Sepultura: Quem diria que é uma banda com 21 anos de idade?
Resenha - Sepultura (Olympia, São Paulo, 03/04/2005)
Por Bruno Sanchez
Postado em 03 de abril de 2005
Fotos: Charley Gima e Carolina Oliveira
Quem diria que o Sepultura já é uma banda com seus 21 anos de idade? Para quem acompanhou o crescimento da cena Metal nacional a partir da metade dos anos 80, fica difícil imaginar que lá se vão duas décadas de história e os cabelos brancos começaram a aparecer naquela geração.
Comentar a importância do Sepultura é chover no molhado, portanto vamos pular esta introdução direto para as comemorações da banda, que começaram já no ano passado com o lançamento do festival Sepulfest, um grande sucesso que deve se repetir anualmente e tem tudo para virar a versão brazuca do Ozzfest. Continuando com a festa, a banda planeja o lançamento de seu primeiro DVD ao vivo "legítimo". Legítimo porque na verdade o Sepultura já tem um DVD no mercado, o Chaos DVD que nada mais é do que uma compilação das antigas fitas de vídeo lançadas nos anos 90.
Na verdade, teremos o lançamento de dois DVDs: o primeiro com o registro ao vivo de um show especial da banda em São Paulo e o segundo, com as gravações feitas pelo vocalista Derrick Green desde que entrou na banda em 1997 até os dias de hoje. É um grande diário de bordo com detalhes das turnês, gravações de álbuns e relacionamento com os fãs.
O show para a gravação da primeira parte ocorreu no domingo, 03 de Abril, no Olympia, uma casa bem famosa e uma das mais antigas aqui de São Paulo, localizada na zona oeste da cidade e com fácil acesso. O local é bom, porém seu espaço não foi tão bem projetado como o Via Funchal e o palco é razoavelmente pequeno se comparado às demais casas da capital paulistana.
A apresentação da banda, no entanto, prometia bastante com um setlist diferente dos últimos apresentados (pelo menos era isso que se imaginava) e a participação de alguns convidados muito especiais como o antigo guitarrista Jairo Guedz (presente nos dois primeiros álbuns e atualmente no Eminence), João Gordo e o pessoal do Massacration. Antes do show rolou um boato até da participação de Max Cavalera, fato que, obviamente, não se confirmou pois os problemas que causaram a saída do vocalista / guitarrista há 8 anos deixaram cicatrizes bem profundas até hoje.
O Olympia lotou como há muito não se via, tanto na pista quanto nos camarotes, aliás, era interessante perceber a presença de alguns artistas da geração MTV (a Pitty e um cara do CPM 22, por exemplo) para prestigiar o evento, alguns músicos que nada tem a ver com o Metal e devem ficar com a sensação de peixe fora d´água em meio a molecada mais fanática e os bangers da velha guarda. Muitos fãs mineiros também compareceram ao show.
Pontualmente às 20:00 hs, exatamente como anunciado, as luzes se apagaram e antes de qualquer introdução, o grande Toninho – presidente do fã-clube oficial do Sepultura – subiu ao palco para explicar como rolariam as gravações. Entre os detalhes, a introdução rolaria duas vezes e algumas músicas seriam tocadas novamente pela banda após o término do show para um segundo take.
Toninho saiu do palco e, agora sim, as luzes iluminaram o palco, por sinal em um fundo simples mas muito bonito, com o símbolo da banda (o "S" estilizado) em vermelho e a bateria de Igor com o pentagrama invertido nos dois bumbos e o Seu Madruga no meio.
Exatamente como ocorreu no Sepulfest, o cineasta cult Zé do Caixão sobe ao palco com suas "caixãozetes" e joga suas pragas nos presentes antes de anunciar a maior banda do Brasil. A introdução começa a sair dos PAs e, meu amigo, que introdução!
Os fãs mais atentos perceberam que a banda utilizou trechos de cada álbum desde o clássico Bestial Devastation com sua The Curse até os sons tribais do Roots. Uma das melhores introduções de shows que já ouvi na minha vida e perfeita para um show em comemoração aos 20 anos de estrada.
A banda subiu ao palco e o show começou com a nova Apes of God e os clássicos Slave New World, Propaganda e Attitude, todas tocadas de maneira impecável, mas nenhuma novidade em relação ao que o Sepultura apresentou nos últimos shows.
Entre algumas músicas, a banda fazia um pequeno intervalo para a troca de equipamentos e revisão do som no palco. Durante estas paradas, muitas vezes Andreas tocava alguns riffs de músicas do Black Sabbath para a empolgação do pessoal não cair.
