"Para Nóia", de Raul Seixas, entre o superego e a ditadura
Por Lucas Monteiro
Postado em 16 de outubro de 2026
Na Grécia antiga, paránoia era um termo associado à loucura ou ao adoecimento da mente, dando origem à palavra paranoia. Popularmente, o termo é utilizado de forma genérica para se referir a delírios ou à sensação de estar sendo perseguido. Além dessas possibilidades, também é o título de uma canção de Raul Seixas, ou melhor, "Para Nóia", como aparece grafado no encarte do disco "Novo Aeon", de 1975, produzido por Marco Mazzola. O álbum também contém clássicos da carreira de Raul, abrindo com "Tente Outra Vez" e trazendo ainda "A Maçã", "Eu Sou Egoísta" e "Tu És o MDC da Minha Vida".

Raul abre a faixa confessando, por meio do eu lírico da canção, que passar a noite em claro faz com que o amanhecer traga consigo sentimentos de culpa e medo. O próprio hábito de escrever, principalmente coisas que as pessoas não deveriam ler, também é acompanhado por essa sensação, potencializada pelas possíveis consequências de ter seus escritos descobertos. Até mesmo a figura de Deus causa medo, pois está sempre observando, conforme a mãe do personagem lhe havia dito. No fim, a canção é dedicada, com amor e com medo, "Para Nóia".
Essa canção de Raul ajuda a ilustrar o medo constante vivido durante a ditadura militar brasileira, que reprimia violentamente as ideias contrárias ao regime. Também permite estabelecer uma relação com o conceito de superego em Freud. Para Freud, conforme explica Zimerman (1999), o superego é a instância psíquica formada pela internalização das proibições, dos valores e das exigências parentais, atuando como reguladora moral do indivíduo e podendo assumir um caráter protetor ou tirânico, produzindo sentimentos como culpa e medo. Da mesma forma que aparece na canção, essa sensação de estar sob constante vigilância pode causar grande desconforto e levar o sujeito a uma condição de vida precária, seja quando relacionada a uma instância psíquica severa, seja quando produzida por um regime totalitário e opressor.
Referências:
Etimologias.dechile.net
Dicio.com.br
Discogs.com
wikipedia.org/Novo_Aeon
wikipedia.org/Marco_Mazzola
Genius.com
ZIMERMAN, David E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica: uma abordagem didática. Porto Alegre, RS: Artmed, 1999.
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