Misfits: No Rio, não foi apenas um show, foi um espetáculo
Resenha - Misfits (Circo Voador, Rio de Janeiro, 20/04/2014)
Por Rene Michel Vettori
Postado em 24 de abril de 2014
A entrada não foi triunfante. Jerry estava ali, no lado do palco, já caracterizado, aguardando os roadies e brincando com os fãs da frente, bastante descontraído. Em seguida, pegou seu baixo e, junto com o efeito de luz e fumaça, fazia sons de trovoada, anunciando a abertura do show com a recente canção "The Devil's Rain". A analisar pelas primeiras músicas, parecia que a apresentação seria como um trem desgovernado que derruba tudo o que vê pela frente. Uma música concluia, rapidamente a próxima era anunciada. Logo no início, a platéia foi ao delírio quando Only pediu que o público gritasse para ele (quase um "Scream for me, Brazil"), lançando os primeiros acordes de "Scream" e emendando com "If you're gonna scream, scream with me", partindo para "Hybrid Moments".
Até cerca de metade do show, dava impressão que seria muito parecido com aquele de anos atrás no mesmo Circo Voador. Mas um fato diferente se anunciava. Alguns fãs trocavam olhares e alternavam sua atenção entre o MISFITS no palco e um menino de cerca de 11 anos que, assistindo do alto dos ombros de seu responsável, cantava com extrema empolgação "20 eyes". Um outro fã, este bem mais velho do que o garoto, posicionado quase que de cara para Jerry, levantava um papel fino e já rasgado com os seguintes dizeres "Return of the Fly", a cada intervalo entre as canções. Em certo momento, Only apontou para o rapaz e piscou. Imaginei que estivesse no setlist. Mas não. Começava ali uma noite inesquecível, tanto para o MISFITS quanto para cada um presente naquela multidão.
Após a insistência heróica daquele integrante do Fiend Club, Jerry parou e ordenou "me dá essa folha, aqui". Ele, então, mostra para o público e pergunta se queríamos ouvi-la. Todos berram positivamente. Jerry avisa "não toco essa música há cerca de 30 anos". Rasga o papel, amassa e o joga de volta para os fãs. Então, inicia "Return of the Fly", que teve seus versos cantados por todos. Pouco tempo depois, ao ver, novamente, aquela criança (nem adolescente ele é), Jerry Only para e pede "me traga essa criança aqui! Traga ele até mim". Todos vão passando o menino até colocá-lo sentado no palco. Jerry o levanta pelo braço. Eles conversam alguma coisa. Então, Jerry abaixa o pedestal do microfone até a altura do garoto e pergunta "você sabe cantar essa?". O garoto, timidamente, acena com a cabeça. A banda começa a tocar "Skulls". Naquele momento pensei "será que o jovem vai saber essa?!". E para delírio de todos, Jerry e o menino dividiram o microfone, cantando juntos a música. Após a execução, Only levanta a mão do fã mais novo entre todos no evento. O guitarrista cumprimenta-o e dá sua palheta de presente. Jerry fala "é por causa disso que fazemos isso aqui todos os dias!".
Continuando nesse clima descontraído, em "Monkey's Paw" Jerry Only paquerava umas meninas à frente do palco, dizendo ser esta a canção mais próxima de algo romântico que ele já escreveu. Com piscadas, gestos que simulavam o coração batendo e estendendo sua mão para as garotas, Jerry galanteava divertidamente aquelas mulheres. O show continuou e muitos clássicos (quase todas são, não?) foram tocados, mesclando os da época de Danzig e Michael. E concluiu com Jerry dizendo que o dia seguinte seria seu aniversário e que foi ótimo ter passado a páscoa conosco. E avisou que nos encontraremos em breve. Fez o sinal da cruz e a banda se retirou do palco.
Não foi apenas um show. Foi um espetáculo. Felizmente, temos tecnologia para documentar os acontecimentos desse dia; assim, não se perderão oralmente. Ficarão para quem quiser ver; para todos que não puderam estar lá. Permanecerão não apenas na memória daquele pequeno fã, mas ficarão na História, sem risco de ser esquecido. E que, em breve, o MISFITS retorne, de fato, para mais uma noite dessas.
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