Angra - como foi assistir a um show da banda em Campinas
Resenha - Angra (Multi Arena, Campinas, 04/09/2026)
Por Fábio Ruivo Brolo
Postado em 23 de setembro de 2026
Assistir ao Angra ao vivo sempre envolve uma expectativa diferente. Não é apenas uma banda executando um repertório conhecido: existe toda uma história, mudanças de formação, diferentes fases e uma relação muito forte com quem acompanha o grupo há anos. No show realizado no Multi Arena Campinas, uma coisa ficou bastante clara para mim: o Angra continua sendo Angra.
E a primeira boa impressão veio antes mesmo da primeira música.
22h30 em ponto.
Era esse o horário previsto para o início do show e, exatamente às 22h30, a banda subiu ao palco. Pode parecer algo pequeno, mas não é. Em um cenário no qual atrasos em apresentações se tornaram tão comuns, começar rigorosamente no horário marcado demonstra respeito por quem comprou ingresso e se organizou para estar ali.

No palco estavam Alirio Netto nos vocais, Rafael Bittencourt e Marcelo Barbosa nas guitarras, Felipe Andreoli no baixo e Bruno Valverde na bateria.
Falar sobre a técnica ou a qualidade desses músicos seria chover no molhado. Quem acompanha o Angra sabe o nível dos integrantes que passaram e continuam passando pela banda. O mais interessante naquela noite era perceber como essa formação lidaria com um repertório tão ligado a diferentes momentos da história do grupo.
E a primeira parte do show praticamente transportou o público para 1996.
Depois da introdução de "Crossing", vieram "Nothing to Say", "Silence and Distance", "Carolina IV", "Holy Land", "The Shaman", "Make Believe", "Z.I.T.O.", "Deep Blue" e "Lullaby for Lucifer".
Holy Land foi executado na íntegra.
E ouvir o álbum dessa maneira é uma experiência muito diferente de assistir a duas ou três músicas dele espalhadas por um setlist convencional. Existe uma sequência, uma atmosfera e uma identidade que ficam muito mais evidentes quando o disco é apresentado como uma obra completa.
"Carolina IV", particularmente, continua sendo um daqueles momentos em que fica fácil entender por que Holy Land ocupa um lugar tão especial na discografia do Angra.
Mas o show não ficou preso ao álbum.
Depois vieram "Stand Away", "Tide of Changes – Part I", "Tide of Changes – Part II", "Angels and Demons", "Wuthering Heights", "Waiting Silence", "Carry On" e "Rebirth", antes do bis com "In Excelsis" e "Nova Era".
Essa segunda metade acabou transformando a apresentação em uma passagem por diferentes períodos da banda.
E é justamente aí que Alirio Netto ganha ainda mais importância.
Assumir os vocais de uma banda que teve Andre Matos, Edu Falaschi e Fabio Lione inevitavelmente provoca comparações. Alirio, porém, parece entender que tentar reproduzir qualquer um deles seria um erro.
Ele canta como Alirio Netto.
E funciona.
Mais do que a capacidade vocal, foi seu carisma que mais me chamou atenção em Campinas. Alirio conversa com a plateia, brinca e parece realmente interessado em diminuir a distância entre quem está no palco e quem está assistindo.
O resultado é um Angra divertido.
E isso talvez seja uma característica que nem sempre apareça imediatamente quando pensamos em uma banda conhecida pela complexidade de suas músicas. O show não é sisudo. Existe descontração, interação e uma sensação de que os próprios músicos estão aproveitando aquela noite.
Um dos momentos mais especiais aconteceu em "Wuthering Heights".
A versão de Kate Bush ficou eternamente marcada na história do Angra pela interpretação de Andre Matos, e foi justamente durante a música que aconteceu a homenagem ao ex-vocalista.
Foi um momento de memória e respeito, sem transformar o restante da apresentação em um exercício de nostalgia.
Andre é impossível de separar da história do Angra, especialmente quando Holy Land é o centro de uma apresentação. A banda parece compreender isso perfeitamente: reconhece seu passado sem precisar viver exclusivamente dele.
Já "Carry On" entregou provavelmente a cena mais divertida da noite.
Alirio desceu do palco e começou a cantar no meio do público.
E não ficou apenas próximo às primeiras fileiras. Continuou caminhando enquanto cantava e chegou a dar a volta pela região do camarote.
Em uma música que praticamente qualquer fã do Angra sabe cantar, a barreira entre artista e plateia desapareceu durante alguns minutos.
Foi espontâneo, divertido e combinou perfeitamente com o comportamento de Alirio durante toda a apresentação.
Depois de "Rebirth", o show ainda reservou "In Excelsis" e "Nova Era" para o bis.
E terminar com "Nova Era" acabou tendo até um significado involuntário interessante.
Porque é justamente de uma nova era que o Angra vive novamente.
Andre Matos faz parte dessa história. Edu Falaschi faz parte dessa história. Fabio Lione faz parte dessa história. Cada um deixou uma identidade e ajudou a construir aquilo que a banda se tornou.
Agora Alirio Netto começa a escrever a parte dele.
E talvez essa tenha sido a principal impressão que levei do Multi Arena Campinas. Não vi uma banda tentando substituir o passado ou fingindo que determinadas fases nunca existiram.
Também não vi uma banda vivendo exclusivamente de nostalgia.
Vi Rafael Bittencourt, Marcelo Barbosa, Felipe Andreoli, Bruno Valverde e Alirio Netto confortáveis com aquilo que o nome Angra representa.
Holy Land continua sendo Holy Land. "Carry On" continua provocando uma reação imediata. "Rebirth" e "Nova Era" continuam representando outra geração de fãs. E músicas mais recentes convivem com tudo isso sem parecerem pertencer a outra banda.
Talvez esteja justamente aí a força do Angra depois de tantas mudanças.
O grupo passou por diferentes vocalistas, formações e momentos, mas alguma coisa permaneceu reconhecível durante todo esse percurso.
Depois de Holy Land na íntegra, da homenagem a André Matos durante "Wuthering Heights", de Alirio cantando "Carry On" no meio da plateia e de "Nova Era" encerrando a noite, saí do Multi Arena Campinas com uma conclusão bastante simples:
Setlist do show em Campinas:
Crossing
Nothing to Say
Silence and Distance
Carolina IV
Holy Land
The Shaman
Make Believe
Z.I.T.O.
Deep Blue
Lullaby for Lucifer
Stand Away
Tide of Changes – Part I
Tide of Changes – Part II
Angels and Demons
Wuthering Heights
Waiting Silence
Carry On
Rebirth
Bis:
In Excelsis
Nova Era
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