"Se o Rádio Não Toca", o raro registro ao vivo de Raul Seixas que ganhou edição definitiva
Resenha - Se o Rádio Não Toca - Raul Seixas
Por Bruce William
Postado em 10 de outubro de 2026
Há discos ao vivo que tentam colocar o ouvinte na primeira fila. "Se o Rádio Não Toca" faz algo diferente: parece colocar você no meio de uma fita que jamais deveria ter saído da gaveta. Gravado em Brasília em 1974 sem preocupação comercial, num único canal e com um gravador Akai, o registro nasceu apenas para que Raul Seixas pudesse avaliar a própria performance. Talvez justamente por isso, mais de meio século depois, continue tão fascinante.
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Lançado oficialmente apenas em 1994, cinco anos após a morte de Raul, o álbum documenta um artista em um momento particularmente intenso. "Gita" havia acabado de chegar às lojas, sua popularidade crescia rapidamente e o Brasil seguia sob a ditadura militar. Raul não aparece aqui como personagem cristalizado da história da música brasileira, mas como músico em movimento, falando com a plateia, improvisando e conduzindo um show ainda muito próximo do rock and roll que o havia formado.
E ele estava muito bem acompanhado. Rick Ferreira na guitarra, Gustavo Schroeter na bateria e Ivan Machado no baixo formavam aquilo que o próprio Raul chamava de "um time bom, só feras". A definição não é exagerada. Há punch, balanço e uma espontaneidade que seria difícil fabricar em estúdio, com Rick especialmente importante para dar cor e personalidade às músicas.
A faixa que batizou o disco continua sendo uma das grandes atrações. "Se o Rádio Não Toca" era praticamente desconhecida do público e aparecia regularmente nos shows daquele período. A edição de 1994 permitiu ouvir Raul cantando uma composição que até então era mais conhecida pela gravação de Fábio para a trilha da novela "O Rebu". Dentro do show, porém, ela soa completamente integrada ao repertório.
O contexto ajuda a explicar parte da tensão que atravessa a apresentação. Agentes da censura frequentavam shows, letras precisavam ser previamente aprovadas e qualquer comentário podia ganhar consequências muito maiores do que as musicais. Poucas semanas depois dessas apresentações em Brasília, Raul e Paulo Coelho seriam chamados ao DOPS, dando início a uma sequência de acontecimentos que marcaria profundamente aquele ano na vida dos dois.
Mas "Se o Rádio Não Toca" também é fascinante pela própria história de sua sobrevivência. As fitas de rolo chegaram às mãos de Sylvio Passos nos anos oitenta, entregues pelo próprio Raul junto a outros registros pessoais. "Fique com elas, pois estarão mais seguras com você do que comigo. Recupere-as da maneira que for possível. Estou lhe passando parte da minha vida", teria dito o cantor. A frase ganha outro peso quando se escuta o material décadas depois.
A edição original de 1994 já havia exigido um trabalho considerável de restauração. O CD recebeu mais material que o LP, cuja pequena tiragem - estimada em cerca de 500 cópias - acabou transformando aquela versão em um dos discos mais raros, procurados e caros da discografia de Raul Seixas no mercado de colecionadores. Mesmo assim, limitações de duração deixaram músicas, diálogos e outros trechos de fora.
Foi voltando às fitas originais que a Record Collector Brasil chegou à nova edição. Uma transferência realizada a partir dos rolos revelou passagens ausentes em 1994 e gravações como "As Minas do Rei Salomão", "Ready Teddy" e uma segunda versão de "Gita". A restauração e masterização de Sanjai Cardoso aproveitam recursos técnicos que simplesmente não existiam três décadas atrás, procurando equilibrar e esclarecer o áudio sem apagar sua origem rudimentar.

É importante ajustar as expectativas: ninguém vai transformar uma gravação mono feita casualmente em 1974 numa produção contemporânea. E ainda bem. Parte da força do disco está no ruído, nas variações e naquela impressão de proximidade quase clandestina. Limpar demais seria correr o risco de tirar justamente o que torna o documento humano.
A edição de 2026 da Record Collector resolve também a antiga limitação física. Agora em LP duplo, reúne o repertório conhecido, acrescenta material recuperado e vem em capa gatefold, com reprodução do encarte original, texto histórico, pôster e OBI numerado. São 500 exemplares divididos entre vinil preto de 180 gramas, vermelho e multicolorido.
"Se o Rádio Não Toca" nunca foi um grande disco ao vivo por soar impecável. É grande porque sobreviveu. É uma fotografia sonora de Raul Seixas em 1974, acompanhado por uma banda excepcional e registrado sem qualquer preocupação com posteridade. A nova edição não transforma essa gravação em algo perfeito - apenas abre um pouco mais a janela para que possamos ouvir o que aconteceu naquela noite. E isso já é mais do que suficiente.

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