Pete Yorne
Por Natalia Vale Asari
Postado em 25 de junho de 2006
Originalmente publicada no site Dying Days
Levantou de mau-humor, colocou uma camisa surrada do Scorpions e óculos escuros. Saiu para pegar o ônibus da turnê com cabelos e barbas cuidadosamente desgrenhados. Ficou ainda boquiaberto com a viagem, tirou várias fotos de si mesmo em excursão, mas a expressão desolada não mudou. Fez um show que começou à tardezinha para um platéia razoavelmente grande, tratou-os com simplicidade e desprendimento. Tocou músicas intimistas, com aquela levada de pop perfeito, saudou o público, com a carinha de trovador prestes a chorar. Cantou mais uma música para a manhã seguinte. Finalmente foi dormir para no outro dia fazer tudo de novo.
Fosse esse um mundo simplista, uma figura que alternasse camisas do Iron Maiden e do Scorpions, tocasse com o Iggy Pop e fizesse músicas para uma série melosa estadunidense não existiria - ou no mínimo seria internado como se tivesse um sério problema de identidades múltiplas. Só que esse sujeito meio estranho existe e faz músicas lindinhas e redondinhas: Pete Yorn, New Jersey, 1974, Show de Talentos, 1990, Café Largo - LA, 1990 e tantos, musicforthemorningafter, 2001, Day I Forgot, 2003.
Vamos aos poucos, então, porque é uma história de uma simplicidade tremenda, e ao mesmo tempo com fatos paradoxiais que só podem ser devidos a uma postura (pelo menos aparentemente) inocente e cândida do músico e seus comparsas. Depois de nascer, engatinhar, falar e andar, Pete Yorn resolveu brincar com as coisinhas que viu espalhadas pela casa. Havia o piano da sua mãe, a bateria e a guitarra de seus irmãos. Aprendeu a gostar de barulho, talvez, ouvindo a broca do escritório de dentista de seu pai, mas é mais provável que seus irmãos mais velhos o tenham levado ao mau caminho. De qualquer maneira, reza a lenda que aos 9 anos o menino já dominava a bateria, e aos 12 ganhou completa afinidade com a guitarra, além de ter tido vários casos profundos com outros instrumentos por aí.
Por causa de uma garota, dizem, iniciou-se ao mundo dos Smiths e procurou o rock britânico. Espalha-se por aí, por falta de melhores comparações e por uma coceira incurável nas mãos dos "redatores indies", que seu som é algo com pitadas de Bruce Springsteen e T. Rex. O fato é que a primeira apresentação de Pete foi num show de talentos de sua escola, Montville New Jersey High School, em 1990, quando estava no segundo grau. A história é confusa: diz-se que ele tocou bateria e cantou ao mesmo tempo, outros falam que ele foi recrutrado por duas bandas, dizem até mesmo que trocou de bandas no momento final. Tem-se notícias que cantou as músicas Talent Show, do Replacements, de nome nada evocativo, e a Rocking in the Free World, do Neil Young. Entusiasmado com a recepção neste primeiro show, bem estilo adolescente estadunidense, Pete Yorn ganhou confiança em seu talento e decidiu que mais tarde iria lutar pela sua música.
Trovador não tão solitário assim Antes da luta de verdade, Pete Yorn foi dando pequenos passos, como um menino comportado, mas ao mesmo tempo tentando se aproximar mais e mais da realização do seu sonho de viver música. Mudou-se para Nova Iorque sob o pretexto de ter um diploma em Comunicações na Syracuse University. Depois de formado, foi tentar a sorte em Los Angeles, Califórnia, para ficar mais perto da gravadora Columbia. Enquanto esperava ser reconhecido tocando em vários cafés, com uma paciência de monge budista e uma segurança impressionantes, foi caixa de banco e assistente de produção. Esteve nas bandas Million e na Ours, mas decidiu que seu estilo solitário de tocar era o que realmente queria.
O plano, um tanto simplório, parece ter dado certo. Um executivo senior da Columbia Records insiste ter sido o primeiro a detectar o talento de Yorn através de uma versão acústica de Life On A Chain. Um dos um dos produtores do filme "Eu, Eu Mesmo e Irene" também quer os louros para si, e espalhou por aí que foi ele quem primeiro notou o trabalho do músico no Café Largo e encomendou algumas músicas para o filme. Strange Condition, umas das músicas enviadas, entrou para a trilha sonora oficial da película, ao lado de composições do Wilco (um dos preferidos de Yorn), Foo Fighters, Ben Folds Five e Brian Setzer Orchestra. Isso foi por volta de 1999-2000.
