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Dream Theater 2022

Slade: os pais da fúria, quatro caras de "culhões" num palco

Por Addy Holder
Fonte: Holder90.org
Em 26/05/14

Sim, uma estranha banda inglesa formada em 1966, pode, sem sombra de dúvidas, ostentar o título de criadora do Rock pesado, gritado e cantado com "voz de gralha". O "metamórfico" Ambrose Slade abandonou até mesmo o primeiro nome para invadir a década de 70, surpreendendo nos estúdios e nos palcos, detonando rebeldia e exibindo um visual, no mínimo, exótico. Os quatro garotos de Wolverhampton achavam que Shirley & Lee, Little Richard, Steppenwolf e Janis Joplin podiam ser explorados, explodidos e assim o fizeram. Agora era o Slade quem dava as cartas. A mais bizarra do Glam Rock britânico, a banda que se vestia diferente, cantava diferente, escrevia diferente, enfim, fazia todas as diferenças num cenário dominado por grupos mais definidos em proposta, como Black Sabbath, Deep Purple e Led Zeppelin, por exemplo.

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O Slade era uma espécie de coringa do Rock e cada álbum era uma surpresa para os fãs. Justamente por possuírem tal característica indefinida, atiraram para todos os lados possíveis do sucesso, tornando-se uma verdadeira obsessão a busca pelo reconhecimento, fato que não se concretizou no maior dos objetivos, os E.U.A.

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A crítica americana não compreendeu a energia excêntrica e contagiante do Slade, capaz de enlouquecer o público a tal modo que já era rotina a banda ter de arcar com os prejuízos das cadeiras arrancadas e despedaçadas nos Ginásios e Teatros. Infelizmente poucos são os registros de apresentações filmadas ao ar livre, pois o empresário Chas Chandler preferiu fazer deles uma banda de locais fechados, inclusive estúdios de TV. E, realmente faturaram bastante com seus hits maravilhosos nas paradas britânicas. Obtiveram sucesso também em vários outros países da Europa e iam espalhando, sem muito alarde, seus álbuns pelo mundo.

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Quem eram eles?

Dave Hill, o guitarrista de solos geralmente simples e curtos, mas constantes. Ostentava sua franja atípica, numa cabeleira lisa e muitas vezes enfeitada com purpurina. Era uma espécie de líder fora dos palcos, cobrava disciplina e freqüência nos ensaios. Dono de uma performance tão estranha quanto a própria banda, com suas danças desajeitadas, caretas sorridentes e alegria contagiante.

Don Powell, o baterista mais adequado ao som diversificado da banda. Caracteristicamente centrado durante as apresentações, semblante fechado e mascando chiclete o tempo todo. Ficou entre a vida e a morte após grave acidente de carro que culminou na morte de sua namorada em 1973. Don, teve como seqüelas a perda dos sentidos do paladar e olfato e, até hoje, tem problemas de memória. Dizem que os outros integrantes tinham que estar sempre lembrando a ele qual seria a próxima música a ser tocada nos shows.

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Jim Lea, compositor e o baixista mais nervoso do Rock. Tinha, além de uma formidável habilidade, a característica de ficar deslizando rapidamente as cordas do baixo, praticamente um tique nervoso (fazia isso até no violino) notado com muita evidência nas faixas do álbum Slade Alive! de 72. Jim fazia backing vocal ao lado de Dave Hill, mas em "when the lights are out" deu seu "ar da graça", contrastando totalmente os agudos estridentes de Noddy Holder.

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Noddy Holder, compositor, guitarra base e a pioneira "voz de gralha" do Rock pauleira. Esse louco dos palcos, que se vestia feito um palhaço de Circo, com ternos xadrez, gravatas gigantes, suspensórios, cartolas espelhadas e chapéus de todos os tipos, ensurdecia os ouvidos morais do Reino Unido. Sua voz era mais poderosa do que o próprio som do Slade e as duas melhores performances estão registradas nos álbuns "Alive I" de 72 e "Slayed" de 73, verdadeiros clássicos onde Noddy encantou os jovens de sua época através de seus berros estridentes e agudos.

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Metamorfoses e obsessão por estrelato

Em sua fase mais notória, início dos anos 70, o Slade quebrou records e barreiras sociais. Agredia nos microfones, nas roupas e até mesmo na grafia incorreta, presente nos títulos das canções, uma afronta que chegou a gerar protestos de professores britânicos.

Shows lotados, legião de fans e no ano de 74 lançaram o filme "Slade in Flame", mais um pioneirismo dentro do mundo do Rock'n Roll. Em 1977, já enfraquecido pela concorrência que eles mesmos criaram a partir de suas atitudes, lançam o estranho álbum "Whatever happened to Slade?", para muitos, o melhor disco até hoje. A capa revive a fase antes de 70, quando adotavam cabeças raspadas e coturnos. Sim, eles também foram pioneiros skinheads, vindos de uma classe operária "black country". Apenas o Slade e posteriormente o Motorhead conseguiu juntar rockeiros, carecas e moicanos num mesmo show sem que ocorressem brigas.

