Maestrick: um álbum excelente gravado por uma banda incrível
Resenha - Espresso Della Vita: Solare - Maestrick
Por Ricardo Seelig
Fonte: Collector's Room
Postado em 23 de junho de 2019
Sou um cara fora de moda. Pra começar, ainda compro CDs. E, veja só: costumo ouvi-los em casa, ao invés de deixá-los apenas expostos na estante. Tem outra coisa que também faço e não vejo muito por aí: não elogio uma banda brasileira só por ela ser brasileira. Não acredito que o corporativismo e o relativismo sejam o caminho para a construção de uma cena cada vez mais criativa, relevante e forte aqui no Brasil. No meu modo de ver, isso deve ser feito de outra maneira: com bandas criativas, que pensem fora da caixa e que, por isso mesmo, merecem todo espaço possível para divulgação de seus trabalhos.

Esse é o caso do Maestrick. Formado em 2004 em São José do Rio Preto, o grupo – que conta atualmente com Fabio Caldeira (vocal, teclado e piano), Renato Somera (baixo e voz gutural) e Heitor Matos (bateria) -, lançou no final de 2018 o seu segundo álbum, "Espresso Della Vita: Solare", que acabou de chegar em minhas mãos. O disco é o sucessor de "Unpuzzle!" (2011) e mostra uma clara evolução em relação à estreia. Adair Daufembach responde pela guitarra (e também pela produção, ao lado da banda) e Rubinho Silva pelos violões, em participações especiais.
O Maestrick abriu o leque em "Espresso Della Vita: Solare". A sonoridade, que já dava pistas de querer romper os limites do prog metal, aqui faz isso sem cerimônias. A inclusão de elementos de música brasileira, como a viola que introduz "Rooster Race", ganha a companhia de uma melodia que é o mais puro som de Liverpool na deliciosa "Daily View". E as experimentações seguem por todo o trabalho, mostrando uma inquietação criativa muito positiva. Orquestrações e camas de teclados discretas pontuam a maioria das músicas, enquanto melodias e pontes que não escondem a influência do Queen aparecem aqui e acolá, como demonstra "Keep Trying".
A veia prog surge forte na grandiosa "The Seed", com rupturas de dinâmicas e andamentos quebrados bem na escola mais ortodoxa do gênero. Os belos coros que introduzem e encerram a canção são outro destaque naquela que é, provavelmente, a música mais progressiva do disco, superando os 15 minutos de duração e com lindas passagens instrumentais (aliás, a melodia de piano que surge na parte final me lembrou de maneira sutil a arrepiante "Tubular Bells", de Mike Oldfield, presente na trilha do filme "O Exorcista", de 1973). Este é o alicerce central do disco.
A grandiosidade de "The Seed" é quebrada por "Far West", bem mais direta e com um trecho central em que a banda traz a música circense para a ordem do dia. Em "Penitência" o grupo canta em português uma espécie de repente prog metal sensacional, mostrando mais uma vez o quanto a presença de ritmos regionais e de um tempero étnico são caminhos sempre bem-vindos para destacar uma banda. Uma música linda! Essa abordagem é retomada em "Hijos De La Tierra", com a letra trazendo trechos em espanhol e inglês.
O CD vem em um belo digipack feito da maneira que deve ser feito, e não como algumas gravadoras brasileiras tem produzido ultimamente, como a vergonhosa edição nacional do último álbum do Ghost, "Prequelle", por exemplo, cujo digipack parece feito de papel sulfite. Aqui a coisa é outra, com papel de alta qualidade, impressão excelente e um longo encarte de 24 páginas com todas as letras e ilustrações exclusivas para cada uma delas. Vale mencionar que a Som do Darma (empresa de agenciamento e assessoria de imprensa) e a Die Hard (loja de discos de São Paulo) ajudaram a viabilizar o projeto.
"Espresso Della Vita: Solare" é um trabalho riquíssimo, com uma pluralidade musical desconcertante e onde o Maestrick faz questão de mostrar que consegue trilhar pelos mais variados caminhos, porém sem nunca fazer essas escolhas soarem pedantes ou desnecessárias. Um álbum muito bonito e acima da maioria do que se produz aqui no Brasil, com um resultado final que mais uma vez impressiona e mostra o quanto essa banda é incrível.
Um disco assim dá vontade de elogiar por dias e merece todos os aplausos possíveis, tendo ele sido gravado por uma banda brasileira ou não.
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