Tangerine Dream: Musicalmente anárquico em seu estilo
Resenha - Stratosfear - Tangerine Dream
Por Giales Pontes
Postado em 21 de dezembro de 2014
Nota: 9 ![]()
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Seguindo em minha proposta de apresentar análises de álbuns pouco conhecidos ou ainda não totalmente "digeridos" pelo grande público roqueiro no Brasil, com esta resenha inicio uma série onde trarei, a princípio, três álbuns do fabuloso grupo de música instrumental/eletrônica Tangerine Dream. Para começar, lhes apresento ‘Stratosfear’(1976), um exímio representante de uma das fases mais criativas e fascinantes destes gênios alemães.
É lógico que muitos dos que acompanham o underground não só roqueiro, mas o underground da música em geral, certamente já ouviram falar do Tangerine e escutaram pelo menos um de seus herméticos álbuns. Mas o fato é que o grupo é quase desconhecido do grande público em terras tupiniquins.
A faixa-título abre o álbum com uma belíssima e relaxante suíte climática, com destaque para os belos dedilhados de uma guitarra quase jazz. Passada a introdução, os sintetizadores de Edgar Froese, Christopher Franke e Peter Baumann assumem a canção em mais de 10 minutos de viagens eletrônico/progressivas. É uma sucessão de solos e intervenções, com Moogs, Mellotrons e piano elétrico, provocando uma verdadeira euforia mental no ouvinte! Os dois minutos finais são particularmente interessantes, e finalizam a peça de forma tão suave e melancólica quanto sua introdução.
Com uma belíssima incursão feita por um cravo (sim, eles usaram um cravo acústico de verdade) que serve de base para um formidável timbre de flauta reproduzido por um de seus sintetizadores, Franke inicia ‘The Big Sleep In Search Of Hades’. A flauta "sintética" segue solando de forma sublime até a entrada do Moog distorcido, usando um daqueles timbres que mais parecem saídos da trilha sonora de algum filme sci-fi da década de 50. O que temos a seguir é uma passagem climática, suave, e que traz à mente ecos de um passado distante, indefinido e perdido em alguma gaveta de lembranças na mente. O leitor que nunca escutou Tangerine talvez se chateie com as minhas viagens, mas assim é a música desses caras. Uma música cerebral, ritualística, do tipo que você escuta à noite, sozinho no seu quarto, com as luzes apagadas, olhos fechados e em franco estado de meditação. O interessante é que essa faixa termina com a mesma passagem que serve de introdução, apenas com a diferença de que o cravo aparece mais destacado aqui.
Contratempos de um Moog usando um timbre que lembra vagamente o som de um vibrafone, fazem a base sonora para o som de uma gaita "estradeira". Assim inicia ‘3 A.M. At The Border Of The Marsh From Okefenokee’. A seguir um "mar" de cordas clássicas invade a peça em um crescendo harmônico progressivamente devastador, no melhor estilo 2001: Uma Odisséia No Espaço. As cordas são logo substituídas pela farra dos sintetizadores, que produzem uma sucessão etérea de climas e intervenções melódicas abruptas, até desaguar suavemente na "gaita estradeira" outra vez, mas agora passeando por cima do que parece ser o ruído de algum pássaro, distorcido pelos ecos nas paredes de um vale.
‘Invisible Limits’ é mais "delicada" com o ouvinte, chegando aos poucos, sem alarde, sem sustos repentinos, dando-se o luxo até mesmo de trazer alguns contratempos de uma guitarra com efeito wah-wah, discretamente acomodada sobre a suave base percussivo-eletrônica. Cortesia de Froese, multi-instrumentista, mentor, único membro remanescente da formação original e principal compositor do Tangerine Dream. ‘Invisible’ a exemplo das outras, alterna momentos sublimes com passagens mais enérgicas e dramáticas, quase como se os sintetizadores de Froese, Franke e Baumann, em um momento de "inveja instrumental", tentassem reproduzir a energia orgânica de uma orquestra sinfônica! Os solos da guitarra e dos sintetizadores na metade da música, nos lembram que o Tangerine Dream nunca foi uma simples banda de música eletrônica como muitos pensam. Depois de uma passagem trágica, lembrando a banda sonora dos mais assustadores filmes de terror, cabe ao piano elétrico e a flauta "sintética" o encerramento dessa verdadeira obra progressiva!
Aos desavisados vale lembrar que o Tangerine Dream nem de longe segue a estrutura tradicional do rock, e nem mesmo daquilo que se convencionou chamar de electronic music. Sua música é primordialmente instrumental, embora eles já tenham trabalhado com vocais, como foi o caso dos álbuns ‘Cyclone’(1978) e 'Tyger’(1987). Por ter emergido da cena do Krautrock, movimento musical surgido na Alemanha no fim dos anos sessenta, e inspirado por artistas como George Harrison e Pink Floyd, o Tangerine Dream é comumente associado a grupos como o Kraftwerk, que veio da mesma cena. Mas se você acha que o som do trio Berlinense tem qualquer semelhança com o do grupo fundado por Florian Schneider em Düsseldorf, esqueça! O Tangerine Dream é muito mais hermético, transcendental, até mesmo musicalmente anárquico em seu estilo, não respeitando qualquer ordem teórica tradicional na construção de seus temas. Suas músicas estão muito mais para trilhas sonoras incidentais. Portanto, não é um trabalho muito indicado para os mais puristas ou roqueiros conservadores, acostumados com a estrutura mais tradicional do rock e seus subgêneros.
Line-up:
Edgar Froese (Mellotron/Moog/Piano/Baixo/Órgão)
Christopher Franke (Moog/Órgão/Percussão/Mellotron/Cravo)
Peter Baumann (Moog/Programação/Piano elétrico/Mellotron)
Track-list:
1 . Stratosfear
2 . The Big Sleep In Search Of Hades
3 . 3 A.M. At The Border Of The Marsh From Okefenokee
4 . Invisible Limits
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