Avatarium: The Fire I Long For é o melhor trabalho apresentado pelos suecos
Resenha - Fire I Long For - Avatarium
Por Paulo César Teixeira Júnior
Postado em 27 de junho de 2020
A Suécia vem demonstrando ao longo das últimas décadas que seus artistas têm a exímia habilidade de fazer música com qualidade e, ao mesmo tempo, variada, que vai, por exemplo, de ABBA e EUROPE ao famoso "Swedish Death Metal" de ENTOMBED e DISMEMBER. É como se os suecos tivessem esse instinto artístico enraizado na cultura e no DNA.

E nesse cenário tão prolífico surge o AVATARIUM, banda criada em 2013 por Leif Edling, lendário baixista do CANDLEMASS (advinhe de onde veio a banda?). O intuito era fazer um som calcado no doom metal (afinal, ele é um dos grandes expoentes no estilo), mas, ao mesmo tempo, tentando se sobressair com o belo vocal de Jennie-Ann Smith em músicas repletas de temas fantasiosos e macabros.
Curiosamente, o posto de vocalista foi inicialmente pensado para Mikael Åkerfeldt, vocalista do OPETH (outra banda sueca!), o qual possui inegável talento e dispensa honrarias, mas já adianto que a escolha pela voz feminina foi muito acertada e essencial para refinar o som da banda.
O primeiro álbum lançado em 2013 é composto de músicas longas, arrastadas e pesadas e foi muito bem recebido pela crítica, destacando-se não apenas pelo competente trabalho da guitarra de Marcus Jidell e do baixo de Leif, mas, essencialmente, pelas interpretações de Jennie-Ann.
Nos álbuns seguintes, "The Girl with the Raven Mask" (2015) e "Hurricanes and Halos" (2017), vemos um gradativo amadurecimento da banda, que luta para criar uma identidade própria em relação ao seu fundador, que deixa o posto de baixista e passa a contribuir apenas com as letras.
Em 2019 o grupo lançou seu 4º trabalho, "The Fire I Long For", por intermédio da Nuclear Blast, com distribuição no Brasil pela Shinigami Records. Nele é possível perceber que o AVATARIUM dá mais um sólido passo para obter seu devido reconhecimento no mundo do heavy metal.
Este álbum foi produzido pelo guitarrista Marcus Jidell e o que se percebe agora, especialmente quando comparado com seu álbum anterior, é uma sonoridade mais orgânica (ou crua, se preferir), sensação semelhante ao ocorrido com "Lykaia" (2017), 3º álbum do SOEN, banda sueca de metal progressivo que também contava à época com Marcus Jidell como guitarrista e produtor.
As composições voltaram a ficar mais pesadas e o ouvinte consegue pressentir um pouco dessa aura sombria que circunda o álbum apenas olhando para sua capa. Apesar da impressão inicial, é preciso destacar que a banda conseguiu balancear muito bem os momentos de intensidade e leveza, sendo esta uma característica geral do disco, que em suas 9 faixas lida com dualidades muito comuns no heavy metal: luz e escuridão, vida e morte.
O álbum se inicia de forma pesada com "Voices" e logo no refrão percebemos a entrega e vontade da vocalista em atingir as principais notas. Apesar da boa escolha para abrir o trabalho, a faixa não tem tanta energia se comparada a "Girl with the Raven Mask" ou "Into the Fire/Into the Storm", que abriram, respectivamente, o segundo e terceiro álbum do grupo.
Logo em seguida vem "Rubicon", com um ritmo mais acelerado e acompanhado por notas de piano ao fundo. Interessante como às vezes sentimos a sensação de que uma música tem todo o jeito de single mesmo sem sabermos se a banda a escolheu para promover o álbum. Muito tem a ver com a empatia inicial que ela causa pelo seu ritmo ou refrão marcantes, por exemplo. E por isso digo que o AVATARIUM acertou na escolha, pois "Rubicon" possui essas características, e é um single realmente bom.
A curiosidade com o significado da letra me levou a descobrir que o título da faixa se refere a um rio italiano, "Rubicão", que nos tempos romanos servia como limite natural entre reinos, e foi palco de um momento histórico quando sua travessia pelo então imperador Júlio César foi interpretada pelo Senado como um ato de guerra. Atualmente, na língua inglesa, a palavra traduz a idéia de um limite que, se ultrapassado, não admite retorno, o que faz sentido ao ouvirmos o refrão: "But I know now it's much too late/ To turn the other cheek (...) I feel the water on my feet/ As I’m crossing Rubicon".
Leif Edling, agora nos bastidores da banda, auxiliou escrevendo a letra de 3 faixas: "Porcelain Skull", "Epitaph of Heroes" e, encerrando o álbum, "Stars They Move". À exceção da última, que é bem calma e suave, sua colaboração traz músicas com temas fantasmagóricos e macabros, e se analisarmos seu histórico dentro do grupo, podemos considerar como sua marca registrada. A propósito, os críticos no primeiro álbum chegaram a classificar o estilo das letras do AVATARIUM como sendo "poesia absurda", ou seja, com conteúdo que mexe com a imaginação e, ao mesmo tempo, nos remete ao ambiente das histórias de mestres do horror, como H.P. Lovecraft e Edgar Allan Poe.
Vale ressaltar que "Epitaph of Heroes" tem um início que lembra muito "Under the Sun", última faixa do BLACK SABBATH em "Vol. 4": pesada e arrastada, mas isso não dura muito. Assim como os pais do heavy metal fizeram, o ritmo da música ganha vida e fica mais empolgante. Belo registro.
As colaborações de Leif Edling são boas, mas, se compararmos com as demais composições da dupla Jennie-Ann e Jidell, percebemos que elas já não aparentam mais ter o rumo que o grupo quer seguir.
E aqui faço questão de destacar que a busca pela originalidade é um trabalho hercúleo para o grupo, pois o criador da banda, e inclusive alguns de seus membros, participam de outros projetos. Leif, apesar de agora só colaborar com as letras, recrutou Marcus Jidell para compor em 2015 um novo grupo de heavy metal chamado THE DOOMSDAY KINGDOM, cujo baterista, Andreas Johansson, também ocupou o posto no novo álbum do AVATARIUM. Ou seja, querendo ou não, Leif é onipresente e com tantos trabalhos, fica difícil a separação entre criador e criaturas.
Em "Lay Me Down", semelhante, porém superior a "When Breath Turns to Air" do álbum anterior, a banda diminui bem a intensidade e apresenta uma música com influências de jazz que nos comove principalmente pela interpretação de Jennie-Ann. Para ela não basta cantar, é preciso se entregar de corpo e alma em cada palavra, algo que enriquece muito a experiência ao ouvir qualquer música que esta banda se propõe a fazer.
E temos essa mesma sensação ao ouvir a emoção da vocalista na faixa título, que clama pelo fogo que dá movimento à vida ("You’re the fire I long for/ There’s nothing I want more"). Seu refrão é muito bom e acredito que fará sucesso ao vivo, pois é a típica música que nos dá vontade de cantar junto. Marcante!
Destaco, por fim, a bem executada "Shake That Demon", representando o momento mais rock and roll do álbum e que muito se assemelha a "Run Killer Run" do segundo álbum da banda; e também "Great Beyond", que lida com um questionamento que sempre intrigou o ser humano: o que há além? A sensação causada pela faixa é tão interessante que o ouvinte se sente levado para uma viagem ao vazio em busca do desconhecido.
O diferencial do álbum é evidente. De um lado, o excelente trabalho do casal (sim, eles são casados!) Jennie-Ann no vocal e, de outro, a competente condução de Marcus Jidell na guitarra, que consegue mesclar rock, doom, jazz e heavy metal em um mesmo trabalho.
Mas fica uma pergunta: e a bateria, teclado e baixo? Este é um ponto que deixa um pouco a desejar, pois não há muitos momentos de destaque para esses instrumentos, eles estão lá, mas sem causar impacto (positivo ou negativo) na audição. Tanto é que em relação ao baixo não há crédito para quem tocou o instrumento em estúdio.
No geral, "The Fire I Long For" é, sem dúvida alguma, o melhor trabalho apresentado pelos suecos do AVATARIUM em seus 7 anos de carreira, e mostra cada vez mais uma banda que busca uma identidade própria, seja no conteúdo das letras, seja na forma de fazer música sem limites de estilo. Inicialmente idealizado como projeto e agora, com segurança, uma banda, o grupo mostra que pode ir além, muito além das influências de Leif Edling.
Tracklist:
1 – Voices
2 – Rubicon
3 – Lay Me Down
4 – Porcelain Skull
5 – Shake That Demon
6 – Great Beyond
7 – The Fire I Long For
8 – Epitaph of Heroes
9 – Stars They Move
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



