Paul Di'Anno: Se alimentando da sombra do Maiden e do fanatismo
Resenha - Paul Di'Anno (Freegells Music, Belo Horizonte, 22/11/2007)
Por Maurício Gomes Angelo
Postado em 28 de novembro de 2007
A questão básica do que veríamos em Belo Horizonte era simples: estaríamos diante de um artista decadente, vivendo das glórias que conquistou no passado, quase 30 anos atrás, ou de um vocalista em forma, ainda capaz de levantar o público por pura competência e com boas composições no currículo?
Fotos: Thiago Sarkis
A resposta é dura porém necessária: seja por problemas pessoais, má administração da carreira, perda de interesse natural da mídia, incompetência, azar, ou tudo isto junto e um pouco mais, Di’Anno se alimenta da sombra do Iron Maiden e do fanatismo de seus fãs, sendo um arremedo do que já foi um dia.
Lançando álbuns que passaram totalmente em branco durante as décadas de 80 e 90, com as bandas Battlezone e Killers, ainda que com destaques como "Feel My Pain", de 1998, obra de um heavy metal honestíssimo, mais do que tradicional e recheado de riffs e solos de embasbacar os puristas, Paul nunca conseguiu se reerguer. Contudo, é até difícil condená-lo.
Ser estigmatizado como "ex-vocalista" de uma banda é complicado, ainda mais quando esse grupo chama-se Iron Maiden e se tornou a maior banda de heavy metal de todos os tempos após a sua saída dela. Fardo pesado demais, convenhamos.
O ponto não é se ele tem boas composições solo, porque, como já dito, de fato tem. Mas, dadas as circunstâncias, nenhuma delas seriam capazes de fazer Di’Anno se afirmar como um artista independente, livre do seu passado, de luz própria. A única forma de ser um "ex-integrante" bem-sucedido após a sua saída de um grupo de sucesso é se esta pessoa for um artista de talento indiscutível, fundamental e preponderante nas composições e no caminho trilhado por sua ex-banda até o estrelato, somada a uma administração profissional e diferenciada da carreira, como, por exemplo, Sting e Peter Gabriel na música "pop" e Ozzy Osbourne no heavy metal. Não é o caso de Paul, grande parte um coadjuvante dentro do início do Maiden, especialmente em "Killers", onde não compôs quase nada.
Independente disto, é claro que o show estava ganho desde o seu anúncio. Os fãs ali presentes – e tome "fãs" na pior acepção da palavra – não queriam saber se Di’Anno está acabado, regurgitando, mal e porcamente, clássicos de 30 anos atrás, assessorado por uma banda péssima e num estado deplorável perto do que um dia foi.
Vale mais o mito, a lenda, a história, ter visto "o primeiro vocal do Iron" ao vivo. Os instrumentistas, aliás, compostos por um projeto de Uberlândia, "Diamond Dogs", sendo Nanji e Marlon Morlan nas guitarras, Raone Franco no baixo e Dado Romanholi na bateria, se não vexatórios, estavam longe de um nível aceitável. Erros de tempo e de execução estouravam a todo momento. Bem, era festa, metal de veia punk, "do it yourself". Por que não deixar que alguém do público subisse pra tocar junto também? Vale tudo.
Particularmente, sou um grande admirador dos dois primeiros álbuns do Maiden. Aquela sonoridade crua, forte e seca, associada a riffs e melodias acima da média e refrães memoráveis, sem dúvida constituem vários pontos altos da carreira da Donzela até hoje. Assim, mesmo com todos os problemas, não dá para ficar imune quando "Wratchild", "Prowler", "Murders In The Rue Morgue", "Remember Tomorrow" (oferecida em homenagem a Clive Burr), "Killers", "Phantom Of The Opera" e "Running Free", dentre outras, saem dos PA’s. Tais músicas estão impregnadas no DNA de cada um presente ali, fazem parte de sua adolescência, sua história, de seu batismo primordial no heavy metal. Como não vibrar?
O vocal de Di’Anno falha, falta alcance, a guitarra engasga, o baixista se atrapalha, os solos mascam, a bateria é meio tosca, ainda assim, o público enlouquece, grita, se esmurra, leva na raça, na paixão, o que vale é celebrar aquele momento.
Entre as músicas próprias, poucos se entusiasmam, limitam-se a dar um suporte tímido a Paul, como se dissessem "vamos lá, estamos contigo, respeitamos sua tentativa.... mas, qual será o próximo clássico?". Não dá para culpá-los. E o que Di’Anno não tem mais em potência e performance, compensa no carisma. Agradece a todo tempo, interage com a platéia, faz comentários, declara seu amor ao Brasil, faz troça ("esta música é dedicada à minha ex-esposa, aquela puta... ou, la putana, em italiano"), expressa suas visões políticas acerca do governo Bush, se entrega. Paul, mesmo com todas suas limitações e os reflexos do abuso ao longo do tempo, é um frontman tremendamente simpático e energético.
Já se foi dito inúmeras vezes que uma das principais virtudes de um artista é saber a hora de parar. Infelizmente, muitos não tem essa capacidade. Di’Anno, por enquanto, ainda consegue fazer uma noite memorável e não podemos condená-lo por ganhar a vida cantando clássicos que ajudou a construir. É a sua profissão, o que faz para viver. Ele tem que pagar suas contas, afinal, como todos nós. Contudo, já não dá para ir longe. É doloroso assistir a deterioração de quem admiramos.
O sentimento que fica é de gratidão por seu esforço, e respeito, sim, além de uma inegável compaixão (sinal de alerta), mas, também, o desejo que reconheça a hora de se retirar. Boa sorte a ele.




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