Deep Purple, Alice Cooper, Edgar Winter: dinossauros em Toronto

Resenha - Deep Purple, Alice Cooper, Edgar Winter (Budweiser Stage, Toronto, 02/09/2017)

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Por Rodrigo Altaf
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Em uma noite em que o frio começou a mostrar suas garras em Toronto, fui acompanhar a apresentação de três artistas que merecem como poucos a alcunha de dinossauros do rock: Edgar Winter Group, Alice Cooper e Deep Purple.

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Já na chegada, a faixa etária da plateia que esperava o show dava o tom saudosista: a média de idade era de 50 ou 60 anos. Vários semi-mullets (aquele estilo em que o cabelo é grande atrás, mas com um buraco na careca), barrigas gigantes e rugas de gente que parece ter saído das catacumbas de Woodstock pra ver o show. E filas homéricas no banheiro, já que essa galera já não controla a bexiga como antigamente.

O local do show foi o Budweiser Stage, onde há poucos meses vi o Iron Maiden (cujo review você confere abaixo). Pontualmente às 18:45, Edgar Winter entra no palco.

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Pra ser sincero, Edgar Winter foi sempre um nome que esteve fora do meu radar desde que comecei a ouvir rock e heavy metal. Ele e seu irmão, o também albino e falecido Johnny Winter, tocaram com dezenas de músicos que respeito e gosto, mas nunca me interessei em buscar detalhes da discografia deles. Mas valeu à pena ter visto esse show, que começou com seu sucesso "Free Ride", emendando com uma cover de "Jumpin' Jack Flash" dos Rolling Stones. A seguir tocaram o famoso blues "Tobacco Road", que o catapultou para o sucesso em 1972. Edgar aproveita essa música pra fazer um showcase com todos os membros de sua banda de apoio, duelando individualmente com todos eles, e encerrando com um pedacinho de "YYZ" do Rush, o que levantou a galera. Emendam com "Rock and Roll Hoochie Koo", em que Edgar lembrou do falecido irmão.

Edgar explica que foi o inventor do teclado portátil - ele teve essa ideia por não gostar de ficar parado atrás de um teclado fixo no palco. E acabou criando uma música para demonstrar esse (à época) novo instrumento, chamada "Frankenstein". Ele se aventura pelo sax, bateria e encerra o show ainda com luz do dia, para uma plateia que ainda se acomodava lentamente nos assentos.

A seguir era a hora do mestre Alice Cooper, o homem que parece mais com Emerson Fittipaldi do que o próprio Emerson Fittipaldi. Eu nunca havia acompanhado um show dele, e essa foi uma das principais razões de eu ter decidido vir nesse evento. Encontrei vários presentes maquiados como Alice, o que deu um toque mais engraçado ainda à noite.

Alice entra com a pesadíssima "Brutal Planet", e emenda com "No More Mr. Nice Guy", já encaixando um hit e jogando pra galera. Sua banda conta com três guitarristas, com um peso incrível.

Em "Billion Dollar Babies", Alice joga notas falsas pra galera, que estavam presas em uma espada. O palco conta com uma imensa caixa de mágica, de onde saem todos os apetrechos usados durante o show, que lhes eram entregues por uma roadie vestida de enfermeira. A seguir veio a única música do seu disco novo a ser tocada nessa noite, "Paranoiac Personality".

"Woman of Mass Distraction", do álbum "Dirty Diamonds", veio em seguida, emendada com um ótimo solo da guitarrista Nita Strauss. A banda toca o sucesso "Poison", que foi bastante executada no Brasil no início da MTV - quem não se lembra da famosa "melô do pois é"?

O aspecto teatral da apresentação está em praticamente todas as músicas. Em "Feed My Frankenstein" o palco se transforma em um laboratório maluco, e alguns capangas prendem Alice pra receber uma descarga elétrica. Ele se transforma em um monstro gigante que lembra um boneco de Olinda do mal. Em "Cold Ethyl", Alice dança com uma boneca de pano, e na balada "Only Women Bleed" entra uma dançarina de caixinhas de música que lembra a personagem Arlequina, do filme Esquadrão Suicida.

