US Festival 83: celebração definitiva do Heavy Metal
Por Eduardo Tavares
Postado em 25 de abril de 2010
Quase uma década e meia havia se passado desde a positividade emanada de Woodstock e o pesadelo de Altamont. No início dos anos 80, a Califórnia foi o berço de um novo modelo de mega evento musical, o US Festival, que em sua segunda edição, realizada no verão de 1983, marcou a celebração definitiva do Heavy Metal.
Verdade, na década de 70, aconteceram duas edições do Califórnia Jam (1974/1978). Apesar do cast do evento, naquela época, ter incluído dinossauros como BLACK SABBATH, DEEP PURPLE e AEROSMITH, quando me refiro à "celebração de Metal" ocorrida no US Festival é principalmente pelo fato de que, no início dos anos 80, o mundo despertava inegavelmente e direcionava os olhos para um movimento que vivia seu momento seminal, digo o Heavy Metal na pura concepção da palavra.
Sem o espírito humanitário e de caridade que impulsionou festivais surgidos posteriormente, o US Festival, realizado em uma área gigantesca no Glen Helen Regional Park, em San Bernardino, na ensolarada Califórnia, pretendia congregar tecnologia e música. O patrocinador do evento, Steve Wozniak, tempos atrás fora um dos cabeças da Apple Computer. As duas edições do US Festival (1982/1983), contaram inclusive com enormes tendas expondo o que havia de mais moderno em softwares, equipamentos eletrônicos de música e computadores. Apesar do US Festival ter reunido milhões de pessoas, ele deu um prejuízo de R$ 20 milhões aos organizadores.
A primeira edição do festival aconteceu em um fim de semana, de 3 a 5 de setembro, em 1982. Entre os 20 artistas escalados: RAMONES, THE POLICE, SANTANA, FLEETWOOD MAC, PAT BENATAR e GANG OF FOUR, entre outros.
O segundo US Festival, ocorrido em um fim de semana de verão, de 1983, reuniu 33 artistas, em quatro dias. Para agradar a todos, a organização do evento definiu: dia 28 maio "New Wave Day", 29 seria o "Heavy Metal Day", no dia 30 o "Rock Day" e o dia 4 de junho escolhido como o "Country Music Day". INXS, THE CLASH, U2, DAVID BOWIE e WILLIE NELSON, entre outros, marcaram presença.
Mas o foco deste artigo é o domingo, segundo dia da maratona musical, batizado como "Heavy Metal Day".
Com um público estimado em de 670 mil reunido nos quatro dias e duas mortes reportadas, o "Metal Day" aglomerou cerca de 370 mil headbangers enlouquecidos debaixo de um sol de 39º para assistir, desde o meio-dia, em ordem de apresentação: QUIET RIOT, MOTLEY CRUE, OZZY OSBOURNE, JUDAS PRIEST, SCORPIONS, TRIUMPH e VAN HALEN. Jovens de vários cantos da América não pensaram duas vezes em se deslocarem até San Bernardino para celebrar um gênero musical até então rejeitado pelos pais e a grande parte da sociedade mais conservadora.
Tocando em casa, os californianos do QUIET RIOT (banda que contou com o falecido gênio da guitarra Randy Rhoads como membro original) tiveram a desafiadora tarefa de abrir o dia. O saudoso vocalista Kevin Dubrown e sua gangue de Los Angeles experimentavam o sucesso estrondoso do terceiro álbum "Metal Health", lançado em março daquele mesmo ano. O disco vendeu nada menos que 6 milhões de cópias e se tornou o primeiro álbum de Heavy Metal a entrar direto no primeiro lugar das paradas. A banda já estava cascorada após incontáveis shows no circuito de clubes de Los Angeles. Não existem palavras para definir a ovação recebida do público. Basta conferir a apresentação da música "Metal Health" com mais de 300 mil pessoas acompanhando com os braços os gestos de Dubrown, que finaliza a apresentação quebrando a pancadas o pedestal do microfone. Outro detalhe marcante é a linha de baixo sendo tocada por Rudy Sarzo com o instrumento de cabeça para baixo. Papel cumprido.
O mundo ainda não imaginava a enxurrada de problemas que um quarteto de Hollywood iria aprontar nos anos seguintes. Precursores do movimento Hair Metal, recém surgido na cidade natal, o MOTLEY CRUE superou com o visual algumas limitações musicais. A matadora "Take me To the Top" abriu o concerto, a uma e meia da tarde, mas o ponto alto foi a avassaladora "Live Wire", com o riff clássico de Mick Mars. Com certeza o MOTLEY iria se consolidar e amadurecer muito anos depois. Isso fica claro na introdução de "Live Wire" com Vince Neil se esgoelando para levantar a multidão. Ainda no palco, o vocalista esbravejou para o público que aquele era o dia em que a New Wave morreu e o Rock and Roll assumiu o controle.
