Paul McCartney: unindo passado e presente

Resenha - Memory Almost Full - Paul McCartney

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Por Roberto Schiavon
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Memória quase cheia. Tantos shows, tanto sucesso, tanto amor, tanto ódio, tanta ilusão, tanta desilusão. Tanta vida. O que um ex-Beatle, que em sua idade mais produtiva se questionava se ainda necessitariam dele quando tivesse 64 anos, poderia fazer exatamente quando chegasse a essa idade?

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O novo disco de Paul McCartney, "Memory Almost Full", nos dá não uma dica, mas uma resposta gritada em nossos ouvidos com a mesma força que ele usou há exatos 40 anos, para nos mostrar seu medo de envelhecer na letra de "When I'm Sixty-Four", do disco "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band": senão o melhor, um dos melhores discos de sua carreira.

Um músico que poderia entrar para sempre em uma enorme ressaca depressiva e não fazer mais nada na vida após o meteoro que mudou a face do planeta chamado Beatles formou nos anos 70 a banda The Wings e foi excursionar pelos Estados Unidos em uma van, onde colocou sua mulher Linda, seus músicos e seus instrumentos. E compôs músicas como "Band on the Run", "Jet", "Bluebird", "My Love", "Maybe I'm Amazed", "Live and Let Die", "Pipes of Piece", "No More Lonely Nights" e outras que, em maior ou menor grau, mostram aspectos variados da genialidade de Paul McCartney como compositor. No entanto, McCartney nunca conseguiu em sua carreira solo a mesma aprovação da chamada crítica especializada ou mesmo de parte do público que o acompanhava nos anos de Beatles. Apesar da tarefa hercúlea de ter uma história como a que teve nos Beatles e precisar recomeçar uma carreira com nova banda ou lançando discos solo, competindo com seu próprio passado repleto de feitos insuperáveis, acima de tudo Paul mostrou durante todos esses anos um amor incondicional pela arte de fazer música e um carinho pela sua obra nos Beatles tão grande quanto o que têm os fãs.

Em grande parte dos anos 80, após matar na década de 70 a sede pelas turnês que não fazia desde 1966, quando os Beatles decidiram se tornar apenas uma banda de estúdio, Paul resolveu se debater contra o passado e teve uma crise de identidade de tamanho e conseqüências razoáveis, apesar de ter lançado "Tug of War" em 1982, que considero uma de suas grandes obras na carreira solo, e tem o dueto com Steve Wonder em "Ebony and Ivory". Seguiram-se após "Tug of War" algumas bobagens de estúdio, incluindo músicas descartáveis feitas em parceria com Michael Jackson e uma infeliz incursão pelo pop eletrônico em "Press to Play". Mas em 1989 veio "Flowers in the Dirt" e novamente o mundo voltou a reconhecer em um disco de Paul aquelas linhas melódicas que o consagraram para sempre, os desenhos costurados por seu velho baixo Hoffner da era Beatles, tirado do fundo do Baú, e sua velha garra em voltar a formar uma banda e excursionar, com generosas doses de músicas dos Beatles incluídas no repertório dos shows. Na época, me lembro de uma entrevista de McCartney dizendo que muitas músicas dos Beatles soavam "frescas" ao serem tocadas ao vivo, pois a ruptura da banda com os palcos nunca deu ao público a oportunidade de ouvir o quarteto de Liverpool as executando ao vivo. Isso fazia muito sentido e a emoção com que Paul cantava e tocava naquela turnê fez lembrar ao mundo a mágica de um Paul McCartney que parecia ter sido deixado de lado por ele mesmo.

Em 1990 Paul veio pela primeira vez ao Brasil fazer dois shows no estádio do Maracanã no Rio de Janeiro, sendo um para 130 mil pessoas em uma sexta à noite e outro no dia seguinte para 184 mil pessoas, marca que entrou no Guiness Book como maior público em estádio para uma só apresentação. Eu estava lá e ajudei com a minha presença a consolidar o recorde e aproveitei aquela noite no Rio de Janeiro para deixar parte de meu coração para sempre em algum ponto do passado. Apesar de ter feito tantos textos sobre vários shows que assisti em minha vida, nunca consegui escrever sobre aquela apresentação de Paul McCartney, talvez por achar que um amontoado de palavras, por melhor colocadas que fossem, seria insuficiente para representar a experiência pela qual passei naquela noite. Sim, nenhum sentimento será algum dia adeqüadamente representado por palavras combinadas em uma folha de papel ou uma tela de computador, mas de qualquer maneira sempre sofri um grande bloqueio quando tentei descrever aquele show, pois acredito que um texto deve pelo menos procurar não minimizar aquilo que representa e nunca achei justas as palavras que poderiam ser escolhidas para simbolizar o que aquilo representou na minha vida. Quando penso que já se passaram 17 anos desde aquele show de Paul McCartney, tenho a esperança que esteja chegando o dia em que talvez o passar dos anos me ajude a organizar melhor os sentimentos e as palavras mais justas consigam sair de dentro de meu coração. Afinal, há poucas semanas fui capaz de escrever algumas linhas sobre o show dos Rolling Stones, então, parece que as lembranças estão precisando sair, talvez porque minha memória esteja ficando cheia também. E isso me lembra o objetivo deste texto: o novo disco de Paul McCartney, "Memory Almost Full".

