Rock part II: Quando o pop dá o o tom
Por Don Roberto Muñoz
Fonte: theguardian
Postado em 06 de agosto de 2017
Lançou MADONNA "Boderline", 1983, e os músicos "de trabalho" imediatamente respeitaram-na. Não poderia ser diferente. A cantora em início de carreira participou de uma conjunção pop que tem tudo para dar certo, e ser plena, quando honesta em seus desdobramentos, "course" – a união entre o popular e o aristocrata. Reggis Lucas foi vital no processo.
Boderline:
ANTÔNIO CARLOS BRASILEIRO DE ALMEIDA JOBIM alcançou tal possibilidade magistralmente em suas composições. Não apenas a compaixão, mas também a delicadeza, sempre resolvida sentimentalmente quando supera o sofrimento – a antecessora de ambas no processo – pode alcançar uma "finesse", como agudeza de espírito, na expressão artística, que seduz, inclusive, os brutos. Sedução não solta, mas amparada pelo sentimento amoroso.
Antônio Carlos Jobim:
"So Misled", 1986, criação de "sir" STEVE FERRONE na batera. O que dizer a respeito? Eu não sei. Apenas que, ao ouvir aquela entrada, senti puro assombro. Ou seja, muita qualidade dentro do mundo pop, com ênfase na nobre e sofisticada execução no som, o que o DURAN DURAN sempre soube fazer. De fato, o bastão da maestria pode ter uma continuidade habituada à excelência do aristós sonoro. Há "punch" também no Heavy Metal, com TOMMY LEE, "Dr Feelgood", 1989, CLIVE BURR, "The Ides of March", 1981 e GAR SAMUELSON, "Wake up Dead", 1986. São alguns exemplos.
Steve Ferrone:
Entretanto, TRICKY não envereda pelo pop propriamente dito, sendo confirmado o seu argumento na abertura da live session de "Nothing’s Changed". Ele resume as reverberações do "sucesso" àquele inerente recorte descartável que o momento fugaz propicia. No âmbito das formas as coisas se desgastam, mas não quando reencontramos o centro. A solenidade do teclado dá um toque de sacralidade no ambiente dentro do clip, enquanto o baterista promete. Já no clip de "Parenthesis", o músico parece entrar num inferno íntimo, se o feminino for um obsessor, ou na interiorização artística por meio da "la femme inspiratrice". Por outro lado, o clip de "The Only Way" apresenta Nossa Senhora. Todas, músicas de "False Idols", 2013.
Nothing’s Chaned:
Encaro TRICKY como um ITAMAR ASSUMPÇÃO britânico. Ambos roqueiraços na atitude e alheios a catalogações musicais. A resistência deles ao fácil "modus vivendi" da massificação cultural lembra-me também, em Terra Brasilis, de RAUL SEIXAS, CAMISA DE VÊNUS, OS REPLICANTES – com WANDER WILDNER – outros roqueiraços de antiga cepa. Na área dramatúrgica, tal radicalidade, em termos introspectivos, pode ser reconhecida com Max Schreck em Nosferstu, 1922, outro deslumbre de Murnau. Vale dar uma olhada em "A Sombra do Vampiro", 2000, dirigido por E. Elias Merhige, onde simbolicamente contempla-se um ator essencialmente ancorado na escuridão do mistério, e, por conseguinte, concentrado na explosão que acontece após os olhos do coração abrirem-se.
Itamar Assumpção:
Os Replicantes:
Já tinha dito JOHN LENNON – o rei do Rock chama-se ELVIS PRESLEY. Ponto final. Os reis do pop são os THE BEATLES, um fato por demais notório. Novità? Mas o Rolling Stones, realmente, fez Rock em diversas fases do percurso. A vitória resgatada na atitude Rock, pós ELVIS, acontece, creio, com um tímido guri nascido na Flórida, JIM MORRISON, THE DOORS. Atitude posteriormente consolidada com o movimento Punk. O resgate do underground no rock deve-se ao punk, que passou, por sua vez, a honra de tal continuidade para o Heavy Metal. Há um fundo de verdade quando PAUL Di’ANNO afirma que ele "canta Rock enquanto BRUCE canta ópera". Sim, "Powerslave", 1984, é o maior álbum do MAIDEN, mas os melhores são "The Killers", 1981, e o primeiro álbum, 1980, fora os eps lançados neste período inicial que são identicamente sensacionais.
Iron Maiden:
Garl Samuelson com Fatal Opera:
Na "finalera", a linha de baixo em "Boderline" embeleza o ambiente com uma suavidade impulsionada pela força do músico que exige-se o melhor, dentro de suas possibilidades, materiais e metafísicas. Nesta música MADONNA superou CINDY LAUPER, tarefa nada fácil, então o caminho abriu-se, e com méritos. Sem falar da virulenta e instigante "Smooth Criminal", 1987, de Michael Jackson ou dos arranjos by "New Position/ I Wonder U", 1986, Prince – quem consegue parar de dançar? Há o pop, o rock, música erudita, música sacra, entre outras alternativas sonoras na vida. A monocultura amordaça a universalidade, pois esta não desconhece as diferenças qualitativas existentes nas questões que requerem valorações.
Roberto Muñoz, escritor.
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