A experiência acústica que revelou a genialidade de Bon Scott longe do AC/DC
Por Lucas Caldeira
Postado em 10 de setembro de 2026
Mark Kozelek tocava "What's Next to the Moon" em um clube na Espanha quando alguém na plateia pensou estar ouvindo Leonard Cohen.
A confusão fazia sentido. Kozelek, músico conhecido pelo trabalho com Red House Painters e Sun Kil Moon, apresentava a música sozinho, com seu violão, em uma interpretação distante do hard rock do AC/DC.
A composição, porém, era de Bon Scott.
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A história resume bem o que Kozelek descobriu ao longo de seu contato com o repertório do AC/DC. Por trás dos riffs de Angus Young, da bateria de Phil Rudd e da voz de Scott havia músicas que podiam funcionar em uma linguagem completamente diferente.
Bon Scott pelo violão
Kozelek começou a explorar o repertório do AC/DC no final dos anos 1990. Em 2000, lançou o EP "Rock 'n' Roll Singer", com três versões de músicas da banda.
No ano seguinte, ampliou a experiência com o álbum "What's Next to the Moon", reunindo dez composições da fase de Bon Scott, incluindo "Riff Raff", "Walk All Over You", "If You Want Blood" e a própria faixa-título.
Kozelek levou as músicas para o folk e deixou os arranjos muito mais enxutos. O resultado chamou atenção porque as canções continuaram funcionando mesmo sem boa parte dos elementos que normalmente definem o som do AC/DC.
Para o músico, a explicação estava principalmente nas composições.
O que Kozelek encontrou nas letras
Kozelek conta que passou a perceber melhor a qualidade das letras de Bon Scott enquanto trabalhava nas versões.
As músicas traziam personagens, situações e histórias. "Jailbreak" acompanha uma fuga da prisão. "Dirty Deeds Done Dirt Cheap" apresenta um personagem disposto a resolver problemas por dinheiro. "The Jack" transforma uma história sobre uma mulher em uma narrativa cheia de duplo sentido.
Há humor, exagero e uma linguagem bastante característica, mas também existe uma preocupação clara em construir cenas.
Com os arranjos acústicos, esse aspecto ganhou mais espaço. A voz e o violão deixaram as letras mais expostas, e Kozelek encontrou nelas uma afinidade com a tradição folk que já fazia parte de seu trabalho.
Ao colocar as duas gravações lado a lado, a diferença fica evidente. Na versão do AC/DC, o riff e a banda conduzem a música. Na de Kozelek, o foco vai para a narrativa.
Malcolm Young ouviu o resultado
A experiência poderia ter ficado restrita ao universo de Kozelek, mas o álbum chegou aos ouvidos de pessoas diretamente ligadas ao AC/DC.
Segundo o músico, Malcolm Young ouviu "What's Next to the Moon" e aprovou o trabalho. Brian Johnson também demonstrou apoio às versões.
A reação de Malcolm tem um peso especial. Ele participou da construção da sonoridade do AC/DC durante toda a fase de Bon Scott e foi parceiro de composição de Angus Young em praticamente toda a trajetória da banda.
Para Kozelek, a intenção nunca foi reproduzir o AC/DC, mas descobrir como as músicas funcionariam em outra linguagem.
Quando o peso do AC/DC sai de cena, continuam ali as melodias, os personagens e as histórias escritas por Bon Scott.
Kozelek começou ouvindo AC/DC como fã. Terminou o projeto enxergando de outra maneira o compositor que existia por trás de Bon Scott.
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