Violeta de Outono revisita o álbum que parecia antigo em 1987 e continua atual em 2026
Por Bruce William
Postado em 02 de setembro de 2026
Em 1987, enquanto boa parte do rock brasileiro procurava traduzir para o país o que acontecia naquele momento em Londres, Nova York e outras capitais musicais, o Violeta de Outono resolveu olhar para trás. Não alguns anos, mas duas décadas. Beatles psicodélicos, o Pink Floyd dos primeiros tempos, a atmosfera dos anos sessenta, Gong e outras referências que estavam longe de representar a música mais óbvia daquele período entraram numa mistura que também absorvia algo do pós-punk que cercava Fabio Golfetti, Angelo Pastorello e Claudio Souza em São Paulo.

O resultado foi "Violeta de Outono", primeiro LP do grupo, lançado em 1987 e agora recuperado pela Melômano Discos em parceria com a Voice Music numa edição limitada em vinil splatter. O novo lançamento traz capa dupla com acabamento soft touch e hot stamping, além de encarte com fotografias inéditas e texto de André Barcinski. Golfetti também trabalhou na remasterização no estúdio Seven Keys, em São Paulo.

No texto preparado para a nova edição, Barcinski ajuda a entender o tamanho da estranheza provocada pelo Violeta naquele cenário. Em meados dos anos 1980, conhecer música alternativa estrangeira exigia bem mais esforço do que abrir um aplicativo e seguir uma recomendação. No Rio de Janeiro havia a Fluminense FM; em São Paulo, a então jovem 89 FM cumpria papel semelhante. Foi justamente pelas rádios que as demos do Violeta começaram a circular antes do primeiro disco. A banda parecia pertencer ao pós-punk, embora trouxesse uma bagagem que ia de Syd Barrett e Beatles a Gong e Soft Machine. Barcinski encontra um paralelo contemporâneo especialmente feliz no Echo & The Bunnymen de "Porcupine", de 1983.
Golfetti lembra dessa conexão de maneira muito parecida. Em entrevista a Gastão Moreira para o KazaGastão (youtube), contou o impacto de perceber uma banda dos anos oitenta recuperando uma linguagem que parecia ter ficado congelada em 1966 ou 1967. O guitarrista Will Sergeant, em particular, remetia para ele à maneira de Syd Barrett atacar as cordas. Ao mesmo tempo, o Violeta buscava o Pink Floyd mais melancólico dos primeiros anos, passando por discos como "More" e "Ummagumma". "Era uma inspiração que dava pra gente chegar perto. Não dava pra ser o Frank Zappa nem o Gong ou Soft Machine nem nada disso, mas dava pra ser um Pink Floyd, dava pra ter aquela sonoridade de forma mais intuitiva, mais simples" A intenção não era reproduzir aquelas bandas, mas perceber que era possível trabalhar com aquela atmosfera dentro de outro tempo.
Uma música ajuda a explicar quase tudo: "Tomorrow Never Knows", encerramento revolucionário de "Revolver", dos Beatles. Ela apareceu já nos primeiros ensaios do Violeta e forneceu uma espécie de mapa para o grupo. Golfetti descreveu a faixa como monotonal e mântrica e disse ao Som de Peso (youtube) que ela "moldou um pouco a sonoridade" que procuravam. E ao conversar com Gastão Moreira, foi ainda mais longe: para ele, "Tomorrow Never Knows" foi "a música que deu a base pro Violeta existir na sonoridade da banda".
Antes do LP houve o EP lançado pela Wop Bop, em 1986, com três músicas. Golfetti o considera uma espécie de síntese primordial do Violeta: uma faixa mais pop, outra intermediária e uma terceira mais experimental. O álbum da RCA veio poucos meses depois e pertence essencialmente ao mesmo período criativo. A diferença estava nas possibilidades. O EP havia sido registrado em oito canais e com recursos modestos; na RCA, o trio encontrou um estúdio de grande porte e equipamentos que permitiam tentar algo que, paradoxalmente, parecia muito menos moderno. A banda queria soar como banda.