A primeira música que Derrick gravou com a banda, Choke, deu as caras e somente depois é que o vocalista trocou as primeiras palavras com o público na noite anunciando o clássico Inner Self em uma seqüência matadora com Beneath The Remains e Escape To The Void, seguida de Mindwar, mais uma das novas faixas que ganhou bastante destaque com o público e deve marcar presença nos próximos shows.
Andreas vai ao microfone e anuncia o primeiro convidado da noite, o primeiro guitarrista do Sepultura – Jairo "Tormentor" Guedz em sua versão careca – para tocar alguns clássicos das antigas. A banda começa Troops Of Doom, tocada de maneira magistral e deixando saudades das duas guitarras na banda. Querendo ou não, o som das músicas, especialmente as antigas, fica muito mais rico com dois guitarristas.
Mais um convidado – Alex Camargo do Krisiun – para dividir os vocais com Derrick na primeira música do Sepultura, o clássico Necromancer do Bestial Devastation, sumido há algum tempo dos shows. Mais uma vez, a versão ficou matadora e o vocal de Alex combinou perfeitamente com o clima dos primórdios do Death Metal, uma pena que eles não tocaram a própria Bestial Devastation.
Jairo e Alex se despedem e mais uma seqüência destruidora com Sepulnation – na minha opinião a melhor música da fase Derrick e tocada em uma versão ainda mais rápida e feroz - Refuse Resist e Territory, os dois últimos, clássicos obrigatórios do Chaos A.D.
Na seqüência, tivemos o cover Bullet The Blue Sky, com uma ótima recepção dos bangers e Andreas chamou mais um convidado, João Gordo, para cantar duas músicas com a banda – Reza e a ótima Biotech Is Godzilla, também sem novidades para quem assistiu ao Sepulfest. A versão de Gordo para Biotech é ainda mais brutal do que a versão original com Max.
Agora chegamos ao momento insosso da apresentação. Andreas avisa que eles tocarão uma homenagem ao rapper Sabotage, assassinado há 2 anos, e chama ao palco o DJ Zé Gonzáles e o rapper B. Negão para mandar o cover de Black Steel in The Hour of Chaos do Public Enemy. Não tenho nada contra o Rap e o Hip Hop, mas simplesmente não curto o estilo, é um gosto pessoal, e parece que meu sentimento era bem comum entre os presentes. Um cidadão do meu lado resumiu bem: "bom, agora é hora de ir ao banheiro". Quem ficou na pista, preferiu dar um tempo de braços cruzados esperando a música acabar no momento mais silencioso do show.
A animação voltou com uma versão fantástica de Arise, a nova Comeback Alive (ótima composição) e a apresentação normal encerrou com a manjada Roots Bloody Roots com muita energia e participação de todos.
A banda ainda voltou ao palco, como Toninho avisou no começo, e mandou novamente algumas músicas que não ficaram tão legais na primeira versão por um ou outro motivo: Choke, Bullet The Blue Sky, Black Steel (seguindo a lei de Murphy e reprisando o momento sonolento) e Roots Bloody Roots. Nesta última rolou uma das cenas mais absurdas que já vi em um show de Metal: como Andreas anunciou que eles tocariam novamente essa música, o público formou uma roda absurda, gigantesca, só quem estava no camarote conseguia ver o tamanho do negócio, e quando a música começou o que se viu foi um verdadeiro caos na maior rodinha de porrada que já vi na minha vida, batendo o recorde anterior do show do Slayer no Monsters of Rock de 1998. Se essa segunda versão foi bem gravada, a banda não precisa nem se preocupar com qual take escolher para o DVD. Um momento histórico.
No geral tivemos um show bom e energético, a banda estava afiadíssima, o som era ótimo (quando não era, eles repetiram a música no final), a iluminação estava perfeita, mas faltaram algumas surpresas maiores: o set foi praticamente o mesmo do Sepulfest, faltou comunicação com o público (tirando Andreas, que sempre fazia questão de agradecer a colaboração de todos) e alguma coisa a mais para comemorar os 20 anos e o primeiro registro ao vivo oficial em DVD. Se analisarmos friamente, é lógico que o setlist não agradou a todos, mas é um bom apanhado da carreira do Sepultura e eles deram muito mais ênfase nos clássicos do que no material novo. Para quem assistiu aos últimos shows, essa apresentação não trouxe grandes novidades mas valeu principalmente pelo show do público (sempre empolgante) e pela energia de palco da banda, além da histórica participação de Jairo e Alex no clássico Necromancer. Ah sim, e antes que eu me esqueça, o Massacration não subiu ao palco como anunciado no programa Total Massacration da MTV na última terça-feira (29/03), mas os humoristas (parte deles) estavam no camarote também.
O DVD do show mais o documentário de Derrick devem chegar às lojas em Julho.
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