Resenha - Agnostic Front e Hatebreed (Circo Voador, Rio de Janeiro, 29/07/2005)

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Por Nelson Endebo
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Foi com grande alegria que a trupe tupiniquim do hardcore recebeu a notícia de que a saudada "Voice Of Brutality Tour" passaria pelo país. Considerado um dos conjuntos responsáveis pela revitalização do “verdadeiro” HC, então adormecido na maré poppy punk surgida com o advento do Green Day e a fase major do Bad Religion, o Hatebreed, banda de New Haven, Connecticut, vem navegando em um crescendo espetacular que culminou com a indicação ao Grammy de melhor performance para um grupo de metal. Metal?

Fotos: Leonardo Dorfman e Yael

A aproximação do Hatebreed com os headbangers é notável: Jamey Jasta, o vocalista, é apresentador do celebrado programa Headbanger’s Ball, da MTV americana e o próprio som de sua banda admite fortes influências de gente como Slayer e Exodus. A moral anda em alta e o álbum Rise Of Brutality, de 2003, já é considerado por muita gente - um tanto irresponsável, diga-se - um clássico do hardcore.

Aqui no Brasil, no entanto, as expectativas praticamente se concentraram na bandinha de abertura da turnê, uma bandaça de Nova York chamada Agnostic Front. A trupe de Roger Miret e Vinnie Stigma já ralava os ânimos na estrada quando o próprio Hatebreed ainda sujava as fraldas e é a responsável mais ilustre por aquilo que, desde o buraco temporal mais remoto dos anos 80, se convencionou chamar New York Hardcore, uma cara tão particular e dura do estilo que se conserva, até hoje, simplesmente inimitável.

E foi assim, na configuração “criador abre para a criatura”, que a Voice Of Brutality Tour passou por terras pátrias. O giro teve início no dia 21 de julho, com uma tarde de autógrafos na FNAC de Pinheiros, na cidade de São Paulo. A seguir, foi a vez de Belo Horizonte experimentar a violência da dobradinha; infelizmente, problemas com os vistos de membros do Hatebreed impossibilitaram sua apresentação e, ao que consta, o Agnostic Front deu conta do recado na capital mineira. A turnê continuou firme com apresentações em São Paulo, Curitiba e São José dos Campos/SP, desembocando em mais uma sessão de autógrafos em uma loja no Rio de Janeiro, onde tocariam no dia seguinte, 29 de julho, finalizando, assim, a visita ao Brasil.

Em um raríssimo movimento inteligente de artistas em conjunto com organizadores de espetáculos, foram escaladas duas excelentes bandas de abertura. Sendo assim, o Circo Voador, lendária lona cultural da cidade, foi palco de uma celebração justa e necessária: enquanto os cariocas do Ataque Periférico destilaram um venenoso hardcore com um pé no crust e o outro no grind, tocando, inclusive, sem baixista – noite hardcore, rapaz! -, os argentinos do Outra Salida, que fizeram toda a turnê brasileira, puderam presentear o público com seu híbrido de Madball e Fear Factory, com direito a guitarra de sete cordas e um rechonchudo vocalista ensandecido.

Os roadies da turnê foram um exemplo de eficiência e não deixaram o calor cessar entre as apresentações – e o Agnostic Front entrou detonando tudo, com a incendiária presença de palco do lendário Roger Miret. De microfone empunhado, faz sua oratória com maestria. Política externa e interna, desunião no movimento, o que é ser punk, tatuagem, skate e violência – tudo o que compõe o universo do hardcore foi revisitado durante a apresentação curta do quinteto nova-iorquino. O set list privilegiou o novo disco, Another Voice (duplamente resenhado no Whiplash – confira a seção de reviews!), da qual foram tocadas “Pride, Faith, Respect”, “All Is Not Forgotten”, “Dedication”, o novo hino “Hardcore! (The Definition)” e “Peace”, com uma saudada participação de Jamey Jasta, do Hatebreed, nos vocais. O ponto alto da apresentação aconteceu no clássico “Gotta Go”, quando Roger convocou todas as chicas da platéia a subirem no palco e engrossar o coro. Delírio. A marmanjada aproveitou o mosh para o velho truque da mão boba, que de boba nada tem. Celebração. Deixam o palco com o público em polvorosa e preparado para a calamidade que se seguiria.

O que se pode dizer do Hatebreed ao vivo é exatamente o contrário da análise que se faria de um disco da banda; seus álbuns são arremedo puro de gente de calibre dentro do universo HC, com uma pitada de thrash metal e uma gravação extremamente polida. Ao vivo não. O sangue sobe e o quarteto bota fogo. São uma banda cheia de conhecimento de causa em cima de um palco – e isso ficou claro quando os primeiros acordes de “Raining Blood”, do Slayer, deram a deixa para cerca de uma hora e meia de pura violência sonora. Tocaram composições como “Tear It Down”, “Proven”, “Perseverance”, “This Is Now”, “You’re Never Alone”, a sensacional “Another Day, Another Vendetta”, “Straight To Your Face” e “Live For This”, que concorreu ao Grammy. No meio do furacão, o excelente guitarrista Sean Martin puxa o riff de “Into The Void”, do Black Sabbath, mostrando que talvez as raízes de ambos os lados, metal e hardcore, sejam as mesmas.

O Agnostic Front deveria ter sido a atração principal. Não foi. Se hoje o hardcore é vítima e ator de jogo de mídia – e isso não necessariamente é o mesmo que dizer que o Hatebreed é uma banda vendida -, paciência. A lógica desses tempos é mesmo ilógica. Certamente, cada um dos presentes nos shows dessa turnê sabem disso. Se não vale mais como protesto real, por certo perfaz diversão de alto gabarito. Que o circo volte ao Circo num futuro próximo.

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Sobre Nelson Endebo

Estudante de Comunicação Social na Puc-Rio, cheirou dúzias de carreiras de Música e hoje é completamente debilitado por causa disso. Tem um corte no córtex por causa do Mr. Bungle, mas acredita que isso seja legal. Doutrinado no bom e velho Metal (ainda chora ouvindo o grande Venom), aprendeu a ouvir Jazz e Samba na marra. É responsável pela coluna Nós do Noise e colabora com o site Bacana e a revista Valhalla. Sua máxima é: "quanto mais você sabe, mais você sabe que pouco sabe". Traduzindo, gosta de aprender e de ensinar. Espera poder somar algo à família Whiplash a partir de 3, 2, 1 segundo!

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