A função de Bon Scott no AC/DC que Brian Johnson ficou receoso de assumir
Por Bruce William
Postado em 04 de setembro de 2026
Substituir Bon Scott no AC/DC já seria uma tarefa ingrata apenas pelo que ele representava sobre o palco. Quando Brian Johnson entrou para a banda em 1980, porém, havia outro problema menos evidente: além de cantar, o novo vocalista teria de ajudar a escrever letras depois de ocupar o lugar de um sujeito que ele próprio enxergava como poeta.
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Bon havia desenvolvido uma linguagem muito particular ao longo dos discos gravados com o AC/DC. Suas letras misturavam sexo, bebida, problemas financeiros, confusão e humor, quase sempre narrados com a perspectiva de alguém que parecia ter acabado de sair da situação descrita na música. Angus Young já o definiu como um dos letristas mais subestimados do rock e disse considerar poesia até aquilo que poderia ser descartado como "letra de sarjeta".
Brian Johnson também nunca tentou diminuir esse legado. Relembrando a criação de "Back in Black", contou que sentia o tamanho da responsabilidade enquanto o grupo preparava seu primeiro álbum depois da morte de Bon. "Quem sou eu para tentar seguir os passos desse grande poeta?", recordou, conforme publicado na Far Out. Para Brian, Bon "realmente era uma espécie de poeta".
A situação ficava ainda mais peculiar porque os dois haviam se cruzado antes de qualquer um imaginar que suas histórias acabariam ligadas para sempre. Bon viu Johnson cantando com o Geordie nos anos 1970 e ficou impressionado. Anos depois, quando o AC/DC precisou procurar um vocalista, Angus e Malcolm Young se lembraram justamente dos elogios feitos pelo amigo morto.
Johnson entrou e imediatamente recebeu também uma caneta. Durante as sessões de "Back in Black", Malcolm Young perguntou se ele conseguia escrever letras. O novo integrante passou a trabalhar sobre riffs e títulos apresentados pelos irmãos, numa situação que transformaria seu primeiro trabalho com a banda em um dos discos mais bem-sucedidos da história do rock.
O resultado inclui letras como "Hells Bells", "You Shook Me All Night Long" e a própria "Back in Black". Esta última carregava uma dificuldade extra: homenagear Bon sem transformar o disco numa coleção de músicas fúnebres. Segundo Johnson, a orientação era celebrar a vida do antigo vocalista, e não produzir algo mórbido.
A comparação entre os dois nunca desapareceu completamente, mas Johnson sempre tratou o predecessor com respeito. Décadas depois, ao participar de um documentário australiano sobre Bon, resumiu a relação de maneira simples: disse que Scott ainda o inspirava e que continuava rindo ao rever suas entrevistas antigas. "Ele era um cara especial", afirmou.
Talvez isso ajude a explicar por que a sucessão funcionou tão bem. Brian não precisava provar que Bon Scott era menos importante para justificar sua própria presença no AC/DC. Entrou sabendo exatamente o tamanho do sujeito que havia ocupado aquele microfone antes dele - e acabou construindo uma história gigantesca sem precisar apagar a anterior.
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