Uns e Outros: Entrevista exclusiva com Marcelo Hayena e Nilo Nunes

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Por Luciana Ueda
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Depois de um show no Morrisson Rock Bar, fechando a noite para as bandas Astromato e La Carne no programa "A Vez do Brasil" da rádio 89FM (SP), Marcelo Hayena e Nilo Nunes trocaram idéias numa entrevista exclusiva para o Whiplash!, falando sobre o novo disco, "Tão Longe do Fim".

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Colaborou: Mônica Martins

Falem sobre o disco novo. Esse disco totalmente diferente e não tão diferente, seguindo outra linha.

Marcelo Hayena / O disco novo traz a mesma linha de composição. A gente procurou manter as coisas que a gente já vinha fazendo nos outros discos, a nível de letra, de melodia, só que a gente foi buscar influências em outras coisas. Coisas que a gente vem escutando há muito tempo. Influências que já vinham fazendo a cabeça da gente desde 93, quando a gente meio que sumiu do mercado. Então esses anos todos de composição e de ensaios com banda nova, entre saídas e entradas de novos componentes, a gente foi absorvendo muitas influências e resultou nesse disco novo que tem uma pegada diferente do resto do trabalho da gente, mas mantém a característica da composição.

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E quais são essas influências?

Marcelo Hayena / Ah, cara! Pô, a gente pode falar num monte de gente... a banda do cara de boneco preto lá...como é o nome? Black Grape. Uncleables. Republica. Que mais Nilo?

Nilo Nunes / Tudo que é novo. Que toca no rádio.

Marcelo Hayena / Tem um monte de coisa, cara! Blur.Deixa eu ver o quê mais. Smashing Pumpkins, Radiohead. Tudo, tudo, tudo do Radiohead eu escutei.. Ah... um monte de coisa!

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Nilo Nunes / A gente escuta muito rádio. Tudo que pinta de novo, a gente já começa a prestar atenção, e começa a tentar escolher o que melhor corresponde.

Marcelo Hayena / Nickelback a gente já conhecia há muito tempo antes de começar a rolar na rádio aqui no Brasil. A gente já tinha coisas do trabalho deles, já curtia. A gente procura sempre estar atualizado.

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O site de vocês está quanto tempo no ar? Perdi um bom tempo para achar o site de vocês, porque ele não é um ".br", é ".com"... (http://www.unseoutros.com)

Marcelo Hayena / Ele mudou... agora ele é só ".com". Agora, o site da gente é coordenado pelo Fernando Ramos, que é um cara que faz um trabalho legal pra caramba pra gente, não só pelo site não, apesar de eu achar o site da gente muito limpo. Ele não tem nada demais. Não tem nenhuma coisa assim do outro mundo, mas é um site limpo. Um site que você consegue entrar e navegar nele numa boa. Muito mais informação do que palhaçada, entendeu? Não tem muita mágica, não. Você entra no site, navega nele muito facilmente, obtém as informações que você precisa. Fotos, release, a história da banda...

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Nilo Nunes / Já estão disponíveis trechos das músicas novas...

Marcelo Hayena / Das músicas novas do disco. Tem coisas da gente, por exemplo, que é interessante. Eu tinha horror a Internet! (risos) E hoje eu me vejo bolando coisas. Abrimos em Janeiro um pequeno home-studiozinho da gente e colocamos na Internet uma enquete pras pessoas darem um nome. Acharem um nome legal pro home-studio. As pessoas estão ligando, tão mandando e-mails. As músicas que a gente escolheu para serem as acústicas do disco, foi por Internet que se escolheu. Foi muito legal. E está sendo muito legal. Agora, isso deve mudar, porque o site da gente vai passar por uma reformulação em maio, e deve mudar todo o visual. Tem sido legal. Tou curtindo. Agora, que às vezes dá uma vontade de meter uma porrada no computador, dá! (risos)

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Mas vocês têm a pretensão de abrir mais espaço para o visitante? Um livro de visitas, algumas coisas mais interativas?

