O Rock & Roll na terra dos Aiatolás

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O Rock & Roll na terra dos Aiatolás

Por Fábio Amaral de Castro

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Por motivo de trabalho, tenho morado em Teerã, Irã, há dezoito meses. Como guitarrista amador e fã de um Heavy Metal, vim a ter contato com a cena underground de Teerã. Com base nesse contato, escrevi esse artigos, que publico aqui sob o título "O Rock & Roll na terra dos Aiatolás".

A música proibida

Logo depois da revolução Islâmica, em 1979, quando os Aiatolás tomaram o poder do país, foram criadas novas leis para “islamizar” os costumes, a política, etc. Uma das mudanças, por exemplo, limitava o direito das mulheres. Elas não puderam mais exercer cargos públicos (por exemplo, Shirin Ebadi perdeu o cargo de juíza e iniciou uma luta por direito das mulheres no país, ganhando o prêmio Nobel da paz em 2003). Nos tribunais, o testemunho de uma mulher vale metade do testemunho de um homem. Elas não podem viajar sozinhas, a não ser que tenham uma autorização, por escrito, do marido ou de um parente homem. Têm de se cobrir todas, e as “leis dos costumes” são mais rígidas com elas que com os homens.

Outra mudança causada pela revolução foi na música: Ela foi completamente proibida. Isso mesmo: Toda música foi proibida no país, com direito a instrumentos musicais sendo queimados na rua. Eu não acreditei quando me contaram isso, então pesquisei na internet, e, entre outras fontes confirmando isso, encontrei esse artigo do New York Times. Segue a tradução do 3º parágrafo:

“Desde que a revolução de 1.979 substituiu uma monarquia simpatizante com o ocidente por um Estado islâmico, o lugar da música na cultura iraniana tem sido precário. Quando o Aiatolá Ruhollah Khomeini subiu ao poder no mesmo ano, ele proibiu todos os tipos de música: gravações, concertos, até mesmo o porte de instrumentos. Khomeini afirmou ao Kayhan, o maior jornal conservador no Irã: “A música é como uma droga. Quem adquire o hábito já não pode dedicar-se a atividades importantes... Temos de eliminá-la completamente”. Escolas de música foram fechadas, e era considerado um pecado assinar um documento contendo a palavra música, apesar de muitas pessoas terem mantidos os seus instrumentos e continuado a tocar em privado sob um risco considerável.” – New York Times, 2003.

No final dos anos 90 essa proibição se flexibilizou, sendo permitida música iraniana e depois permitida também a música ocidental. Houve até mesmo alguns shows de rock. Hoje já existe no centro da cidade uma rua só com lojas de instrumentos musicais (violões, guitarras, teclados, pianos...), mas nesses últimos anos as músicas estrangeiras voltaram a ser proibidas em público.

O traficante de instrumentos musicais

Morando aqui em Teerã, tenho feito aula de guitarra nas horas vagas com um professor da minha idade, Farzad, cujo pai era músico profissional antes da revolução. Quando a revolução estourou e a música foi proibida, ele teve de esconder todos os instrumentos musicais em casa e trabalhar com algo menos “criminoso”.

Algum tempo depois da revolução, quando Farzad ainda era pequeno, o pai adoeceu e veio a falecer. A mãe dele, sem ter como sustentar a casa, teve de recorrer à atividade ilícita: vender os instrumentos que tinham ficado em casa. A venda foi como qualquer outro tráfico: Ela procurou receptadores, fechou os preços (muito abaixo do valor real da mercadoria) e acertou as entregas. Farzad estava com ela durante uma entrega, e me contou como foi:

"Eles tiraram os instrumentos de casa (violões, violinos, baixos, teclados...) em caixas de eletrodomésticos, para disfarçar, e colocaram tudo no porta-malas do carro. Ela dirigiu com o material ilegal no carro até a casa do receptador, com medo de ser parada pela polícia e flagrada com o produto. Chegou à casa do receptador, olhou para os lados para ver se não tinha ninguém observando, entrou com os equipamentos, recebeu o dinheiro e foi embora."

Banda Ahoora

No Irã é proibido tocar música ocidental em público. Show de Rock, nem pensar. Um concerto de um heavy metal? Impossível!

Depois de viver mais de 8 meses em Teerã, “por obra do destino” fui apresentado ao heavy metal iraniano por um amigo: conheci o pessoal da banda Ahoora, banda iraniana que toca um death metal que faria os Aiatolás baterem a cabeça na parede.

Montar uma banda de heavy metal nesse canto do mundo tem suas peculiaridades. Só para começar, eles não podem fazer shows por aqui: conseguiram fazer um show em 2005, durante um governo mais liberal, depois de muita briga pelos labirintos da burocracia até conseguirem a autorização. O show tinha sido desautorizado, foi autorizado de novo, e no final aconteceu. Mas das duas noites previstas, a segunda teve de ser cancelada.

Em 2006, eles conseguiram de novo a autorização. Mas logo antes do show os conservadores mudaram de idéia e cancelaram a autorização, e essa foi a última tentativa desde então.

A banda tem tocado só no estúdio em casa, e gravaram dois CDs que, obviamente, não foram lançados no mercado iraniano. Críticos na Europa avaliaram bem o trabalho deles. Caso queira conferir.

O plano da banda hoje é esperar o guitarrista terminar o serviço militar no final do ano, e então poder tirar o passaporte (passaporte, só depois de dois anos de serviço militar). Depois disso, todos pretendem se mudar do país, provavelmente para o Canadá.

A impressão que eu tenho é a de que “sair do país” é o sonho de quase todo liberal por aqui...

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