Paul Di'Anno: Se alimentando da sombra do Maiden e do fanatismo

Resenha - Paul Di'Anno (Freegells Music, Belo Horizonte, 22/11/2007)

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net

Por Maurício Gomes Angelo
Enviar correções  |  Ver Acessos

publicidade

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.





A questão básica do que veríamos em Belo Horizonte era simples: estaríamos diante de um artista decadente, vivendo das glórias que conquistou no passado, quase 30 anos atrás, ou de um vocalista em forma, ainda capaz de levantar o público por pura competência e com boas composições no currículo?

Fotos: Thiago Sarkis

A resposta é dura porém necessária: seja por problemas pessoais, má administração da carreira, perda de interesse natural da mídia, incompetência, azar, ou tudo isto junto e um pouco mais, Di'Anno se alimenta da sombra do Iron Maiden e do fanatismo de seus fãs, sendo um arremedo do que já foi um dia.

Lançando álbuns que passaram totalmente em branco durante as décadas de 80 e 90, com as bandas Battlezone e Killers, ainda que com destaques como "Feel My Pain", de 1998, obra de um heavy metal honestíssimo, mais do que tradicional e recheado de riffs e solos de embasbacar os puristas, Paul nunca conseguiu se reerguer. Contudo, é até difícil condená-lo.

Ser estigmatizado como "ex-vocalista" de uma banda é complicado, ainda mais quando esse grupo chama-se Iron Maiden e se tornou a maior banda de heavy metal de todos os tempos após a sua saída dela. Fardo pesado demais, convenhamos.

O ponto não é se ele tem boas composições solo, porque, como já dito, de fato tem. Mas, dadas as circunstâncias, nenhuma delas seriam capazes de fazer Di'Anno se afirmar como um artista independente, livre do seu passado, de luz própria. A única forma de ser um "ex-integrante" bem-sucedido após a sua saída de um grupo de sucesso é se esta pessoa for um artista de talento indiscutível, fundamental e preponderante nas composições e no caminho trilhado por sua ex-banda até o estrelato, somada a uma administração profissional e diferenciada da carreira, como, por exemplo, Sting e Peter Gabriel na música "pop" e Ozzy Osbourne no heavy metal. Não é o caso de Paul, grande parte um coadjuvante dentro do início do Maiden, especialmente em "Killers", onde não compôs quase nada.

Independente disto, é claro que o show estava ganho desde o seu anúncio. Os fãs ali presentes - e tome "fãs" na pior acepção da palavra - não queriam saber se Di'Anno está acabado, regurgitando, mal e porcamente, clássicos de 30 anos atrás, assessorado por uma banda péssima e num estado deplorável perto do que um dia foi.

Vale mais o mito, a lenda, a história, ter visto "o primeiro vocal do Iron" ao vivo. Os instrumentistas, aliás, compostos por um projeto de Uberlândia, "Diamond Dogs", sendo Nanji e Marlon Morlan nas guitarras, Raone Franco no baixo e Dado Romanholi na bateria, se não vexatórios, estavam longe de um nível aceitável. Erros de tempo e de execução estouravam a todo momento. Bem, era festa, metal de veia punk, "do it yourself". Por que não deixar que alguém do público subisse pra tocar junto também? Vale tudo.

Particularmente, sou um grande admirador dos dois primeiros álbuns do Maiden. Aquela sonoridade crua, forte e seca, associada a riffs e melodias acima da média e refrães memoráveis, sem dúvida constituem vários pontos altos da carreira da Donzela até hoje. Assim, mesmo com todos os problemas, não dá para ficar imune quando "Wratchild", "Prowler", "Murders In The Rue Morgue", "Remember Tomorrow" (oferecida em homenagem a Clive Burr), "Killers", "Phantom Of The Opera" e "Running Free", dentre outras, saem dos PA's. Tais músicas estão impregnadas no DNA de cada um presente ali, fazem parte de sua adolescência, sua história, de seu batismo primordial no heavy metal. Como não vibrar?

O vocal de Di'Anno falha, falta alcance, a guitarra engasga, o baixista se atrapalha, os solos mascam, a bateria é meio tosca, ainda assim, o público enlouquece, grita, se esmurra, leva na raça, na paixão, o que vale é celebrar aquele momento.

Entre as músicas próprias, poucos se entusiasmam, limitam-se a dar um suporte tímido a Paul, como se dissessem "vamos lá, estamos contigo, respeitamos sua tentativa.... mas, qual será o próximo clássico?". Não dá para culpá-los. E o que Di'Anno não tem mais em potência e performance, compensa no carisma. Agradece a todo tempo, interage com a platéia, faz comentários, declara seu amor ao Brasil, faz troça ("esta música é dedicada à minha ex-esposa, aquela puta... ou, la putana, em italiano"), expressa suas visões políticas acerca do governo Bush, se entrega. Paul, mesmo com todas suas limitações e os reflexos do abuso ao longo do tempo, é um frontman tremendamente simpático e energético.