Durante os anos 90, Paul lançou outros bons discos e sofreu a maior tragédia de sua vida: a morte de Linda McCartney em 1997, que àquela altura era casada por quase 30 anos com o músico inglês e foi vitimada por um câncer de mama. A perda fez Paul lançar um disco muito triste, chamado "Flaming Pie", onde sua dor transparece em baladas cantadas em voz rouca de falsete quase choroso, como que querendo aceitar o que nunca deveria precisar ser aceito: a perda do grande amor de sua vida. Alguns anos se passaram e Paul lançou o disco "Run Devil Run", em que é acompanhado por músicos como o baterista Ian Paice (Deep Purple) e o guitarrista David Gilmor (Pink Floyd), seu amigo de longa data e que já havia feito participações em gravações de Paul, incluindo o solo da música "No More Lonely Nights". Com releituras de canções de artistas dos anos 50 e duas músicas novas, "Run Devil Run" é um disco feito para exorcizar as dores e celebrar a vida, mostrando novamente o eterno espírito cheio de otimismo e esperança que caracteriza a obra de Paul McCartney. Apesar de "No Other Baby But You", uma balada em que ele canta que "não quer nenhuma outra mulher a não ser você", referência clara ao sentimento de perda que ainda estava presente em seu coração, no geral o disco mostrava Paul revigorado e com vontade de voltar à estrada.

Nos anos seguintes, Paul McCartney não somente voltou à estrada com "Driving Rain", como apareceu em 2002 com uma nova mulher, Heather Mills, que provaria algum tempo depois ter sido um grande erro em sua vida, provocando um divórcio conturbado em que pleiteava quase metade da fortuna do ex-Beatle. Por mais que Paul tenha elegantemente dito em entrevistas que ela não se casou com ele por dinheiro, ficou um gosto ruim na boca dos fãs e imagino como deve ter sido para Paul ter que encontrar forças para criar enquanto voavam pela imprensa acusações e inconfidências de Heather envolvendo o casamento. Mesmo assim, McCartney se enfurnou em seu estúdio e lançou em 2005 "Chaos and Creation in the Backyard", um disco bonito, cheio de baladas melancólicas, para se ouvir em dias chuvosos, debaixo das cobertas, com cheiro de café invadindo a casa ou, se preferir, com o cheiro do mais tradicional chá inglês perfumando o ambiente.

Neste ano, com o divórcio consumado e Heather já em outras freguesias com uma boa soma de dinheiro nos bolsos, Paul McCartney fez o disco "Memory Almost Full", onde repassa sua vida através de memórias de infância em músicas que mostram um artista renovado e ao mesmo tempo em paz com seu passado. O velho Paul contador de histórias que um dia compôs Eleanor Rigby e o alquimista de melodias que forjou "Yesterday" e "The Long and Winding Road" retoma sua verve de trovador ao mesmo tempo em que mostra no novo disco um som modernizado, colocando toda a tecnologia de que dispõe a serviço do talento e da criatividade. É preciso dizer que o ingrediente principal da música tanto dos Beatles quanto de Paul McCartney, com o perdão da "meia-redundância", sempre foi a melodia. Como maiores compositores populares de todos os tempos, John Lennon e Paul McCartney, o segundo com mais propriedade em sua carreira solo, sempre colocaram seus talentos a serviço das melodias aparentemente fáceis de se compor, mas que justamente por isso soam geniais. Em conversa com meu amigo Adalberto Belgamo, um dos guitarristas com mais feeling que conheço e grande conhecedor de música, ele me dizia da grande dificuldade em se compor uma música com o velho esquema "verso-refrão-verso-refrão", que seja ao mesmo tempo criativa e tenha apelo popular. Para fazer música que satisfaça ao próprio ego, com o guitarrista tocando mil notas por segundo como se estivesse em uma competição de habilidades, não é preciso tanto talento como para compor uma melodia simples, bonita e cativante, marca registrada dos Beatles e da carreira solo de Paul McCartney.

