Resenha - Clandestino - Manu Chao
Por Rafael Adolfo de Souza
Postado em 19 de outubro de 2000
Manu Chao é um francês pra lá de muito louco. Foi integrante da principal banda de rock da França nos últimos tempos, a Mano Negra (grupo que esteve na mídia nacional por sua apresentação no Rio de Janeiro, durante a Eco 92). Durante essa visita, a banda excursionou em um cargueiro, fazendo apresentações de porto em porto. Passearam também pela costa do pacífico, de trem, e fazendo shows gratuítos a cada estação que paravam.

O destino quis que a Mano Negra se separasse em 1995. Depois de tantas andanças pelo mundo, a influência da música latina se incorporou a Manu Chau. E este é o ponto de partida de Clandestino, excepcional estréia solo, composto por 16 canções simples, pessoais e viciantes, compostas em francês, inglês, espanhol e até português.
O disco abre com a irretocável Clandestino (que já recebeu versão acústica de Adriana Calcanhoto e em português pelo grupo Tihuana), já ditando o ritmo do álbum. Letra pessoal e melancólica de um trovador solitário (Solo voy con mi pena / sola va mi condena / correr es meu destino / por no llevar papel / perdido en el corazón / de la grande babylon / me dicen el clandestino / yo soy el quiebra ley).
O medley Bongo Bong e Je Ne T'Aime Plus prova como a boa música é universal: pode ser cantada em qualquer língua sem perder o encanto.
Lagrimas de Oro é uma das com o sotaque latino mais acentuado, com direito a sampler de uma narração de um jogo do Flamengo sob os violões mariachi e instrumentos de sopro. Mama Call tem o charme do sotaque francês na música cantada em inglês. Demais.
O lado subversivo de Manu Chao está em todas as letras, principalmente nas mexicanas Luna Y Sol (excelente) e Welcome to Tihuana (Welcome to Tihuana / Tekila, Sexo y Marihuana / Welcome to Tihuana / Con el coyote no hay Aduana).
O português do cantor se mostra mais para portunhol em Minha Galera, principalmente no encarte onde percebe-se alguns erros ortográficos: macona, cashueira, cashaça, Flamenga, cadea, maloka. Nada que tire a beleza da música.
Clandestino é um grande disco e foge de todos os padrões radiofônicos do momento. Suas letras e melodias falam muito da alma do artista: um menestrel dos tempos modernos, um cara que sai pelo mundo, pregando suas idéias revolucionárias, doa a quem doer. Mais que um músico, Manu Chao é um militante solitário.
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