O grupo vocal dos anos 1980 que perdeu espaço para a onda do rock nacional
Por Gustavo Maiato
Postado em 22 de setembro de 2026
O cantor Dalmo Medeiros, atual primeira voz do MPB4, aponta a ascensão do rock brasileiro como a razão pela qual o grupo vocal Céu da Boca nunca alcançou público amplo. A avaliação apareceu em entrevista ao podcast Corredor 5, em que o músico refez a própria trajetória, do coral universitário no Rio de Janeiro até a entrada no conjunto vocal, duas décadas atrás. O grupo chegou a gravar dois discos antes de o mercado virar a chave.

"O Céu da Boca era um grupo que eu acho que só não fez mais sucesso porque no meio dos anos 80 as gravadoras viraram pro rock, o foco pro rock. Ali surgiu Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Kid Abelha, Biquíni. Começou a surgir um monte de grupos e começou a dar certo aquilo ali", afirmou o cantor. A leitura vem de quem estava do outro lado da transição, disputando espaço em catálogo com as bandas que passariam a definir a década.
Nascido na escola de música Pró-Arte, o conjunto surgiu de uma dissidência do coral regido por Joaquim Moraes. Um grupo de doze cantores queria fazer música brasileira e se separou sob o nome Desbundetes, seis homens e seis mulheres. A formação encolheu para dez integrantes e adotou o nome definitivo. O primeiro disco, independente e quase todo a capela, foi produzido por João Mário, que também cuidava do Boca Livre à época.
Sem lugar nas prioridades das gravadoras, o Céu da Boca se reinventou como célula de estúdio e passou a emprestar os vocais a outros artistas. Nessa fase gravou com Ivan Lins e Joyce, participou de "O Grande Circo Místico", de Edu Lobo e Chico Buarque, e dividiu um bloco vocal com o Roupa Nova em disco de Elba Ramalho. Medeiros reconhece que o nome circulava dentro da classe musical, não entre o público comum.
O sistema de remuneração da época ajudava. Segundo o relato ao Corredor 5, os cantores recebiam por período de gravação, e cada dobra de voz sobre a própria faixa rendia um novo pagamento integral. Medeiros conta que o Céu da Boca passou quase um mês em estúdio no disco instrumental de César Camargo Mariano, gravado no lugar de um álbum que seria de Elis Regina. Com o cachê acumulado, reformou uma casa em Botafogo.
Salvador foi o destino seguinte. Radicado na Bahia por 13 anos, o músico afirma ter participado de cerca de 400 discos, entre jingles políticos, axé e sessões para artistas locais. A virada aconteceu quando emplacou nove músicas em um carnaval e teve um frevo escolhido por Elba Ramalho para abrir um álbum. A partir daí passou a compor, assinou contrato de exclusividade com a BMG e comprou um apartamento com o adiantamento.
Curiosamente, o rock voltaria à trajetória do cantor por outra porta. No primeiro disco solo, lançado no fim do ano passado e financiado por campanha coletiva, quem assina as guitarras de "Proibir Para Quê?" e "A Flor da Pele" é Serginho Vulcanes, do Hanói-Hanói. O álbum mistura composições inéditas e faixas já gravadas por outros artistas ao longo da carreira.
Confira o vídeo completo abaixo.
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