Rita Lee: ser mulher e tocar em bandas de rock/metal é para poucas
Resenha - Fruto Proibido - Rita Lee
Por Ivison Poleto dos Santos
Postado em 11 de março de 2018
Dia 08 de março comemoramos o Dia Internacional das Mulheres e nada melhor para homenageá-las que uma série de resenhas sobre os melhores álbuns produzidos por elas, afinal de contas ser mulher e tocar em bandas de rock/metal é para poucas. Ainda é necessário muita coragem para enfrentar o machismo, infelizmente, ainda reinante no mundo musical. Que fique bem claro que não é somente o rock/metal que é machista, o mundo da música ainda é machista.
E nada melhor que iniciar pelo melhor álbum daquela que já foi considerada a rainha do rock brasileiro: Rita Lee Jones!
"Fruto Proibido" não é considerado um dos maiores álbuns de rock do Brasil por acaso. Um dos detalhes mais interessantes é que com ele Rita consegue casar perfeitamente a sonoridade da língua portuguesa com a sonoridade rock.
Um outro detalhe importante é a banda que Rita montou. Tutti Frutti é, musicalmente falando, uma das melhores bandas já montadas neste país.
"Fruto Proibido" apresenta ao Brasil uma sonoridade rock que ainda não era muito conhecida com guitarras distorcidas, bateria pulsante, pianos, enfim um hard rock bem ao estilo norte-americano da época. Luis Sérgio Carlini dá aulas e aulas de guitarra em todas as faixas com intervenções cortantes e precisas e solos muito inspirados. Vide o solo no final de "Ovelha Negra". O batera Franklin Paolillo mostra que a bateria no rock pode ir além do bumbo-caixa-chimbal apresentando tempo e contratempos entusiásticos e pulsantes, além do timbre abafado da caixa muito comum na época e dono de um charme imenso.
E quanto às músicas?
Bom, além da vedete e mais conhecida de todas, "Ovelha Negra", uma espécie de auto-biografia precoce de Rita, temos uma fileira de músicas maravilhosas e até dançantes como a faixa "Dançar Para Não Dançar" com aquele pianinho tão característico dos rocks dos anos 1950 e 1960. E outras faixas que conseguiram um boa repercussão na época como "Fruto Proibido" um belo rock frenético recheado de pianos, o bom humor da letra e o ritmo cortante e preciso da bateria de "Esse Tal de Roque Enrow" e "Luz Del Fuego".
"Fruto Proibido" traz uma Rita Lee cantora muito mais amadurecida, consciente das suas limitações e possibilidades vocais. Ouso dizer que é o melhor desempenho vocal da moça que depois seria engolida pelo próprio sucesso e nunca mais conseguiria produzir outro álbum com a mesma qualidade.
Há duas curiosidades sobre "Fruto Proibido". A primeira delas é que a gravadora Som Livre deu carta livre a Rita para fazer o que bem entendesse, algo muito, mas muito raro de acontecer.
A outra é a crítica assinada por Maurício Kubrusly para o Jornal da Tarde em 1975 que entre outras coisas dizia "ainda é pouco, seria relaxamento demais se contentar com esta bateria escandalosa, com a desordem ruidosa da maioria dos acompanhamentos, com a falta de expressividade das vocalizações." Grande besteira, mas que marca a posição elitista de muitos críticos musicais da época que achavam Caetano, Chico e Gil o suprassumo do suprassumo.
Enfim, "Fruto Proibido" é um álbum atemporal que deve ser ouvido por todos aqueles que ainda curtem o gênero.
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