Foi aí que surgiu uma das decisões fundamentais para a personalidade do álbum. Em vez de aderir à produção típica de boa parte dos anos oitenta, com metrônomos, baterias eletrônicas e instrumentos registrados separadamente, o Violeta montou dentro do estúdio uma configuração semelhante à de um palco. Bateria num praticável, amplificadores posicionados para reduzir vazamentos e os três músicos tocando juntos. Durante uma semana de pré-produção, ensaiaram, experimentaram e registraram diferentes takes até chegar às versões usadas no disco.
"Nessa época não tinha essa de consertar depois", resumiu Golfetti na entrevista a Bruno Ascari, do Som de Peso. "Você gravava o som que você já estava gravando, já era praticamente o som pronto." Até a mixagem carregava algo quase performático: várias mãos trabalhando simultaneamente nos faders da mesa.
Outro aliado foi o próprio espaço. A sala da RCA comportava gravações de orquestra, e o Violeta resolveu aproveitar sua reverberação natural em vez de fabricar toda a ambiência eletronicamente. "Esse reverber natural dessa sala é incrível, então vamos aproveitar isso", recordou Golfetti. As bases foram registradas ao vivo com aquela acústica, enquanto guitarra e voz receberam overdubs posteriormente. O músico define o resultado como "bastante orgânico, não muito preciso" - imperfeição, nesse caso, não como problema, mas como parte da proposta.
A mesma lógica aparecia nas composições. As letras evitavam a narrativa direta e trabalhavam com imagens, paisagens e associações quase surrealistas. "Outono", que já havia aparecido no EP e voltou no LP, teve sua letra adaptada por Golfetti e Irene Sinnecker a partir de um poema do chinês Li Yu, do século X; o imaginário da banda também se aproximava de poesia oriental e do I Ching. O crédito dessa adaptação consta na própria discografia oficial do grupo. Essa combinação ajudava a formar o que o jornalista Ricardo Alexandre certa vez chamou de "psicodelia cinzenta" - expressão que Golfetti adotou com gosto para diferenciar o universo do Violeta da psicodelia colorida de São Francisco. Era uma música de sombras, melancolia e espaços vazios.
É por isso que talvez o comentário mais revelador de Golfetti sobre o álbum tenha surgido décadas depois, na conversa com o Gastão. Ao rever o disco, ele percebeu que a decisão de ignorar várias marcas de fabricação de 1987 acabou fazendo com que o trabalho envelhecesse de maneira peculiar: "É um som que podia ter sido gravado naquela época, podia ser gravado em 69, podia ter sido gravado agora." O paradoxo combina com a observação feita por Barcinski para a nova edição: ao recorrer ao passado numa época em que aquilo estava longe da moda, o Violeta acabou produzindo um disco que, olhando para trás, apontava também para o futuro.
As nove faixas - "Outono", "Declínio de Maio", "Faces", "Luz", "Retorno", "Dia Eterno", "Noturno Deserto", "Sombras Flutuantes" e a versão de "Tomorrow Never Knows" - foram gravadas entre fevereiro e maio de 1987. "Outono" e "Dia Eterno" ganharam boa exposição nas rádios, e aquela estreia consolidou uma identidade que continuaria reconhecível mesmo nas muitas mudanças posteriores da banda.
Quase 40 anos depois, o círculo se fecha de maneira apropriada. A nova edição tem lançamento oficial marcado para 4 de setembro de 2026, acompanhado de uma apresentação especial no Sesc Pompeia, em São Paulo. No palco estarão os três integrantes da formação original - Fabio Golfetti, Angelo Pastorello e Claudio Souza - acompanhados por Gabriel Golfetti nos teclados. O álbum de 1987 será o centro do repertório, ao lado de outros momentos da carreira.
Em uma época em que discos antigos são relançados aos montes, nem todo retorno precisa carregar uma grande tese histórica. Neste caso, porém, existe uma ironia especialmente boa: o Violeta de Outono passou boa parte de 1987 olhando para vinte anos antes. Trinta e nove anos depois, aquele disco ainda parece ter dificuldade para dizer exatamente a que época pertence.
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