Uma geração perdida, e com medo do escuro

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+

Por Ricardo Seelig
Enviar correções  |  Comentários  | 

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

O período que envolve o lançamento de um novo álbum do Iron Maiden, seja antes, durante ou depois de o disco chegar às lojas, deixa os fãs da banda, tradicionalmente propícios à discussões infindáveis sobre a Donzela, ainda mais ouriçados.

619 acessosDuplas de guitarristas: Loudwire elenca suas dez melhores5000 acessosAs regras do Black Metal

A devoção quase religiosa ao grupo produz uma cegueira coletiva, fazendo com que as falhas que o Iron Maiden cometa pelo caminho sejam justificadas por estes fãs. Raciocínios são elaborados buscando justificar, e convencer, as pessoas de que aquilo que o mundo inteiro entende como uma queda de qualidade seja absorvido como evolução musical. Esta lógica dogmática faz com que discos como “The X Factor”, “Dance Of Death” e “Fear Of The Dark” (não vou nem falar no patético “Virtual XI”) sejam considerados “obras intocáveis”, repletas de qualidade e originalidade, quando na verdade apresentam um grupo sem inspiração, dando voltas ao redor do próprio rabo. Esta opinião, esta busca por justificativas, esta visão fechada dentro do seu mundo, é praticada por um grupo que eu classifico como a segunda geração de fãs do Iron Maiden.

Esta segunda leva de admiradores, que sucedeu aqueles que conheceram a banda durante os anos oitenta e acompanharam com atenção os seus primeiros passos, tem como ponto inicial o lançamento do álbum “Fear Of The Dark”, em 1992. Último trabalho a contar com Bruce Dickinson nos vocais até o retorno do vocalista, em 1999, “Fear Of The Dark” é um disco menor na discografia do Maiden. O grupo que conquistou o seu lugar no Olimpo do rock e do heavy metal com os seis clássicos lançados em sequência na década anterior (a saber: “The Number Of The Beast”, “Piece Of Mind”, “Powerslave”, “Live After Death”, “Somewhere In Time” e “Seventh Son Of A Seventh Son”, isso sem falar nos dois excelentes primeiros discos) já dava sinais de estagnação com “No Prayer For The Dying”, álbum que chegou às lojas em 1990, mas foi com “Fear Of The Dark” que isto se agravou ainda mais.

Considero “Fear Of The Dark” um álbum chave na carreira da banda por um motivo bastante simples: foi com ele que o Maiden teve, talvez, o seu maior estouro comercial, rompendo totalmente as barreiras do público headbanger e chegando com tudo aos ouvidos daqueles apreciadores casuais de música. Se isso teve um lado bom, que foi levar o nome do grupo a uma parcela do mercado que dificilmente se interessaria por ela, tem também o seu lado ruim, já que estas pessoas que descobriram o Maiden nesta época foram conquistadas por um disco que não pode ser considerado, em nenhum momento, como um trabalho que possua as características do que se convencionou chamar de “estilo Iron Maiden”.

“Fear Of The Dark” possui cinco músicas básicas, sob as quais o álbum está alicerçado. São elas: “Be Quick Or Be Dead”, “From Here To Eternity”, “Affraid To Shoot Strangers”, “Wasting Love” e a faixa título. Nenhuma delas apresenta o som, as características e o estilo que levaram o grupo às alturas nos anos oitenta, e qualquer fã que não possua uma visão dogmática percebe isso.

“Be Quick Or Be Dead” é uma tentativa calculada de conquistar uma nova geração de fãs tocando aquilo que estes ouvintes estavam acostumados a ouvir. Explico: a agressividade da música, o seu andamento acelerado e os vocais gritados de Bruce soam totalmente deslocados de tudo o que o grupo havia gravado até aquele momento, e de tudo o que iria gravar depois. Era para ser agressivo? O Maiden sabia ser, basta ouvir “Aces High”, “Where Eagles Dare” e “22 Acacia Avenue”. Era para ser rápido? “Aces High” de novo, ao lado de “Deja Vu” e “Invaders”. E os vocais de Bruce Dickinson, quer coisa mais equivocada que aquilo? Um grupo que possui em seu line-up um vocalista com as capacidade de Bruce não precisa provar nada para ninguém, ainda mais gravar uma música em que ele canta forçando totalmente a sua voz, alcançando um resultado final de gosto duvidoso.

