A banda de rock que não saía dos ouvidos do escritor Gabriel García Márquez
Por Gustavo Maiato
Postado em 22 de agosto de 2026
Gabriel García Márquez escreveu "Cem Anos de Solidão" entre 1965 e 1966, na Cidade do México, num período de reclusão febril. Durante aquele ano, o escritor colombiano se permitiu ouvir apenas dois discos, gastos de tanto tocar. Um era uma seleção de prelúdios de Debussy. O outro, "A Hard Day's Night", dos Beatles.
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O próprio autor registrou o detalhe em "Viver para Contar", volume autobiográfico publicado em 2002. "No México, enquanto eu escrevia 'Cem Anos de Solidão' - entre 1965 e 1966 -, eu tinha apenas dois discos, que ficaram gastos de tanto serem tocados" (via Goodreads), escreveu.
A relação de García Márquez com a banda britânica, porém, ia muito além de trilha sonora de trabalho. Em um texto sobre o assunto, resgatado pela Vogue, o escritor descreveu o momento exato em que percebeu o que estava acontecendo. "Não esquecerei aquele dia memorável de 1963, no México, quando ouvi pela primeira vez de modo consciente uma canção dos Beatles", relatou. "A partir de então descobri que o universo estava contaminado por eles."
O escritor descreveu uma cidade tomada. "Por toda a cidade, a toda hora, ouvia-se um grito de multidões: 'Help, I need somebody'." E contou como o tema virou pauta recorrente nas rodas intelectuais que frequentava. Numa discussão sobre os grandes compositores começados com a letra B - Bach, Beethoven, Brahms, Bartók -, García Márquez fez questão de defender a inclusão dos Beatles na lista. Álvaro Mutis insistia em Bruckner; outro tentava emplacar Berlioz, que o colombiano rejeitava por superstição, considerando-o pássaro de mau agouro.
Uma frase do crítico de cinema Emilio García Riera ficou marcada para ele. "Ouço os Beatles com um certo medo, porque sinto que vou me lembrar deles pelo resto da minha vida" (via TN), disse Riera. Para García Márquez, era o único caso que conhecia de alguém com clarividência suficiente para perceber que estava vivendo o nascimento das próprias nostalgias.
O escritor também registrou uma imagem do colega Carlos Fuentes trabalhando: datilografando com um único dedo de uma só mão, envolto numa densa nuvem de fumaça e isolado dos horrores do universo com a música dos Beatles em volume máximo.
O balanço final é o de alguém que enxergou uma fratura histórica. "Esta tarde, pensando em tudo isso diante de uma janela lúgubre onde cai a neve, com mais de cinquenta anos nas costas e ainda sem saber muito bem quem sou nem que diabos faço aqui, tenho a impressão de que o mundo foi igual desde meu nascimento até que os Beatles começaram a cantar", escreveu. "Tudo mudou então. Os homens deixaram crescer o cabelo e a barba, as mulheres aprenderam a se despir com naturalidade, mudou o modo de vestir e de amar."
Para o autor, havia ainda uma dimensão familiar na questão. "A única nostalgia comum que se tem com os filhos são as canções dos Beatles", observou. "Cada um por motivos distintos, claro, e com uma dor distinta, como acontece sempre com a poesia."
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