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No final dos anos 70 lançaram o ótimo Alive Vol. 2 e, após isso, quando já estavam praticamente esquecidos e decididos à encerrarem a carreira, foram convidados pelo ilustre fã, Ozzy Osbourne, para substituí-lo no Festival de Reading, em 1980.

O lendário Reading Rock Festival de 1980

Muitos dentre os cerca de 60 mil (100 mil, segundo algumas fontes) jovens metaleiros não se conformaram em saber que Ozzy seria substituído por uma esquecida e suposta banda pop. O Slade entrou em cena recepcionado por vaias e objetos que eram lançados sobre o palco, mas logo o público percebeu, atônito, que estava diante de uma lenda viva do Rock. Inevitavelmente foram rendidos à fúria avassaladora do Slade. De fato, aqueles milhares de jovens esperavam quatro caras que iriam cantar baladas e músicas de natal num Festival de Heavy metal, mas Ozzy sabia do que eles seriam capazes e por isso não perdeu a feliz oportunidade de chamá-los. O "estrago" que o Slade fez naquele dia, desbancando Ian Gillan, Iron Maiden, Whitesnacke, Def Leppard, UFO, Samson, Krokus e outras feras é citado até hoje pelos entendidos no assunto como a mais brilhante apresentação ao vivo que uma banda já fez e, de fato, já eram reconhecidos como imbatíveis em presença de palco e comunicação com a platéia.

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Em 1981, em homenagem ao público metaleiro que presenciou o Reading Festival de 80, o Slade lançou o álbum "Till deaf do us part", com pitadas de distorções Heavy metal e logo em seguida, em 82, lançaram o terceiro e último ao vivo, intitulado "On Stage", onde podemos ter uma noção do que foi realizado naquele fatídico dia.

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Com o "terremoto" em Reading, algumas bandas americanas como o Twisted Sister e o Motley Crue foram catapultadas ao sucesso nos EUA. E, mais ironicamente ainda, quase duas décadas depois de o Slade ter fracassado naquele país, o Quiet Riot explodiria nas paradas em 1984 com a bela versão de "Cum’on feel the noize".

Hora de dizer adeus

Depois disso, ainda mais três álbuns completaram a extensa discografia da banda: "The amazing kamikaze síndrome" de 83, que conseguiu trazê-los de volta às paradas com o maravilhoso hino "My oh My" e "Run Runaway" que, finalmente, através de um video clip bem elaborado, foi bastante divulgada na MTV americana e ficou bem posicionada na Billboard. Já nesse disco, percebia-se a banda querendo tomar um rumo mais moderno e, em 1985, lançam "Rogues Gallery" com faixas dançantes e efeitos de sintetizador. Por último, o "You Boyz make big noize" de 87, onde tentaram inovar em tudo, até mesmo em solos mais elaborados de guitarra, vindos do genial multi-músico, Jim Lea.

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E foi assim que completaram 21 anos de carreira com a formação original. Não havia mais espaço para o Slade no globalizado mundo da música. Noddy e Jim já se davam por vencidos e, de cabeças erguidas, completamente realizados e ricos, deram um basta e encerraram suas atividades em palco, oficialmente em 1992. Dave e Don continuaram então com o Slade II, com outros integrantes, e seguem até hoje excursionando pela Europa. Com isso, a dupla remanescente tem completado quase que ininterruptos 50 anos de estrada, coisa que pouquíssimos músicos no mundo conseguirão atingir.

O legado do Slade

Não, a banda mais injustiçada do Rock não obteve o reconhecimento que merecia da mídia mundial, mesmo sendo donos de verdadeiras obras primas como "Cum’on feel the noize", "Everyday", "Mama weer all crazee now", "Cuz I luv you", "Gudbuy’t Jane" e tantos outros mais.

Deixaram uma herança inigualável e suas influências estão em toda a parte quando se pensa em Hard Rock. As botas de cano alto e a cara pintada de Dave Hill foram adotadas pelo Kiss, a dança sincronizada de "vai e vem" que a dupla Dave e Jim fazia, seria imitada posteriormente pelos músicos do Scorpions; o som sujo, furioso e de voz rasgada criou um estilo presente em bandas como AC/DC, Accept, Quiet Riot, Cinderella e Nirvana, só pra citar algumas. Até mesmo uma versão da franja de Dave Hill podia ser vista em Johnny Ramone. E mais, a ousadia em se criar arranjos pesados para músicas de artistas renomados. A palavra "Heavy metal", presente na letra de "Born to be wild", do Steppenwolf, passou a ter real sentido com a versão do Slade. O que dizer de "Move over" de Janis Joplin, e "Let the good times roll" de Shirley & Lee? Simplesmente viraram sinônimos de rebeldia e pauleira.

Slade: pra quem nunca ouviu, basta conferir e, para concluir, nada como uma definição bem ao estilo rocker, citada por um amigo, um fã de nome Arthur: "Em se tratando de Slade, você não vai encontrar uma banda de técnica apurada, de solos virtuosos ou coisa assim, mas certamente saberá que eram quatro caras de "culhões" num palco"

Por Addy Holder

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Sobre Addy Holder

Webdesigner e Escritor. Nascido em Campinas-SP. Amante do Hard Rock desde 1981.

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