Já se foi dito inúmeras vezes que uma das principais virtudes de um artista é saber a hora de parar. Infelizmente, muitos não tem essa capacidade. Di'Anno, por enquanto, ainda consegue fazer uma noite memorável e não podemos condená-lo por ganhar a vida cantando clássicos que ajudou a construir. É a sua profissão, o que faz para viver. Ele tem que pagar suas contas, afinal, como todos nós. Contudo, já não dá para ir longe. É doloroso assistir a deterioração de quem admiramos.

O sentimento que fica é de gratidão por seu esforço, e respeito, sim, além de uma inegável compaixão (sinal de alerta), mas, também, o desejo que reconheça a hora de se retirar. Boa sorte a ele.



GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net


Todas as matérias da seção Resenhas de ShowsTodas as matérias sobre "Paul D'ianno"Todas as matérias sobre "Iron Maiden"


Iron Maiden: Dickinson relata em show que seguranças agrediram fã na plateia; vídeoIron Maiden
Dickinson relata em show que seguranças agrediram fã na plateia; vídeo

Iron Maiden: banda fecha parceria com cervejaria curitibana BodebrownIron Maiden
Banda fecha parceria com cervejaria curitibana Bodebrown

Rock in Rio 2019: Iron Maiden prefere tocar mais cedo, diz guitarrista do ScorpionsRock in Rio 2019
Iron Maiden prefere tocar mais cedo, diz guitarrista do Scorpions

Rock in Rio: festival explica por que o Iron Maiden toca antes do ScorpionsRock in Rio
Festival explica por que o Iron Maiden toca antes do Scorpions

Rock in Rio 2019: Iron Maiden abrirá para o Scorpions; veja horários de todos os showsRock in Rio 2019
Iron Maiden abrirá para o Scorpions; veja horários de todos os shows

Em 03/09/1984: Iron Maiden lançava Powerslave, o seu maior clássicoEm 03/09/1984
Iron Maiden lançava Powerslave, o seu maior clássico

Collectors Room: o nascimento de um novo Iron Maiden em Brave New World (vídeo)

Iron Maiden: Blaze Bayley diz que sua fase foi o embrião da era progressiva na bandaIron Maiden
Blaze Bayley diz que sua fase foi o embrião da "era progressiva" na banda

Iron Maiden: em 1988, um ótimo disco para marcar o fim de uma eraCollectors Room: tudo sobre Fear of the Dark, do Iron Maiden (vídeo)

Iron Maiden: ligada a game, turnê que passará pelo Brasil tem a maior produção da bandaIron Maiden
Ligada a game, turnê que passará pelo Brasil tem a maior produção da banda

7º Filho do Sétimo Filho: o lado oculto do Iron Maiden7º Filho do Sétimo Filho
O lado oculto do Iron Maiden

Iron Maiden: Janick Gers explica por que os shows da banda são tão elogiadosIron Maiden
Janick Gers explica por que os shows da banda são tão elogiados

Collectors Room: uma análise de Virtual XI, do Iron Maiden (vídeo)Collectors Room: uma análise de The X Factor, do Iron Maiden (vídeo)

VH1: 100 melhores músicas de hard rock de todos os temposVH1
100 melhores músicas de hard rock de todos os tempos

Iron Maiden: Bruce reclama de fã que não largava o smartphone durante o showIron Maiden
Bruce reclama de fã que não largava o smartphone durante o show

Rachel Sheherazade: ela aprendeu história ouvindo Iron MaidenRachel Sheherazade
Ela aprendeu história ouvindo Iron Maiden


Slash: Alucinações, sexo, dinheiro e armas de fogo no auge do vícioSlash
Alucinações, sexo, dinheiro e armas de fogo no auge do vício

Iron Maiden: O que a equipe consome quando vai a um pub?Iron Maiden
O que a equipe consome quando vai a um pub?

Heavy Metal: os dez melhores álbuns lançados em 1984Heavy Metal
Os dez melhores álbuns lançados em 1984

Heavy Metal: os dez melhores álbuns lançados em 1991Rock In Rio I: Pra quem tem menos de quarenta anos fica difícil imaginarDimebag Darrel: Um raro vídeo de solo aos 18 anosPantera: os dez álbuns que mudaram a vida de Rex Brown

Sobre Maurício Gomes Angelo

Jornalista. Escreve sobre cultura pop (e não pop), política, economia, literatura e artigos em várias áreas desde 2003. Fundador da Revista Movin' Up (www.revistamovinup.com) e da revrbr (www.revrbr.com), agência de comunicação digital. Começou a escrever para o Whiplash! em 2004 e passou também pela revista Roadie Crew.

Mais matérias de Maurício Gomes Angelo no Whiplash.Net.