Melodic Death Metal: a porta de entrada para a música extrema
Por Ivison Poleto dos Santos
Postado em 04 de agosto de 2017
"The World Is Yours" do Arch Enemy está nas paradas do mundo inteiro. O Amon Amarth é uma das bandas mais bem sucedidas da história do Metal. A mudança de estilo do In Flames incomodou a muitos fãs e atraiu muito ódio declarado a tudo que se refere à banda. Mas o que estas três bandas têm em comum?
São todas consideradas como Melodic Death Metal, ou melodeath, se assim preferir, mas eu ainda não resolvi se melodeath é um termo pejorativo ou não.
De volta ao Arch Enemy. Lendo alguns comentários em uma página do Facebug, alguém disse que achava que a banda estava "mainstream" demais para o gosto dele. Isso ficou na minha cabeça, e é uma das razões pelas quais estou escrevendo esse texto. O que ele quis dizer com mainstream? Tenho certeza de que os álbuns do Arch Enemy não vendem tanto quanto os de rap ou pop. Mais ainda, eu acredito que eles sejam pesados demais, e até inaudíveis para os ouvidos dos consumidores de música dita mais comercial. Mas eu entendo o que ele quis dizer. Para alguns mais puristas, o Metal extremo deve permanecer no chamado underground. Eu concordo em termos. Diferentemente dos músicos de bandas punk, as bandas de Metal vivem de sua música, e por isso têm que de alguma forma entrar no circuito dito comercial, mas discutir isso não é o objeto aqui.
Peguei o Arch Enemy como exemplo porque foi a primeira banda que eu reconheci como Melodic Death Metal. Existiram outras, mas na época em que as ouvi eu não conhecia o estilo suficientemente, só gostava bastante do contraste gerado por sua música. Mas a pergunta continua válida: quem compra os discos do Arch Enemy ou do Amon Amarth ou vai aos shows de bandas Melodic Death Metal? Na verdade os fãs de Metal extremo, e talvez, alguns iniciantes vindos de outras vertentes do Metal como os fãs de Metal tradicional que querem experimentar atmosferas sonoras diferentes.
O ponto é: melodic death metal ainda é muito pesado para quem curte NWOBHM, hard rock e Metal tradicional. E para chegar no ponto que mencionei no título, e também como uma experiência pessoal: o melodic death metal foi a minha porta de entrada para o Metal extremo. O melodic death metal faz esse ponto de ligação entre o Heavy Metal tradicional e o Metal extremo porque é musicalmente falando muito mais próximo às estruturas musicais do Metal tradicional. Resumidamente, o melodic death metal é o Heavy Metal tradicional com vocais guturais. É claro que não é tão simples, mas ajuda na análise.
Um ótimo exemplo é a música "Guardians Of Aargard" do Amon Amarth:
Alguns podem achar que o Melodic Death Metal tenha sido diretamente derivado do Heavy Metal tradicional, porém não foi o caso. Para entender isso, temos que retornar a meados dos anos 1980 quando as primeiras bandas de metal extremo estavam comprometidas em uma busca pela velocidade da luz. Estas bandas estavam empurrando os limites de velocidade para fronteiras cada vez mais distantes, ou seja, estavam ficando cada vez mais rápidas e, é claro, isso musicalmente falando tem um limite. E este limite foi alcançado em 1987 pelos mestres do grindcore, o Napalm Death com "Scum". Até então ninguém havia tocado tão rápido. Para usar uma expressão muito comum na época fez o "Motörhead parecer um coro de freiras". O pico de agressividade, velocidade e brutalidade musicais tinham sido efetivamente atingidos. Todos os limites de velocidade haviam sido atingidos, portanto não havia mais razão para buscar a velocidade de luz. Dessa maneira, as bandas de death metal começaram a diminuir um pouco a velocidade e a introduzir um pouco de melodia nas suas músicas. As guitarras ficaram mais refinadas com riffs mais lentos somados aos duos de guitarras trazidos do do Heavy Metal tradicional. As linhas vocais mantiveram-se brutais com vocais e urros guturais só que agora com refrões um pouco mais melodiosos. Mais tarde, algumas bandas passaram a utilizar teclados para criar uma atmosfera ainda mais pesada e obscura e, também, para manter os picos emocionais das músicas.
Essa mudança para alcançar um resultado melódico mais atraente foi o que fez com que muitos fãs de Heavy Metal tradicional passassem a se interessar pelo estilo. Urros e gritos são utilizados no Metal desde o seu início, portanto já é uma tradição do estilo. Todos nós fãs de música pesada gostamos de gritos e urros e estamos acostumados com agressão e pancadaria musicais, dessa maneira, ao incorporar mais melodia, diminuir o andamento das músicas e ao refinar os riffs de guitarra modificando os seus instrumentais, o melodic death metal foi capaz de atrair para o Metal extremo uma grande quantidade de fãs de outros estilos dentro do Metal.
O Carcass, um dos pioneiros do grindgore e do death metal, com o seu álbum de 1993, "Heartwork", foi uma das primeiras bandas de Metal extremo a desacelerar e a misturar às suas músicas um pouco mais de melodia. "Heartwork" segue as mudanças musicais ocorridas no trabalho de 1991, "Necroticism – Descanting the Insalubrious" "Heartwork" é um álbum seminal que mostrou ao mundo que a obscuridade, a dor e o desespero podem ser levados a um outro limite ainda maior de agressão ao mostrá-los, simplesmente, de uma forma mais humana. Este mundo não é tão simples como achamos que é. Os músicos de Metal deixaram a vida real muito mal falada. O termo "beleza diabólica" ganhava agora mais sentido. Que bem o digam nossos patrícios portugueses para quem "bestial" é um elogio. Infelizmente, o Carcass se separou logo depois do dito álbum em 1996, mas lançou as sementes de uma era muito mais negra e obscura para a música extrema. Estas sementes foram dar seus negros frutos na distante Gotemburgo, Suécia onde bandas como In Flames, Dark Tranquility e At The Gates recuperaram a chama maldita. E já tem mais de vinte anos que a tocha vem sendo passada adiante.
Os contrastes alcançados pelas bandas de Metal entre duro e melódico, agressivo e harmonioso, obscuro e brilhante são próprios da fina arte que o Heavy Metal traz às suas músicas mostrando uma complexidade que só tem a vida mesma. As bandas de melodic death metal refinaram esta arte no que eu chamo de dialética musical, ou seja, o trabalho com os contrastes. A vida é ela mesma cheia de contrastes, ou melhor ainda, a vida é um contraste. Alguém já disse que a vida ama tragédias, não é? Além disso, toda essa complexidade vital foi trazida à composição das músicas dando início a um subgênero que é capaz de resumir toda a miríade de emoções humanas em suas músicas. A mistura de vocais agressivos com riffs melódicos de guitarra não é nova no mundo do Metal, o Judas Priest vem fazendo isso há anos, mas as bandas de melodic death metal elevaram isso a um outro patamar transformando-as em algo realmente surpreendente e emocionante. É desafiante e surpreendente escutar bandas de melodic death metal, pois nunca sabemos o que vai acontecer, se a música vai se transformar numa pancadaria franca e aberta ou se vai vir com melodias calmas e tranquilas, ou tudo isso misturado. É preciso ter muita criatividade para conseguir misturar tudo isso.
E de volta agora com o Arch Enemy apenas para lembrar que a banda foi fundada em 1996 pelo guitarrista do Carcass Michael Amott. Algo familiar?
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