum "Fragile", virou uma das melhores sínteses desse equilíbrio. A música tinha cara de progressivo, mas também possuía um gancho forte o bastante para atravessar a barreira do público especializado. Era elaborada, cheia de movimentos internos, mas não parecia fechada em si mesma. Havia ali uma energia de canção, mesmo dentro de uma estrutura mais ampla.
A faixa original tinha cerca de oito minutos, mas ganhou uma versão editada para tocar no rádio, com aproximadamente três minutos. Foi uma solução prática, embora nem todos na banda tenham ficado encantados com a tesoura usada para transformar uma peça progressiva em single. Jon Anderson contou que o grupo ouviu a edição no rádio sem nem saber que ela havia sido lançada. A banda estava na estrada, vivendo a rotina de shows, quando se deparou com aquela versão encurtada.
A reação misturou surpresa, estranhamento e uma certa consciência de que o corte havia sido radical. "Quando ouvimos pela primeira vez o single de 'Roundabout', foi no rádio. Não sabíamos que tinha sido lançado. Estávamos ocupados sendo uma banda na estrada, e então ouvimos a edição e pensamos: 'Uau, deve ter sido uma tesoura enorme para editar essa música'. Quero dizer, musicalmente estava totalmente errado."
Mesmo com a estranheza, a edição funcionou. Como aponta a Far Out, "Roundabout" foi o maior sucesso do Yes antes de "Owner of a Lonely Heart", e levou a banda a um público maior, ajudando a mostrar que o rock progressivo podia conversar com as paradas sem se transformar completamente em outra coisa.
O próprio Anderson reconheceu que, apesar do incômodo musical, o single abriu portas para a banda. "Na verdade funcionou e, de repente, ficamos famosos, tivemos um hit e mais pessoas vieram nos ver, o que foi ótimo, porque então elas viam a progressão musical que estávamos fazendo e nos enxergavam mais como banda, e não apenas esperando por 'Roundabout'. Porque não fazíamos aquela 'Roundabout' naquela época. Fazíamos a versão de oito minutos."
Então, no rádio, "Roundabout" virou uma porta de entrada. No palco, continuava sendo uma experiência mais longa, mais próxima do universo real do Yes. Quem chegava atraído pelo single encontrava uma banda que não se limitava à música editada. O compacto chamava o público; o show explicava melhor a proposta.
O caso também ajuda a separar "Roundabout" de "Owner of a Lonely Heart". O hit de 1983 foi construído dentro de outra lógica, mais voltada para uma sonoridade de época e para a busca consciente por sucesso comercial. Já "Roundabout" parecia um sucesso arrancado de dentro do próprio idioma progressivo da banda. Não era o Yes tentando virar outra coisa. Era o Yes encontrando, quase por acidente, um ponto de contato com o rádio.
A própria trajetória posterior do grupo mostra como esse tipo de pressão podia ser complicado. Jon Anderson contou que, na época de "Big Generator", de 1987, a banda estava cercada por cobranças para fazer outro hit. Gravadora e empresários comparavam músicas e pediam algo parecido com o que estava funcionando no mercado. O sucesso, nesse caso, vinha acompanhado de uma armadilha.
"Roundabout" ficou em outro lugar da história. Ela não apenas ajudou o Yes a crescer; também se tornou uma das faixas mais reconhecidas do rock progressivo. Sua presença em listas e homenagens posteriores mostra que a música ultrapassou a função de single bem-sucedido. O Rock and Roll Hall of Fame a incluiu em uma seleção de canções importantes para a formação do rock moderno, destacando seu peso dentro do progressivo.
A escolha faz sentido. "Roundabout" mostra uma banda ambiciosa sem perder completamente o senso de impacto. Tem virtuosidade, mas também tem memória. Tem construção, mas também tem impulso. Em poucos segundos, a introdução já cria uma identidade; ao longo da faixa, o Yes expande essa ideia sem deixar que ela vire apenas demonstração técnica.
Para uma banda muitas vezes associada a longas viagens instrumentais, "Roundabout" virou prova de que o progressivo também podia produzir clássicos reconhecíveis fora de seu próprio território. O rádio precisou cortar bastante coisa para caber no formato. Mas nem a tesoura conseguiu apagar a força da música.
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