Já “From Here To Eternity” flerta abertamente com o hard rock praticado por bandas como o Bon Jovi. Esta música poderia estar presente em discos como “New Jersey”, gravados pelos americanos na década de oitenta. Uma canção novamente a milhas daquilo que o Maiden sempre fez, e o que é pior, com uma qualidade rasteira. Ou vai dizer que você sente falta de ouvi-la nos shows atuais do grupo?

Em “Affraid To Shoot Strangers” temos o início daquilo que a banda iria executar à exaustão nos álbuns lançados a partir de “Fear Of The Dark”: uma música longa, arrastada, progressiva, e, em vários aspectos, chata e sem inspiração. Existem dezenas de clones desta canção em “The X Factor”, “Virtual XI”, “Brave New World”, “Dance Of Death” e “A Matter Of Life And Death”, e é por isso que eu nunca consigo entender como as mesmas pessoas que consideram esta música “legal”, “massa”, “uma sonzeira”, são os primeiros a criticar o direcionamento que o grupo seguiu nos discos citados acima. Mas como a palavra contrasenso é quase sinônimo de um fã cego, vou deixar passar.

O maior sucesso comercial da carreira do Iron Maiden, “Wasting Love” tocou até enjoar nas rádios, teve o seu clip veiculado à exaustão na MTV. Uma balada com um potencial radiofônico gigantesco, fato inédito em todas as canções que o grupo gravou antes e depois. Novamente a influência de hard rock se faz presente, lembrando o primeiro álbum solo de Bruce Dickinson, lançado alguns anos antes, mas longe de qualquer coisa que poderia ser considerado Maiden.

E, finalizando, “Fear Of The Dark”, a música. Uma canção até legal, que tem a sua base em uma melodia de baixo grudenta de Steve Harris, sobre a qual Bruce canta uma letra infantil sobre o medo que as pessoas tem do escuro. O sucesso desta canção foi tamanho que muitos fãs, e não somente aqueles desta segunda geração, a consideram a melhor música gravada pelo Iron Maiden em toda a sua carreira, deixando para trás clássicos como “Hallowed Be Thy Name”, “Phantom Of The Opera”, “The Number Of The Beast”, “The Trooper”, “Rime Of The Ancient Mariner”, “Powerslave”, “Alexander The Great” e “Infinite Dreams”, só para citar algumas.

Ou seja, uma geração inteira de fãs do grupo está baseada em um álbum mediano e que não traz, em suas faixas, nada da sonoridade forte, refrescante e clássica que transformou o Iron Maiden, durante a década de oitenta, em uma das mais importantes e influentes bandas da história do heavy metal.

Este fato é tremendamente curioso, e, ao mesmo tempo em que gera conceitos como o de considerar “Fear Of The Dark” a melhor música já gravada pelo grupo, mostra o quanto o fanatismo por um grupo pode levar à uma visão equivocada dos fatos e à construção de uma conclusão sobre a obra do conjunto que está à milhas da verdade. Colocar “Fear Of The Dark” no mesmo nível que “Powerslave” e “Seventh Son Of A Seventh Son”, por exemplo, é forçar a barra além da conta. Sua aproximação explícita com o hard rock (e, diga-se de passagem, mesmo com o tremendo sucesso alcançado, nunca mais repetida) até hoje soa inexplicável.

É difícil encontrar uma razão para isso que não seja o desejo de se aproximar daquilo que o mercado americano, e por extensão, mundial, consumia naquela época. Em 1992 vivíamos um período pré-Grunge, onde o hard farofa de bandas como Guns´N´Roses, Poison, Skid Row e Europe ainda dominava as paradas. É neste contexto que o grupo que redefiniu o heavy metal como o conhecemos hoje, que criou e solidificou as diretrizes de todo um estilo, resolveu olhar para frente e jogar tudo que tinha deixando para trás no lixo. E foi justamente com esta postura que a banda alcançou a sua maior exposição comercial até hoje.

