Johnny Cash: drogas, amigos e aprendizado
Por Felipoud Tramparia
Fonte: Autobiografia Johnny Cash
Postado em 12 de abril de 2018
JOHNNY CASH teve uma das piores experiência da vida quando criança.
Durante uma briga na escola, levou a pior em luta no solo com o Paul East.
JOHNNY CASH conta o desenrolar da história, destacando o perigo das drogas e da violência, no trecho retirado do livro A Autobiografia de JOHNNY CASH, escrito junto com Patrick Carr, um amigo intelectual e menos violento que Paul East.
Lembro claramente da primeira droga psicoativa que entrou no meu corpo.
Quando eu era garoto, provavelmente quando tinha onze anos, estava na escola lutando com um amigo, Paul East.
Paul era um cara grande, com pés grandes e que usava grandes sapatos rústicos, e, no processo de rolarmos um por cima do outro, o solado do sapato dele me pegou na lateral e quebrei uma costela.
No início doeu muito, mas depois de algum tempo não senti mais nada e nem fazia ideia de que minha costela estava quebrada isto é, até acordar no meio da noite.
Virei-me e a costela acabou se quebrando em duas partes, ou se estilhaçou, e estava espetando meu pulmão. A dor era terrível; gritava toda vez que respirava.
Meu pai amarrou as mulas, me enrolou em cobertores e travesseiros, me colocou na charrete e me levou até o hospital de Dyess, ao velho doutor Hollingsworth, a quatro quilômetros dali.
Eu já não berrava mais ao respirar, porque estava fazendo o possível para evitar os gritos; mas a dor era lancinante, pior do que qualquer coisa que já tivesse sentido.
O doutor Holingsworth deu uma olhada rápida e se pôs a trabalhar. "Bem, vamos acabar com isso, e rápido", ele disse, e me deu uma injeção que acabou com a dor assim que a agulha entrou.
Não só isso, comecei a me sentir muito bem. "É o que a morfina faz", o doutor Hollingsworth disse; funcionava bem.
Eu pensei: "Cara, isto é demais. É a melhor coisa do mundo, te faz sentir tão bem mesmo quando você está com muita dor. Vou ter que experimentar um pouco mais algum dia".
Estranhamente, porém, não pensei nisso de novo até muitos anos mais tarde, quando me deram morfina após uma cirurgia. Daí me lembrei de como era bom, e algum tempo depois começou a ser um problema.
E, como já disse antes, todas as drogas psicoativas carregam em si um demônio chamado Engano. Você pensa: "Se é tão ruim, por que a sensação é tão boa?". Costumava dizer a mim mesmo: "Deus criou isto; tem de ser a melhor coisa do mundo".
Mas é como aquele velho ditado sobre o bêbado: começa bebendo a garrafa, depois a garrafa começa a bebê-lo. A pessoa começa a consumir drogas, mas depois as drogas começam a consumir a pessoa. Foi o que aconteceu comigo.
Tomei minha primeira anfetamina, um pequeno comprimido branco de benzedrina marcado com uma cruz, em 1957, quando estava em turnê com FARON YOUNG e FERLIN HUSKY, e adorei.
Aumentava a minha energia, me deixava mais esperto, acabava com a minha timidez, melhorava o meu timing, me deixava ligado como uma lâmpada elétrica. Descrevi esse novo mundo que se abria para mim em Man in Black.
Com todas as viagens que tinha de fazer, quando chegava numa cidade, cansado, acabado, aqueles comprimidos me animavam e me deixavam com muita vontade de fazer um show... Aqueles comprimidos brancos eram apenas uma variedade de uma dúzia ou mais de formas e tamanhos... Eles as chamavam de anfetaminas, dexedrina, benzedrina e dexamyl.
Havia um monte de nomes legais para enfeitá-los, e eles vinham em todas as cores. Se você não gostasse de verde, poderia consegui-los em laranja. Se não gostasse de laranja, poderia consegui-los em vermelho.
E se realmente queria se comportar como se a coisa fosse ficar sinistra, poderia consegui-los em preto. Os pretos podiam te levar ida e volta até a Califórnia, sem dormir, num Cadillac '53.
E assim foi. A jornada até o vício tem sido descrita com tanta frequência por tantas pessoas em anos recentes que não creio que um relato pormenorizado de meu caminho particular possa servir a algum propósito.
Talvez no fim dos anos 1950 ou no início dos 1960 pudesse ter sido útil. Mas agora é apenas uma história entre muitas; os detalhes são diferentes, mas o padrão, os passos, a progressão, são os mesmo que os de qualquer outro viciado.
Essa matéria faz parte da categoria Trecharias BioRockers no Portalblog Misterial.
Contracapa da autobiografia de JOHNNY CASH, escrita junto com o amigo Patrick Carr, jornalista especializado em música country.
Seu Cifro vestido com a camiseta do JOHNNY CASH, adquirida na loja Memphis Shop, lendo a autobiografia do "João Grana". Foto por Fotoboard Tramparia para o Portalblog Misterial.
Faixa 1: Orange Blossom Special | Álbum: Orange Blossom Special (1965) | JOHNNY CASH | Gravadora: Columbia Records | Produtor: Don Law
Faixa 2: Solitary Man | Álbum: American III: Solitary Man (2000) | JOHNNY CASH | Gravadora: American Records | Produção: Rick Rubin e John Carter Cash
Faixa 11: Wildwood Flower | Álbum: Orange Blossom Special (1965) | JOHNNY CASH | Gravadora: Columbia Records | Produtor: Don Law
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