Em "Memory Almost Full", Paul recupera a sua melhor forma como compositor e faz questão de não fugir do passado, criando músicas como "Mr. Bellamy", a qual me arrisco a dizer que tem melodia e letra que a credencia a um lugar na discografia dos Beatles. O disco traz "See Your Sunshine", uma música cuja linha de baixo, vocais e melodia trazem automaticamente um sorriso ao rosto e a certeza de que Paul McCartney está de volta fazendo o que sabe melhor. É uma música que poderia estar nos primeiros discos dos Wings, ao lado de "My Love" ou "Maybe I'm Amazed", mas foi criada por um Paul McCartney que há décadas não tem mais nada a provar, o que reforça ainda mais os motivos para sorrir. A linha de baixo rock n'roll e o violão folk rock de "That Was Me", os vocais psicodélicos e a percussão hipnótica de "House of Wax" e a beleza da voz de Paul em "The End of the End" também se destacam em um disco que traz de volta tempos bons, ao mesmo tempo em que aponta para o futuro. A canção "Gratitude" mistura a grandiloqüência de backing vocals que resvalam no gospel, um piano tocado com sentimento, um baixo que pulsa nos momentos certos, orquestrações utilizadas genialmente e um vocal solo cantado com alma; "Vintage Clothes" também é levada pelo piano cheio de swing de Paul e tem harmonias vocais originais, mas que ao mesmo tempo nos remetem aos Beatles e "Feet in the Clouds" apresenta arranjos de orquestra e vocais dignos dos melhores trabalhos de seu passado glorioso. São músicas em que Paul reafirma suas qualidades como arranjador e intérprete e mostra que os diversos clássicos dos Beatles tocados ao vivo nos últimos anos, fizeram muito bem para que ressurgisse com nova força seu talento para criar músicas tão originais quanto as que fez juntamente com os outros três garotos de Liverpool.

Em "Vintage" Clothes, Paul canta "não viva no passado, não se prenda a algo que está mudando rapidamente/Nós somos o que somos e o que usamos são roupas antigas". Na última frase o verbo "wear", que significa "usar" é um trocadilho com "were", que significa "éramos", então, o verso pode ser entendido também como "nós somos o que somos e o que éramos são roupas antigas". Ao mesmo tempo em que coloca o passado em seu devido lugar e faz questão de olhar para frente, após o divórcio com Heather, Paul parece ter refletido muito sobre a transição entre a carreira com os Beatles e o início de sua carreira solo, quando Linda McCartney era muito presente em sua vida e obra. Em algumas músicas, como "See Your Sunshine" ou "Feet in the Clouds", é impressionante como os backing vocals têm timbre muito próximo daqueles cantados por Linda quando fazia parte das gravações e shows de Paul McCartney, daí a semelhança ainda maior com canções que poderiam estar nos discos dos Wings. Com inspiração nos últimos anos de Beatles, voltou o medley no melhor estilo "Abbey Road", formado pelas últimas músicas de "Memory Almost Full", que inclui "The End of the End", cuja letra diz que, quando Paul morrer, não haverá razão para tristeza ou choro.

Este contraste entre letras otimistas e melodias que parecem velhas conhecidas; entre simplicidade nos acordes e efeitos de última geração faz um disco que apresenta as maiores qualidades de Paul McCartney e dos Beatles, mas com a sonoridade renovada de um artista que se nega a viver do passado. Unindo o eterno e o moderno, "Memory Almost Full" parece ser resumido nos versos de "Ever Present Past", onde Paul canta "procurando pelo tempo que se foi tão rápido/O tempo que eu pensei que fosse durar/ Meu sempre presente passado". Para uma mente criativa, em constante ebulição, a consciência de um tempo que se foi traz novo ímpeto para olhar o futuro como uma estrada que pede para ser explorada, sem que se esqueça de colocar na bagagem todos os suprimentos necessários para uma aventura bem-sucedida, incluindo aquela antiga, mas sempre confortável calça desbotada.

Muitos admiradores da obra de Paul McCartney já têm apontado em fóruns pela internet mundo afora, o novo disco como o melhor de sua carreira. Esta é uma afirmação que deve ser muito bem refletida antes de confirmada ou descartada, mas certamente "Memory Almost Full" obriga qualquer ouvinte a colocá-lo imediatamente pelo menos entre as três principais obras de sua carreira solo. Trata-se de um disco que merece atenção especial daqueles que subestimam a carreira pós-Beatle deste músico inglês, que viveu todas as glórias e todas as amarguras que um ser humano pode experimentar em uma vida e ainda assim continua com um entusiasmo para criar que nos dá cada vez mais a certeza de ser indispensável para o mundo a presença de um artista de 64 anos como Paul McCartney.




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Sobre Roberto Schiavon

Roberto Schiavon é jornalista, ouvinte de música e toca bateria nas horas vagas. Entre as bandas que ama estão Beatles, Rush, AC/DC, Led Zeppelin, Iron Maiden, Deep Purple e Saxon.

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