BBM: o Cream remontado com Gary Moore no lugar de Eric Clapton
Por Igor Miranda
Postado em 21 de novembro de 2016
O Cream fez história em menos de três anos de carreira. Tornou-se uma das bandas mais aclamadas do efervescente rock psicodélico da década de 60 e foi um dos pioneiros do heavy metal.
Desde que o Cream encerrou suas atividades, no fim da década de 60, não se falou em reunião. Cada músico foi para o próprio canto. O destino não foi generoso com todos: o guitarrista Eric Clapton virou uma grande estrela, enquanto o baixista Jack Bruce e o baterista Ginger Baker não conseguiram alçar o mesmo nível de popularidade dos tempos de trio.
Em 1993, surgiu a oportunidade para o Cream se reunir: a indução ao Rock And Roll Hall Of Fame. O trio tocou junto durante a cerimônia e uma turnê era discutida, mas a ideia foi abandonada por Clapton. Fala-se que o guitarrista propôs que o grupo saísse em turnê sob a alcunha "Eric Clapton & Cream", o que gerou discordância entre ele e os demais integrantes.
Ainda em 1993, no mês de novembro, Jack Bruce celebrou seu 50° aniversário com dois shows comemorativos na Alemanha e convidou, entre outros músicos, Gary Moore para tocar com ele. O resultado foi tão envolvente que Bruce convidou Moore para um projeto com Ginger Baker, que, na verdade, seria a reunião do Cream - só que sem Eric Clapton.
(No vídeo acima, Jack Bruce e Gary Moore com o baterista Gary Husband, em 1993)
O resultado
Foram necessários apenas seis meses para que o trio se formasse, se entrosasse e lançasse, sob a alcunha BBM (Bruce-Baker-Moore), o disco "Around The Next Dream", em 1994. Como era possível que um trabalho tão fantástico fosse feito em tão pouco tempo?
"Talento" e "experiência" respondem à questão. Gary Moore, o maior "novato" dali, estava na ativa como músico profissional desde o início da década de 1970. Além de sua carreira solo, integrou o Skid Row (não o de Sebastian Bach) e o Thin Lizzy. Jack Bruce e Ginger Baker dispensam apresentações: são doutores em blues rock.
"Around The Next Dream" é um disco fantástico. Uma pena que seja o único lançado pelo trio. Suas dez faixas apresentam um blues rock de cozinha incrível, vozes bem colocadas e a guitarra de timbres gordos de Gary Moore, além de um repertório de ótimo gosto, composto por oito faixas autorais e duas duas canções eternizadas por Albert King, "High Cost Of Loving" e "I Wonder Why (Are You So Mean To Me)".
As comparações com o Cream são inevitáveis. E, em alguns momentos, o BBM realmente soa como o antológico trio da década de 60. Em outros, soa mais tradicional, aliado a uma pegada bluesy menos efervescente do que aquela praticada por Jack Bruce e Ginger Baker no passado. Apostou-se em progressões melódicas menos inesperadas e até em leves camas de teclados no background de determinadas canções.
Faixas como "Waiting In The Wings" e "City Of Gold" têm o "padrão Cream" de excelência. Por outro lado, houve espaço para inventividade em momentos como a balada "Where In The World", a groovy "Glory Days" e a arrastada "Naked Flame", que aliam as digitais de Gary Moore à cozinha classuda que apenas Jack Bruce e Ginger Baker poderiam proporcionar.
Os problemas
Com três nomes de peso juntos após tantas décadas de experiência, o ego, em algum momento, falaria mais alto. Foi o que aconteceu. Entretanto, aconteceu de forma tão rápida que mal deu tempo do BBM fazer uma curta turnê pela Europa.
O encrenqueiro Ginger Baker não se deu bem com o metódico Gary Moore. O baterista também se estranhou com Jack Bruce, que, supostamente, o tratava como "músico de estúdio", mas os verdadeiros conflitos partiram de Baker e Moore.
"Ao contrário do Cream, tudo com Gary Moore era artificial. Todo solo que ele tocou era o mesmo. E eu gosto de improviso. Sem o meu conhecimento, eles fizeram um ensaio na Brixton Academy e quando cheguei, ouvi a guitarra de Gary Moore do outro lado da rua. Tocamos perfeitamente. No dia seguinte, o empresário dele me disse que ele havia estourado seus ouvidos novamente e eles o levaram para o médico. Eu disse: 'Por que vocês não o levam a um maldito psiquiatra?'", disse Baker, à Classic Rock.
O baterista relatou, ainda, que shows foram cancelados graças aos efeitos causados pelos valorosos decibéis e até por uma ocasião em que Gary Moore feriu o dedo com uma lata. "Foi uma época terrível, tocando com o Topetudo Mimado do Pop. Um show foi cancelado quando ele (Gary Moore) cortou seu dedo abrindo uma maldita lata. Eric (Clapton) teria colocado um curativo e tocado. Ah, não... não o Gary", afirmou.
Paralelo a isto, "Around The Next Dream" não fez o sucesso esperado. Chegou ao Top 10 das paradas do Reino Unido, mas nada além disto. Também pudera: o trabalho de divulgação se restringiu a apenas uma porção de shows em festivais. Ginger Baker reconhece, também, que o público não deu o crédito necessário a Gary Moore, tão comparado com Eric Clapton neste trabalho.
O Cream, com Clapton, reuniu-se em maio de 2005 para uma série de shows em Londres. Já o BBM nunca voltou a tocar junto. Gary Moore morreu em 2011, aos 58 anos, vítima de um ataque cardíaco, enquanto Jack Bruce faleceu em outubro de 2014, aos 71, com problemas no fígado.
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



"Não somos um cover, somos a banda real", diz guitarrista do Lynyrd Skynyrd
A música do Metallica que foi inspirada em "Run to the Hills" (e virou um "patinho feio")
Cinco versões "diferentonas" gravadas por bandas de heavy metal
Type O Negative ainda não conseguiu convencer tecladista a voltar
As 11 bandas de rock progressivo cujo primeiro álbum é o melhor, segundo a Loudwire
Rob Halford revela por que deixou o Judas Priest após "Painkiller"
O único membro do "Angraverso" que tem uma boa gestão de imagem e carreira
Alissa White-Gluz fala sobre "Black Widow's Web" do Angra e reação ao conhecer Sandy
Os artistas que passaram toda carreira sem fazer um único show, segundo Regis Tadeu
A banda iniciante de heavy metal que tem como objetivo ser o novo Iron Maiden
Metallica recebeu pedido inusitado ao abrir show dos Rolling Stones, relembra Lars Ulrich
O guitarrista que entrou no lugar de Eric Clapton e não tremeu; "ele era superior aos outros"
O melhor álbum de metal de todos os tempos, segundo Gary Holt do Exodus
Essa música do Lynyrd Skynyrd é uma das mais polêmicas da história
A regra não escrita que o Iron Maiden impõe nos solos de guitarra, segundo Adrian Smith

O baixista que fez Geezer Butler pensar "É isso que eu quero fazer"
A banda que impressionou Eddie Van Halen: "A coisa mais insana que já ouvi ao vivo"
O poderoso power trio "resposta ao Cream" que tinha Clapton na plateia, mas implodiu cedo
Zakk Wylde mostra o riff do Black Sabbath que foi "chupinhado" do Cream de Eric Clapton
As cinco bandas de rock favoritas de Jimi Hendrix; "Esse é o melhor grupo do mundo"
Jaco Pastorius: um gênio atormentado
Para entender: o que é rock progressivo?