Nilo Nunes / Nessa nova... Porque o site começou como você falou, né. Você catou em ".com.br" e não achou. Nós tivemos um problema com a hospedagem do site e ele passou provisoriamente a ser um ".com". Então quando ele passou a ser um ".com" ele já veio com algumas pequenas mudanças. A gente tá pedindo que fãs, ou pessoas que tenham material, foto, qualquer coisa, artigo da gente, que mande pro site, pra gente fazer um arquivo legal de coisas que se perdem na estrada. A gente faz tanto show em interior, que às vezes, passagens legais da banda ficam esquecidas. E se as pessoas começarem a mandar os arquivos, vai ser bem legal. A gente vai publicar na página. E com o lançamento do disco, a gente vai fazer uma reformulação total na página. Vai mudar o lay out. Nós vamos voltar a colocar as músicas cifradas. Tem uma parte no site que você vê a letra, você ouve um pedaço da música em Real Audio, e nós vamos colocar também cifra pras pessoas que estão começando, tocando violão. Quem toca mesmo, vai lá e tira. Mas quem não sabe, vai lá e pega. Eu passei uma cifra bem simples para as pessoas poderem ter acesso às composições. Basicamente, vai ser essa a reformulação no site.

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E a cobrança de sempre? Vocês pretendem relançar os discos antigos algum dia?

Marcelo Hayena / Pela gente, a gente já tinha relançado todos. Eu acho que a Universal, por exemplo, tá dando a maior bobeira no primeiro disco da gente. Porque 99% das pessoas que entram no site da gente querem o primeiro disco. Até porque a crítica aponta esse disco como um dos dez mais da década de 80. Então, quer dizer, opinião da crítica... eu acho que a Universal tá dando bobeira. Podia estar lançando esse disco em CD. Aproveitar que tem público ávido por esse CD e até ganhar dinheiro, por quê não? Desde que isso satisfaça os nossos fãs, e que as pessoas possam obter esse disco, ter esse disco em mãos. Pô, seria super legal. A gente entrou em conversa na Universal. A conversa não foi muito produtiva, e na Sony a gente tentou começar a abrir uma conversa e ficou naquela de "Ah, vamos ver, talvez ano que vem.". A Sony já relançou os dois discos dela, nossos, que foram lançados por ela em CD. Só que foi uma tiragem limitadíssima. E isso acabou em uma semana. Foi uma coisa muito rápida. Os discos que tinha nas lojas acabaram. E a Sony não relançou, não colocou isso de novo.

Nilo Nunes / O agravante é o seguinte: no início dos anos 80, o CD não era uma mídia muito popular. Então nosso primeiro disco, quando foi lançado, ainda não existia CD. E o segundo disco, que é o que tem o nome de Uns e Outros, quando foi lançado, o CD estava começando a despertar, tomar força, então, nem todas as bandas nacionais tinham os seus trabalhos lançados em CD.

Marcelo Hayena / Eu me lembro que teve uma convenção na Sony, em que foi apresentado o CD do Djavan. Cê lembra disso, né Nilo? Era assim, uma coisa... "Nossa, o Djavan lançou o trabalho dele em CD!". Então era uma coisa que pouca gente, muito pouca gente, tinha CD Player em casa pra escutar, entendeu?

Nilo Nunes / O povão mesmo ainda estava na época do vinil. O CD era caro, o equipamento era caro. Hoje em dia você faz pocket em CD, é a coisa mais natural do mundo. Mas na época não era não. Daí a dificuldade das pessoas em encontrar o nosso trabalho antigo em CD. Simplesmente não foi publicado em CD.

Na época do vinil o pessoal costumava comprar muito K7.

Nilo Nunes / Essa coisa da pirataria sempre existiu até na época do K7, só que hoje em dia se faz pirataria com a qualidade igual ao original. Mas sempre se copiou muito em fita K7, todos os discos... todos nós... em 82 eu tinha cerca de 200 fitas K7, gravadas com muita coisa de rock antigo e o som da época também. O que era novo no Brasil, eu trazia de Manaus. Eu tinha um pólo legal em Manaus...