Nesta mesma época, Pete Yorn foi requisitado para participar do segundo volume da trilha sonora da série Dawson's Creek, com a música Just Another. Composições suas também foram parar na série Felicity. Felizmente, ele não se contentou em produzir músicas especializadas para séries e resolveu presentear o mundo com um disquinho seu.
O sonhado contrato com a Columbia estava feito, e foram chamados figurões para ajudar na sua estréia séria em estúdio: R. Walt Vincent, Don Fleming e Brad Wood reuniram-se com o recém-descoberto talento na garagem e no porão de Vincent. Diz-se à boca pequena que Yorn encarnou o homem-banda e tocou praticamente todos os instrumentos. Na verdade, ele recebeu, sim, uma pequena ajuda da sua futura banda de apoio em shows, a Dirty Bird. Apresento-lhes: Jason Johnson, guitarra, Terry Borden, baixo e backing vocal, Joe Kennedy, piano-guitarra-backingvocal e Luke Adams, bateria. A maioria desses já eram colegas de Pete da época da universidade.
O boca-a-boca deu conta do resultado deste trabalho: musicforthemorningafter, lançado em março 2001, produziu um hype Internet afora. Pete Yorn foi proclamado o salvador do rock por um dia e seu disco, por ter um estilão lo-fi e espontâneo, foi considerado seguidor do Guided By Voices. Outros disseram que ele ia na onda do rótulo alt-country do Wilco. Esqueça essas informações-confeito que fizeram o nome do músico chegar aos seus ouvidos. O disco é simplesmente espontâneo, uma captura de um momento de harmonia proporcionada pela combinação de alguns instrumentos e um vocal carinhoso e poderoso na medida certa. A produção é somente suficiente para deixar tudo dentro dos eixos e redondinho. É o pop perfeito, que muitos procuram por aí, um disco meigo e singelo. Acho que essa singularidade deve-se ao ensinamento levado ao extremo: "um trabalho só estará perfeito não quando não houver mais nada a ser adicionado, mas sim quando não houver mais nada a ser retirado". E parece que esse processo, no disco, foi quase inconsciente.
A partir deste inconseqüente ato de criar um disco, Pete Yorn ficou mais requisitado do que nunca. Em novembro de 2001, lançou o single Life on a Chain. Em 2002, mais dois singles: For Nancy e Strange Condition. Trilhas sonoras? Mais duas, também. Homem-Aranha com a canção Undercover, deixando seu nome ao lado de Strokes, Aerosmith, Hives e Jerry Cantrel. A Estranha Família de Igby, com a música Murray. O atribulado Pete também gravou um cover de I Wanna Be Your Boyfriend para o disco tributo ao Ramones "We're A Happy Family - A Tribute To Ramones". Como se não bastasse, teve tempo de fazer parte do Stooges por uma noite e mostrar o lado rock 'n' roll do "trovador solitário". Ele acompanhou, na bateria, Iggy Pop (claro), Howlin' Pelle Almqvist, Mike Vigilant e Mike Watt nas músicas I Wanna Be Your Dog, No Fun e TV Eye. O evento aconteceu no Shortlist Awards, em Los Angeles, cidade que parece mesmo ter adotado Pete Yorn. Antes que se esqueça: Strange Condition também apareceu em DVD nas prateleiras das lojas, e Pete Yorn apareceu no "The Tonight Show with Jay Leno" e "Late Night with David Letterman", e isso ainda em 2002.
2003 viu-se aclamado com o segundo disco de Pete. "Day I Forgot", lançado em abril, teve como primeira música de trabalho Come Back Home. O título do disco já mostra as contradições singelas na qual o cantor está imerso. Em suas próprias palavras: "É um disco de memórias. Pode parecer estranho, mas quanto mais eu tento esquecer uma coisa, mais eu lembro dela". Só você, cara pálida? Assombrando fantasmas conscientemente, o segundo disco de Pete Yorn não tem tanto brilho quanto o debut. Mesmo assim, ainda é o mesmo lirismo de sempre, em um disco mais compacto. Um dia limpo de sol brilhante, só que, em vez de observado no brilho matinal, capturado no fim da tarde, com um pouco de uma preguiçosa siesta e um pouquinho de neblina que prenuncia uma noite tranqüila.
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