Ainda abalado pelo recém falecimento do guitarrista e sua alma gêmea musical Randy Rhoads (morto em um acidente aéreo, em 1982), o madman OZZY OSBOURNE apresentava pela primeira vez ao público seu novo guitarrista Jake E. Lee. Precisamente às três da tarde OZZY entra no palco vestido como um xamã. Ele hipnotizou a audiência com "Crazy Train", "Mr. Crowley" e clássicos do SABBATH como "Paranoid". Apesar do estado físico limitado, pois boatos diziam que subiu ao palco com três úlceras, o vocalista fez um show inesquecível.
A América ainda não estava plenamente conquistada por uma banda inglesa que vinha trilhando uma carreira consistente antes até do surgimento do movimento conhecido como New Wave of British Heavy Metal. Quase um ano após o lançamento do álbum clássico "Screaming for Vengeance", o JUDAS PRIEST fez uma performance antológica do vocalista Rob Halford levando um fã enlouquecido a invadir o palco e agarrá-lo no fim da apresentação durante os últimos acordes de "You´ve Got Another Thing Comin´". Finalizado bombardeio, um coro de 370 mil pessoas gritava o nome da banda pedindo para que não deixasse o palco.
O trio canadense TRIUMPH, quase um clone do conterrâneo RUSH, acalmou os ânimos no fim da tarde após a apresentação incendiária do JUDAS. O ponto alto foi "Magic Touch", do álbum intitulado "Never Surrender", lançado naquele ano.
Primeiros a tocarem de noite utilizando todos os recursos de iluminação, os alemães do SCORPIONS entraram no palco por volta das 20h. Com o disco "Blackout", lançado em 1982, como uma carta na manga, os guitarristas Mathias Jabs e Rudolf Schenker fizeram do palco uma pista para vôos sincronizados empunhando seus instrumentos. Momento marcante foi "The Zoo", com Klaus Meine levantando o público e Mathias utilizando maravilhosamente o seu Talk-Box.
Com status de maior banda de rock do momento, o furacão VAN HALEN receberia a cifra astronômica de um milhão de dólares para se apresentar como atração headline no domingo. O cachê logo subiu para um milhão e meio após a banda americana descobrir que DAVID BOWIE receberia a mesma quantia de um milhão para fechar o dia seguinte. A extravagante banda californiana tinha uma cláusula em seu contrato exigindo que fossem mais bem pagos do que qualquer outro artista que se apresentasse no US Festival.
Fazendo o oposto, o THE CLASH anunciou que não subiria no palco a menos que donativos fossem doados como caridade. Este argumento e burburinhos durante as coletivas de imprensa realizadas antes e durante o evento culminaram com um clima acirrado e de disputa entre o VAN HALEN e o CLASH. Isso ficou claro no backstage com conflitos entre os vocalistas David Lee Roth e Joe Strummer, o que gerou a seguinte declaração do guitarrista Eddie Van Halen sobre o movimento punk: "... soa como o som que eu tocava na minha garagem quando eu era uma criança".
Claramente embriagado, Roth insultou o THE CLASH durante o show do VAN HALEN. Com uma garrafa de uísque na mão bebendo no gargalo, Roth confidenciou, para delírio da platéia, que somente os ingleses do CLASH colocavam ice-tea dentro da garrafa de Jack Daniels.
O show bombástico começou com "Romeo Delight", quando Roth de tão alucinado, esqueceu parte da letra da música. Em determinado momento, o vocalista do VAN HALEN chegou a interromper o show e conversar bêbado durante um bom tempo com o público, ameaçando inclusive transar com a namorada de um fã que havia atirado algum objeto no palco.
Seguiram-se clássicos como "Runnin With the Devil", "You Really Got Me" e "Dance The Night Away", entre outros. Levando ao extremo a atitude Rock and Roll, o VAN HALEN fechou o Heavy Metal Day consolidando o seu gigantismo como banda de arena incompatível para apresentações em lugares de dimensões menores. Dividindo o mesmo palco com monstros consagrados do Metal, a banda dos irmãos Edward e Alex confirmava o que a mídia especializada em geral havia sacramentado como um fenômeno que extrapolava inclusive as barreiras que delimitavam o gênero definido como Heavy Metal, o que ficou evidente com o lançamento, sete meses depois, do histórico "1984".
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