É engraçado que antigamente você via nos discos assim: "Disco é cultura" e hoje você vê: "Pirataria é crime". (risos)

Marcelo Hayena / Mudou bastante... (risos) Sabe o que eu acho? Que a pirataria afeta mais quem vende muito. Eu acho que nessa questão a gravadora cavou seu próprio buraco. Já se via indícios que a pirataria se tornaria o que é hoje. Eu estive em São Paulo, falei: "Cara, eu fui a São Paulo e vi CD pirata na calçada!!!". E depois estava no Rio! Então, eu acho muito estranho que isso ocorra da maneira que ocorre e as gravadoras não tomem providências contra isso. Por quê o governo federal não toma providência contra isso? Não sei. Acho que o país... a crise é tão grande que as pessoas estão pouco se lixando para cultura. Não adianta pegar tratorzinho e passar por cima de disco. Falar que CD estraga o aparelho. Não estraga! Isso é uma mentira deslavada! Não estraga! O que acontece é o seguinte: as gravadoras, junto com o governo federal, devem fazer um esforço. De cobrar menos impostos e arranjar maneiras viáveis de o CD chegar na mão do consumidor mais barato. Porque ele é tão taxado que chega na mão do consumidor caríssimo. É um CD que de preço de custo ao preço que você compra na loja, é um absurdo. Uma pessoa hoje, chegar numa loja e dar R$35,00 num CD, é quase inacreditável. Nem todo mundo tem grana pra isso. Só quando você gosta muito do artista. Então eu acho que está na hora das gravadoras se ligarem. Eu acho que o fim está próximo e se elas não se ligarem, vai ficar mais próximo ainda. Ou se ligarem e tomarem providências sérias contra isso ou entrar em entendimento com o governo federal. Já que o governo não tem interesse em cultura mesmo, ele também não deve ter interesse em receber por essa venda. Os impostos que são devidos por essa venda. O governo não está se importando com a pirataria. Porque é que vai se importar, com o dinheiro que recebe? Ele já está recebendo muito menos por conta da pirataria. Não sei porque ainda está fazendo tanta questão do que ainda "lhe cabe" dentro desse caos total que virou a indústria fonográfica. É terrível o momento que a gente passa. Eu acho que as bandas... eu acho que a coisa está seguindo para um momento super democrático para a música ao meu ver. As pessoas vão começar a se virar, e vão começar a apostar mais em cultura realmente, alguma coisa que leve alguma mensagem, que tenha algum conteúdo, porque onde não tem dinheiro, você não consegue convencer, né. Então o que convence é o trabalho. É mais ou menos por aí.

Uma coisa que se percebe muito é que hoje você tem muito mais pequenas gravadoras, selos alternativos que acabam até tendo um custo bem menor. O pessoal acaba preferindo porque é bem mais viável.

Marcelo Hayena / Tenho ouvido por aí o seguinte: as grandes gravadoras não tem porque reclamar, porque elas passaram os últimos dez anos investindo só em porcaria. E ganhando. O lucro foi absurdo. Se você lembra, na década de 80 um disco que chegava a 100 mil, 150 mil cópias, era considerada uma boa vendagem. Só que o nível de vendagem subiu tanto na década de 90, até porque as pessoas tiveram mais condições de comprar o aparelho de CD. Qualquer um entrava num Ponto Frio da vida, nas Casas Bahia da vida e fazia seu aparelho em 48 vezes. Então as pessoas puderam ter acesso ao CD, à nova tecnologia. Compraram a balde. Só que a indústria fonográfica resolveu apostar naquilo que não tinha consistência. Resultado: hoje, depois de 10 anos, a indústria fonográfica ficou sem catálogo.

Nilo Nunes / Ficou sem catálogo. Porque eles não fizeram catálogo nos últimos 10 anos. E o que o Marcelo tá dizendo é que a coisa vai virar mais culote da cintura. É o seguinte: o pequeno artista, aquele que realmente quer fazer uma música de qualidade, tá procurando produções pequenas, tá montando home-studio e gravando seu próprio trabalho. Vai chegar uma hora que a coisa vai explodir. As pessoas vão poder escolher um trabalho de qualidade a um preço acessível. Hoje em dia, o que que é preço acessível? É disco pirata e disco subproduzido. No Rio isso é um problema, o CD subproduzido, chamado "funk proibido". Cada um bota uma batida eletrônica, fala o que quer e bem entende, e coloca isso a um preço muito acessível, e as pessoas compram. Tá todo mundo de saco cheio e quer gritar de qualquer forma. Então a maneira que eles acharam de gritar foi atingindo as outras pessoas, agredindo as outras pessoas através da música. Não só agridem as autoridades mas agridem até o ouvido das outras pessoas, porque é de um nível de baixaria, que só ouvindo mesmo pra conferir.

