Resenha - Cine Íris: 28 de junho de 2004 - Los Hermanos

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Por Cristiano Viteck
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Para coroar a boa fase vivida pelos Los Hermanos a partir do disco "Ventura" (2003), a banda acaba de mandar para as lojas o DVD "Los Hermanos no Cine Íris: 28 de junho de 2004". Após alcançar um sucesso repentino com o disco de estréia "Los Hermanos" (1999), o qual trazia o hit "Anna Julia" - que levou a pecha de "música do verão 2000" de tanto tocar nas rádios e TVs e embalar os trios elétricos no carnaval daquele ano - o grupo carioca tomou uma decisão que para muitos na época foi vista como um suicídio comercial.

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Samba a mil

Temerosos com a possibilidade de cair no mesmo buraco negro que já engoliu tantas bandas de um sucesso só, no trabalho seguinte os músicos decidiram que o grupo deveria seguir o caminho contrário da fórmula mágica que os havia mostrado para todo o Brasil. E assim foi.

"Bloco do Eu Sozinho" (2001) foi visto com estranheza pela extinta gravadora Abril Music, que esperava que o novo álbum trouxesse uma nova canção clone de "Anna Júlia". Ao invés disso, Marcelo Camelo (vocal/guitarra), Rodrigo Amarante (vocal/guitarra), Rodrigo Barba (bateria) e Bruno Medina (teclados/piano/moog) apareceram com um álbum que fugia completamente do padrão do rock nacional. Cadenciamento incomum para as músicas com tons circenses, quebras de ritmo e batidas às vezes parecendo fora do tempo, letras rebuscadas e arranjos complicados, logo na primeira audição o "Bloco do Eu Sozinho" causava estranheza semelhante a que "Kid A", álbum pra lá de experimental do Radiohead, causou após o sucesso estrondoso de "OK Computer".

Certa do fracasso do segundo disco dos Los Hermanos a gravadora Abril Music lançou o disco mas não fez muito esforço para divulgar o trabalho. Como primeiro resultado o público dos shows minguou, as vendas iniciais foram fraquíssimas e a banda teve praticamente que recomeçar do zero. Curiosamente, ao mesmo tempo em que tudo isso acontecia, a crítica começava a destacar "Bloco do Eu Sozinho" como um dos melhores discos gravados no Brasil nos últimos tempos. Da mesma forma, uma nova leva de fãs começou a aparecer nos shows pequenos que a banda realizava pelo país, tentando mostrar de todas as formas que o álbum não era um caso perdido.

Tão sozinho

Chegava a ser engraçado. Antes um crítico voraz da banda dos tempos do primeiro álbum, este escriba chegou a "perder o chão" quando as primeiras críticas elogiando o "Bloco do Eu Sozinho" começaram a aparecer. A banda de "Anna Júlia" ser responsável por um dos melhores discos gravados na história do pop brasileiro? Não podia ser. Os jornalistas provavelmente estavam de sacanagem ou mundo tinha pirado de vez... O negócio foi correr até as lojas de CD e tentar achar o disco (sim, porque nem mesmo nas lojas o álbum podia ser encontrado facilmente).

Foi questão de duas ou três ouvidas para ter certeza de que o mundo tinha, não endoidado, mas se tornado um lugar um pouco melhor de se viver.

E foi mais ou menos isso que aconteceu em todo o Brasil com a chegada de "Ventura". Com dois discos os Los Hermanos conseguiram não apenas sair das cinzas como praticamente romper qualquer relação com a identidade de ser a banda execrável do hit "Anna Julia". Se "Bloco do Eu Sozinho" já era um disco de rara beleza, "Ventura" foi ainda mais além e conseguiu atrair a atenção de tribos diferentes, passando desde pelos fãs rock, pela MPB e até pelo samba, formando um improvável público homogêneo que se entrega de corpo e alma à banda, hipnotizado por canções como "O Vencedor", "Do Sétimo Andar", "O Velho e o Moço" e "De Onde Vem a Calma".

O vencedor

E é este público homogêneo o hipnotizado a maior estrela do DVD "Los Hermanos ao Vivo no Cine Íris: 28 de junho de 2004". O show abre com "O Vencedor" e quem canta os primeiros versos da canção são os fãs que se espremiam na pequena casa de shows do Rio de Janeiro. Sorriso estampado no rosto dos músicos. Os Los Hermanos têm o público na mão. Totalmente à vontade, a banda promove uma catarse coletiva. Das 15 músicas de "Ventura", apenas "Além Do Que Se Vê" e "Do Lado De Dentro" ficaram do lado de fora. Já do "Bloco do Eu Sozinho" comparecem "Todo Carnaval Tem Seu Fim" (com muito confete e serpentina jogados no palco pelo público), "Retrato Pra Iaiá", "Sentimental", "Adeus Você" e "A Flor". E do disco de estréia só mesmo "Quem Sabe". Na cerca de uma hora e meia de show, muitos poderão notar a falta de comunicação direta com o público. Mas, em se tratando de Los Hermanos, isso é totalmente descartável, já que as músicas parecem construir um elo de ligação com a platéia tão forte, mas ao mesmo tempo tão tênue, que qualquer coisa além das canções pode acabar com aquele momento mágico que a banda consegue criar. O mais animado entre todos da banda é Rodrigo Amarante, que com seu jeitão esquisito de tocar e cantar vive todos os minutos do show como se fosse a última coisa que ele estivesse fazendo nesta vida.

Como extra do DVD, as fãs podem conferir um documentário de aproximadamente 1 hora, chamado "Além Do Que Se Vê". Ele vem recheado de cenas gravadas durante os ensaios de "Ventura" em outubro de 2002 em um sítio em Petrópolis (RJ), as gravações do disco em fevereiro e março de 2003 na cidade do Rio de Janeiro e trechos dos primeiros shows da turnê, que tem neste "Los Hermanos no Cine Íris" um registro imperdível. É curioso notar no documentário a preocupação que a banda tem de encontrar a palavra perfeita, os arranjos que melhor se encaixam e o título ideal para cada música no momento de compô-la.

No momento, os Los Hermanos estão novamente em um sítio, desta vez trabalhando no sucessor de "Ventura". Não sei o porquê, mas existe uma certeza no ar de que eles não irão nos decepcionar...




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Sobre Cristiano Viteck

Cristiano Viteck é jornalista em Marechal Cândido Rondon (PR), apresentadordo programa Garagem 95, da Rádio Difusora FM, e assina a coluna de música Pédo Ouvido do jornal O Presente.

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