Água Pesada: Rock politicamente correto? Não é rock...

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Por Ben Ami Scopinho
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Nestes conturbados tempos em que o Rock'n'Roll tanto se ramificou, é um prazer encontrar um grupo como o Água Pesada. Na ativa desde 2001 e natural da capital paulista, o trio composto por Ricardo Faller (voz e guitarra), Fabio Domingues (baixo) e Fernando Cappelli (bateria) está lançando seu segundo disco batizado como "999", pelo selo Pisces Records.

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Com um Rock'n'Roll pesado e experimental, de raízes fincadas lá na saudosa década de 1970, "999" é todo cantado na boa e velha língua portuguesa e com letras muito bem sacadas. A audição ficou tão embriagante e magnética que o Whiplash! se sentiu na obrigação de trocar umas idéias com o pessoal, cujo resultado o leitor confere a seguir.



Whiplash!: Olá pessoal! Primeiramente, o que vocês teriam a dizer sobre o histórico do Água Pesada, os principais acontecimentos de sua trajetória?

Água Pesada: A banda teve início em 2001 e desde então lançamos um EP com seis músicas, o "Morfosônicometaneural-3" e um 'full' com 12 músicas, o "999", recém lançado. Participamos também de algumas coletâneas, "2500 Tons" do Sinfonia de Cães, e "Achados e Perdidos" da Válvula Discos, ambos em 2005.

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Água Pesada: Nosso primeiro vídeoclip para a música "Festa Suicida" foi apresentado no Festival "Rock Neles", uma parceria entre o Sinfonia de Cães e a Mostra do Audiovisual Paulista, realizado no MIS. Agora iniciamos a edição do nosso segundo vídeoclip para a música "Ferro-Velho Zen".

Whiplash!: Cara, como foi o contato com o Lourenço Mutarelli* para as ilustrações do EP "Morfosônicometaneural-3", de 2004? O homem tem um estilo tão delirante que deve ter combinado muito bem com a proposta musical do Água Pesada, não?

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Água Pesada: O contato foi bem tranquilo, principalmente porque na época era muito fácil falar com o Mutarelli. No lançamento do livro "Mundo Pet", perguntamos se poderia trabalhar na capa do nosso disco. Ele foi muito atencioso, e iniciamos o projeto. Falamos sobre algumas idéias nossas, mas ele educadamente disse: "Esqueçam, deixem comigo"... (risos). O Mutarelli gostou muito do nome do disco e isso facilitou a criação da ilustração.

Água Pesada: Foi surpreendente, combinou totalmente com a proposta do disco. O personagem da capa acabou ganhando um apelido, "Senhor Neural".

(*) Nota do Editor: O paulistano Lourenço Mutarelli é um autor e desenhista de HQs, cujas histórias trágicas, geralmente autobiográficas e donas de marcantes traços distorcidos, ficaram famosas pela originalidade entre os aficionados por quadrinhos.

Whiplash!: Falando em delirante, minhas felicitações pelo novo álbum! Há algum significado por trás da imagem da capa (mas o que diabos é aquilo, a cabeça de um inseto?) e o título "999"?

Água Pesada: O "999", como todo disco de Rock, tem lá suas histórias. Em relação à capa, a foto foi um experimento que deu certo, e que representa o que é a banda, um experimento que deu certo... HAHAHAHA! A história da foto é a seguinte: ela é a sobreposição de duas imagens que foram geradas no mesmo filme, não há trabalho nenhum de computação gráfica nela, com exceção da placa do túnel. A Mari Viana, nossa fotógrafa, usou duas vezes o mesmo filme com a intenção de criar as sobreposições e uma delas se encaixou perfeitamente com a idéia do disco e da banda.

Água Pesada: O nome "999" representa nossa adoração por Satanás (Satã é uma palavra de origem hebraica e significa 'aquele que contraria', 'adversário'). Brincadeira! Hahahahaha! Na verdade, é uma homenagem a um grande Luthier, o Romeu Benvenutti, mais conhecido como "Seu Romeu", e que foi a pessoa responsável pela nossa aquisição do amplificador usado para a gravação das guitarras, um DUOVOX 100G.

Água Pesada: A oficina dele fica no número 999 de uma rua do bairro de Pinheiros. A letra toda fala da experiência e a sensação que tivemos ao conhecê-lo, o contato com a oficina e ouvir suas histórias, foi como se a gente tivesse ido ao encontro do Mestre Yoda do Rock.

Whiplash!: Como não poderia deixar de ser, "999" mostra uma banda fortemente calcada no rock setentista. Bem, como você diria que o Rock'n'Roll envelheceu depois de três ou quatro décadas?

