Clássico do Greenslade ganha sua primeira edição brasileira mais de 50 anos depois
Por Bruce William
Postado em 03 de setembro de 2026
Há discos que envelhecem como peças de época e há outros que continuam estranhos o suficiente para parecerem deslocados de qualquer período. "Bedside Manners Are Extra", segundo álbum do Greenslade, lançado originalmente em novembro de 1973, pertence bastante à segunda categoria.

Mais de meio século depois de seu lançamento original, ele finalmente chega ao mercado brasileiro em edição nacional em CD lançada pela Melômano Discos em parceria com a Voice Music, preenchendo uma curiosa lacuna na discografia da banda por aqui, já que os demais álbuns setentistas - "Greenslade" (1973), "Spyglass Guest" (1974) e Time And Tide (1975) - saíram em vinil no Brasil na época.
A formação já explica boa parte da personalidade do grupo. Dave Greenslade e Tony Reeves vinham do Colosseum, Dave Lawson passara por Samurai e Fields, enquanto Andrew McCulloch havia tocado no King Crimson. O detalhe mais marcante era outro: o Greenslade simplesmente não tinha guitarrista. Dave Greenslade e Dave Lawson dividiam uma verdadeira parede de teclados, deixando para baixo e bateria a função de dar peso a músicas que poderiam facilmente cair no excesso de delicadeza.
A escolha não surgiu de qualquer cruzada contra a guitarra. Dave Greenslade explicou anos depois que tinha apenas a ideia de montar um grupo com dois tecladistas cercados por diferentes instrumentos. "Todo mundo dizia: 'Isso nunca vai funcionar'. Bem, eles estavam errados", relembrou em entrevista ao Louder. O próprio músico considera "Bedside Manners Are Extra" talvez seu álbum favorito do Greenslade.
A faixa-título abre o disco deixando claro por que a fórmula funcionava. Mellotron, piano elétrico, órgão e sintetizadores ocupam espaços diferentes sem transformar a música em simples demonstração de equipamento. Lawson canta com uma voz peculiar, distante do padrão cristalino de muitos vocalistas progressivos, enquanto a seção rítmica mantém o arranjo permanentemente em movimento.
"Pilgrims Progress" amplia esse lado mais melódico, enquanto "Time to Dream" trabalha uma atmosfera mais contemplativa sem perder aquela sensação ligeiramente inquietante que acompanha boa parte do álbum. O Greenslade era progressivo, evidentemente, mas não parecia interessado em construir épicos intermináveis apenas para provar que sabia fazê-los. Mesmo quando a música se torna complexa, existe quase sempre uma canção reconhecível por baixo das mudanças de andamento e dos teclados.
A segunda metade é onde o álbum mostra melhor sua elasticidade. "Drum Folk" abre espaço para Andrew McCulloch, músico frequentemente esquecido quando se fala dos grandes bateristas britânicos daquele período. "Sunkissed You're Not" e "Chalkhill" se aproximam mais do jazz-rock, algo que Dave Greenslade, em conversa com a Let it Rock, admitiria que isso tinha relação, ainda que não deliberadamente, com o ambiente musical da época e com sua admiração pela Mahavishnu Orchestra.
Apesar da quantidade de teclados e das referências progressivas, o álbum foi gravado de maneira surpreendentemente direta. A banda ensaiou intensamente antes de entrar no Morgan Studios, em Londres, e concluiu as gravações em apenas nove dias, com poucos overdubs e uma abordagem bastante próxima de uma execução ao vivo. Essa combinação ajuda a explicar por que o disco soa elaborado sem ficar excessivamente polido.
A capa de Roger Dean completa a identidade do álbum e reforça imediatamente a ligação com a estética progressiva dos anos 1970, mas "Bedside Manners Are Extra" tem personalidade suficiente para não depender apenas desse imaginário. É um disco de teclados abundantes, sim, porém sustentado por uma seção rítmica excepcional e por composições que raramente deixam a técnica engolir a música.
A edição brasileira de 2026 da Melômano Discos traz áudio remasterizado, com encarte de 12 páginas, OBI e as seis faixas do álbum original. Para quem já conhece o Greenslade, é uma oportunidade bastante acessível de ter o disco em edição nacional. Para quem nunca ouviu, talvez seja uma boa porta de entrada para uma banda que conseguiu provar, em 1973, que duas pilhas de teclados podiam ocupar perfeitamente o espaço onde quase todo mundo esperava encontrar uma guitarra.
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