"I love the dead" vem com a famosa cena da decapitação do Alice, que "ressuscita" em "I'm Eighteen" e fecha o show com o sucesso "School's Out". Irônico, considerando que as aulas voltam aqui no Canadá nessa terça-feira, depois do break de verão. Aliás, acho que isso pouco importa para os presentes, que já saíram da escola há décadas.

Em seguida o palco começava a ser montado para o show do Deep Purple, e no telão se via uma geleira com a cara de todos os integrantes. A tour atual recebeu o nome de "The Long Goodbye Tour", e promete ser a última deles, embora já tivemos vários exemplos de bandas que anunciaram tours de despedida e depois desistiram de pendurar as chuteiras - Kiss, Scorpions, Aerosmith etc.

Após a belíssima introdução com o tema "Mars, the Bringer of War", de Gustav Holst, começam os trabalhos com uma trinca matadora: "Highway Star", "Fireball" e "Strange Kind of Woman". Como nas outras vezes em que os vi, Gillan começa um pouco hesitante, e vai se aquecendo aos poucos.

A incrível "Uncommon Man" veio na sequência, sendo uma homenagem ao tecladista Jon Lord, falecido em 2012. Ao lado de "Time for Bedlam", do disco mais recente, essa foi a única música tocada na noite composta por essa formação. Gosto bastante dos álbuns feitos pelo Purple recentemente, e acho uma pena focarem o show praticamente todo nos grandes sucessos. Para um fã como eu, que já vi diversos shows, seria interessante vê-los tocando um material um pouco diferente, mas até entendo a opção pelos clássicos. São eles que garantiram o lugar do Purple no panteão dos gigantes do rock. Então vamos lá: "Lazy", "Knocking At Your Back Door", "Pictures of Home"...todos sucessos incontestáveis, e é um privilégio ver um monstro como Ian Paice ainda detonando nas baquetas. Ele é o verdadeiro significado de lenda viva, e merecia o mesmo destaque de John Bonham em qualquer eleição dos melhores bateristas do planeta. Sua interação com o baixista Roger Glover beira a telepatia.

"Perfect Strangers" foi executada com a habitual competência, sendo a música mais "metal" do Purple. Steve Morse, que sofre com artrite, tocou com uma imobilização no pulso, mas sua performance não deixou nada a desejar. E o solo de Don Airey ao final fez justiça ao falecido Jon Lord.

Fiquei esperando "The Surprising", do disco novo, mas essa música foi retirada do setlist nos shows mais recentes...uma pena. Tocaram em seguida "Hush" e fecharam com o clássico mor, "Smoke on the Water". Quem puder assisti-los ao vivo, não deixem pra depois, já que a cada ano a aposentadoria desses gigantes fica mais próxima.

Setlists:

Edgar Winter Band:
Free Ride
Jumpin' Jack Flash
Tobacco Road
Rock and Roll Hoochie Koo
Frankenstein

Alice Cooper
Brutal Planet
No More Mr. Nice Guy
Under My Wheels
Billion Dollar Babies
Paranoiac Personality
Woman of Mass Distraction
Poison
Halo of Flies
Feed My Frankenstein
Cold Ethyl
Only Women Bleed
Killer
I Love the Dead
I'm Eighteen
School's Out

Deep Purple
Highway Star
Fireball
Strange Kind of Woman
Uncommon Man
Lazy
Knocking at Your Back Door
Pictures of Home
Perfect Strangers
Space Truckin'
Time for Bedlam
Hush
Smoke on the Water




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Sobre Rodrigo Altaf

Mineiro nascido em 1974, esse engenheiro civil que vive e trabalha no Canadá começou a ouvir heavy metal aos dez anos, após acompanhar o Rock in Rio I pela televisão. Após vários anos sem colaborar pro Whiplash.Net, está em busca de todos os shows possíveis em Toronto. Entre suas influências estão Iron Maiden, Van Halen, Rush, AC/DC e Dream Theater.

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