É... nem quero ouvir...(risos)

Nilo Nunes / Nem quer ouvir, né...(risos)

Marcelo Hayena / Essa música do "Vai, Serginho..." já tem quinze versões!

Cada um grava a sua e vende, né?

Nilo Nunes / Exatamente. Teve uma época que pegaram aquela música de infância "...chora bananeira, bananeira chora..." e botaram qualquer letra. Grava num fundo de quintal. Qualquer lugar mesmo. E vende isso aí a R$1,00! Pô, quem não tem acesso a cultura acha isso lindo e consome esse tipo de produto. Quem está na classe média, quem procura produto de qualidade, tem que fazer como o Marcelo falou, ir na loja gastar R$35,00 em um CD.

Marcelo Hayena / E isso tende a mudar, porque a gente vê muitas bandas de rock hoje sendo distribuídas por distribuidoras alternativas, vendendo bem e conseguindo resultados com isso. Acho que a coisa está pra mudar.

O que vocês acham do Lobão, que fez o CD e colocou na banca a R$14,90.

Marcelo Hayena / Eu acho isso maravilhoso. Eu não concordo com muitas coisas que o Lobão fala. Agora, eu acho que o Lobão viu o que estava por vir muito antes que todo mundo. A gente vinha discutindo isso, hoje na viagem, e não acredito que esse tipo de modalidade de venda em banca de jornal seja a saída para todo mundo. A banca de jornal não pode virar uma loja de discos, senão a loja de discos vai mudar de endereço. Mas alguma coisa vai ter que ser feita. O Lobão deu um chute a gol na frente de todo mundo.

Pra finalizar, vocês vão fazer um monte de shows agora... agenda cheia? (risos)

Marcelo Hayena / Ô, tomara! (risos)

Se depender da gente aqui, vamos encher todas as casas de São Paulo...(risos)

Marcelo Hayena / A gente pretende voltar a São Paulo mais vezes, até porque é onde o novo trabalho da gente foi bem recebido, tanto pelas rádios como pelo público. Isso é maravilhoso. É muito bom você, depois de dez anos, voltar e atingir um 7º lugar em São Paulo. É o que a gente não esperava. Não esperava mesmo. Está sendo uma surpresa pra gente. A gente pretende voltar a São Paulo. Tá um pouco difícil. A gente vai fazer algumas coisas lá. Coisas que a gente já vinha fazendo durante esses anos todos. Então, tem coisas no Paraná, uns shows que a gente tem que fazer. E vamos ver no que isso vai dar. A gente está apostando. Tamos numa gravadora muito pequena, que tem problemas de custos e essa coisa toda. A gente está tentando viabilizar isso da melhor maneira possível, pra que possamos chegar ao nosso público. E a gente está conseguindo. Aos poucos a gente está conseguindo. Vamos ver se a gente dá seguimento a esse trabalho e consegue pegar aí o Brasil inteiro. A música... é impressionante como "Carta aos Missionários" consegue quase o mesmo efeito que conseguiu dez anos atrás. É inacreditável.

O lançamento é dia...

Marcelo Hayena / Lançamento no dia 15. O CD se chama "Tão Longe do Fim". A capa é linda. Você teve a oportunidade de ver (risos). As músicas estão muito legais. A gente apostou numa coisa nova pro trabalho. Você vê, é muito fácil voltar com um trabalho calcado no que a gente já fazia nos anos 80, mas a gente optou por fazer uma outra coisa, optou por trilhar por um outro caminho, mostrar uma outra faceta da banda. Vamos pagar o preço por isso. Vamos recomeçar. Ter que reconquistar o público mesmo, em shows, mas pelo que eu vi hoje, acho que isso não vai ser difícil não.

Sucesso garantido (risos) com certeza.

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Sobre Luciana Ueda

"Nasci com o BRock. Cresci com o BRock. Mas morrerei muito antes do BRock..." Com o frescor dos seus 21 aninhos, Luciana Ueda a-do-ra o rock nacional cada vez mais! Mas isso não quer dizer que ela goste exclusivamente de rock nacional. Entre suas preferências internacionais incluem Pink Floyd, Led Zeppelin, Eric Clapton, os lendários Beatles e uma infinidade de outras bandas... Por enquanto, ela é só mais uma estudante de Telecomunicações. Mas quem vai saber o que ela será amanhã?

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