Água Pesada: Acredito que o Rock se dividiu em bom e ruim, simplesmente. Os estilos se multiplicam a cada ano, zilhões de denominações e siglas para estilos de bandas, mas no final das contas é tudo Rock. A diferença você encontra quando escuta com atenção e percebe que alguns fazem qualquer coisa, qualquer nota, sem nenhuma intenção, e outros se preocupam em fazer boa música. Seja Metal, Garage Rock, Punk, Progressivo, Doom, Death, Industrial, não importa, você percebe o 'algo mais'. Isso fica mais claro quando assistimos o desempenho das bandas ao vivo, é nessa hora que você pode falar que é uma banda de Rock de verdade e não uma brincadeirinha de criança. Quando o Rock é bom mesmo, transcende os limites de estilos, tudo isso acaba e o que sobra é a liberdade. O Rock'n'Roll é assim, te liberta de valores e padrões pré-estabelecidos.

Água Pesada: Velho tudo fica, mas o que não pára é a sua transformação, sua metamorfose, momentos de maior evolução, reinvenção, outros de modas e bandas bobas, acredito que faz parte do processo da vida e do próprio Rock. A década de setenta é símbolo de um momento de muita invenção, experimentação, contestação, criação em vários segmentos da sociedade, isso é Rock'n'Roll, e lá estão as grandes bandas, onde tudo começou mesmo.

Whiplash!: O repertório de seu novo disco transmite as mais variadas sensações... Temos algo mais depressivo em "Olho do Furacão", ou a lisergia da ótima "Ferro-Velho Zen" e um swingue muito legal em "Nunca é pra sempre". Até onde a personalidade de seus músicos contribui no processo de composição?

Água Pesada: As nossas personalidades influenciam a ponto de não querermos ficar presos a um único estilo. Nós ouvimos muitos gêneros musicais, e isso se reflete positivamente na hora de compor as músicas. Não colocamos barreiras e deixamos a coisa fluir. As portas ficam abertas e as idéias vão surgindo, cada um faz a sua parte. Dificilmente aparecemos com um som totalmente pronto e arranjos definidos. A gente deixa a coisa tomar uma forma e depois vamos lapidando.

Whiplash!: Como rolou a parceria com a Pisces Records? Seu trabalho na divulgação do Água Pesada vem sendo satisfatório?

Água Pesada: A parceria surgiu através do contato com o pessoal do Coletivo Sinfonia de Cães, que sempre apoiou a banda e foi importante pra viabilizar o projeto final, mas a divulgação mesmo quem faz é a banda.

Whiplash!: Suas letras são muito boas, o Ricardo possui a sensibilidade de criticar com senso de humor, e creio que "Eletrodomésticos" resuma muito bem alguns aspectos de nossa sociedade moderna. Qual foi o embrião dessa canção?

Água Pesada: Os sons do Água Pesada, tanto a parte instrumental quanto as letras, tem muita influência do nosso cotidiano urbano, da cidade em que vivemos. Com "Eletrodomésticos" não foi diferente. Foi só observar a vida das pessoas na metrópole. Peças que fazem um sistema funcionar. São fabricadas, moldadas, tem seu período de vida útil e depois são descartadas.


Whiplash!: Muitas pessoas tem diferentes percepções sobre o que o Rock'n'Roll representa. O que vocês acham desta nova geração, com canções e bandas que fazem questão de ser politicamente corretas?

Água Pesada: Rock politicamente correto? Não é rock...

Whiplash!: "999" foi liberado em 2008. Há planos para um próximo álbum, ou a participação em outras coletâneas?

Água Pesada: Com certeza. Ano que vem começaremos a preparar as músicas para o próximo álbum e quem sabe já iniciaremos a pré-produção. Além disso, temos algumas idéias de parcerias com outras bandas e uma coletânea, mas ainda nada certo.

Whiplash!: Ok, pessoal! Agradeço pela entrevista. Boa sorte a todos e fiquem à vontade para as considerações finais.

Água Pesada: O Água Pesada agradece a oportunidade! Iniciativas como essa com certeza nos dão um fôlego pra continuar na guerra.

Contato:
http://www.aguapesadarock.com.br
http://www.myspace.com/aguapesada

E você? O que acha? O rock pode ser politicamente correto? Comente no fórum abaixo.




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Sobre Ben Ami Scopinho

Ben Ami é paulistano, porém reside em Florianópolis (SC) desde o início dos anos 1990, onde passou a trabalhar como técnico gráfico e ilustrador. Desde a década anterior, adolescente ainda, já vinha acompanhando o desenvolvimento do Heavy Metal e Hard Rock, e sua paixão pelos discos permitiu que passasse a colaborar com o Whiplash! a partir de 2004 com resenhas, entrevistas e na coluna "Hard Rock - Aqueles que ficaram para trás".

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