Uriah Heep se manifesta após entrada de baixista no Judas Priest
As 10 bandas de hard rock com a melhor trinca de álbuns dos anos 1980, segundo a Loudwire
Ian Hill anuncia a aposentadoria e Davey Rimmer assume o baixo no Judas Priest
Guns N' Roses é adicionado a shows especiais do Aerosmith
Regis Tadeu aponta o grave erro que o Metallica está cometendo em shows recentes
Dois discos do Pink Floyd que parecem feitos por bandas diferentes - qual é o melhor?
Deen Castronovo passa mal durante show do Journey e é levado para o hospital
A única banda punk britânica que Joey Ramone dizia que prestava
O cover que o Iron Maiden mais tocou ao vivo durante a carreira
As 5 melhores músicas do AC/DC com Bon Scott, segundo Gastão Moreira
"Deep Purple não é heavy metal", garante Ian Gillan
A música do AC/DC que ensinou Kurt Cobain o suficiente para começar a compor
Os três álbuns do Pink Floyd que Roger Waters não consegue engolir
Os melhores álbuns de melodic death metal dos anos 90, segundo o Loudwire
A banda que a polícia chamava de "inimiga número um da família brasileira"
Metallica: Como é a lista de exigências do camarim da banda
"Esse disco acabou com minha paixão pelo heavy metal": Sergio Martins revisita clássico
Eddie Van Halen lista e comenta seis álbuns que ele considerava essenciais



Paura mira em velhos problemas humanos e entrega muito metalcore em "Primitive Chaos"
Flotsam and Jetsam entrega fúria e maturação em "Rats in the Temple"
Pride Of Lions Mantém a Tradição do AOR Clássico em "Unbridled"
Quase vinte anos do seu lançamento, "Over The Under" ainda soa vigoroso
Use sua ilusão: o pseudo disco perfeito do Guns N' Roses
30 anos de "A Tempestade" - o álbum que se tornou a despedida de Renato Russo
Os 40 anos de "Reign in Blood", obra-prima do Slayer e um dos maiores clássicos do thrash metal
Carach Angren - O preço de brincar com a morte em "Franckensteina Strataemontanus"
O Julgamento do Metal Clássico: Rock Justice impressiona na estreia com "You've Been Served"
Iron Maiden: "Senjutsu" é uma prova de que "The X-Factor" é um discão