A geração de fãs gerada por “Fear Of The Dark” é uma geração equivocada. O que acontece com estes fãs, para efeito de comparação, é a mesma coisa que aconteceu com os Stones e seu “Tattoo You”, com o Judas Priest e seu “Painkiller”, com o Metallica e o seu “Black Album”. Mas a história do Iron Maiden é ainda mais curiosa porque, ao contrário dos exemplos citados acima, “Fear Of The Dark” não é um bom disco. Ele não passa de um álbum mediano, e, mesmo assim, conquistou toda uma leva de fãs. Geração esta que, em fóruns de discussão internet afora, comete equívocos como avaliar “The X Factor” como um clássico, “Dance Of Death” como um retorno às origens, e o álbum de toda esta discussão como um dos melhores da discografia da Donzela. Esquizofrenia pouca é bobagem ...

Quem conheceu a banda naquela época, e hoje tem seus 25, 26 anos, já possui maturidade suficiente para tirar as amarras do fanatismo e admitir seu equívoco, ao invés de ficar formulando raciocínios para negar a má fase que o grupo deu início com aquele lançamento. Analisando com distanciamento, entre 1991 e 2006 o Iron Maiden lançou apenas dois álbuns bons (“Brave New World” e “A Matter Of Life And Death”), e isso é muito pouco para um grupo com a importância histórica do Maiden.

Acendam a luz. Abram os olhos. Acordem da hipnose coletiva. Não tenham medo da verdade, seu amor não foi desperdiçado. Não é preciso temer os estranhos, nem ser rápido para não morrer. Basta olhar para trás e descobrir os seis discos mágicos citados no início do texto. Com eles vocês irão perceber porque o Iron Maiden é o que é e permanecerá vivo por muito tempo, saindo daqui para a eternidade.

Ou continuem tendo medo do escuro e chamando a mamãe para acender a luz.

GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+

Os comentários são postados usando scripts e logins do FACEBOOK, não estão hospedados no Whiplash.Net, não refletem a opinião dos editores do site, não são previamente moderados, e são de autoria e responsabilidade dos usuários que os assinam. Caso considere justo que qualquer comentário seja apagado, entre em contato.

Respeite usuários e colaboradores, não seja chato, não seja agressivo, não provoque e não responda provocações; Prefira enviar correções pelo link de envio de correções. Trolls e chatos que quebram estas regras podem ser banidos. Denuncie e ajude a manter este espaço limpo.

Iron MaidenIron Maiden
Steve Harris assiste show do Metallica no Canadá

619 acessosDuplas de guitarristas: Loudwire elenca suas dez melhores1109 acessosBruce Dickinson: voando em um bombardeiro da II Guerra Mundial0 acessosTodas as matérias e notícias sobre "Iron Maiden"

Derek RiggsDerek Riggs
Foi muito cansativo desenhar o "Somewhere In Time"

Blaze BayleyBlaze Bayley
Breve comentário sobre discos gravados com o Maiden

Iron MaidenIron Maiden
Os álbuns da banda, do pior para o melhor

0 acessosTodas as matérias da seção Opiniões0 acessosTodas as matérias sobre "Iron Maiden"

HumorHumor
Não basta um machado na mão para ser Black Metal

MetallicaMetallica
Corrigindo a injustiça contra Jason Newsted

Cannibal CorpseCannibal Corpse
Este cara é muito mais fanático que você

5000 acessosLuxúria: uma lista de alguns dos clipes mais sexys da história5000 acessosMetal: 101 motivos para perceber que você ouve há muito tempo5000 acessosLars Ulrich: "Eu era o maior fã do Iron Maiden"3210 acessosIron Maiden: cerveja Trooper em latão de 500ml5000 acessosHall Of Fame: 500 Músicas Que Marcaram o Rock and Roll5000 acessosArch Enemy: "nós não queremos ser o próximo Metallica"

Sobre Ricardo Seelig

Ricardo Seelig é editor da Collectors Room - www.collectorsroom.com.br - e colabora com o Whiplash.Net desde 2004.

Mais matérias de Ricardo Seelig no Whiplash.Net.

Whiplash.Net é um site colaborativo. Todo o conteúdo é de responsabilidade de colaboradores voluntários citados em cada matéria, e não representam a opinião dos editores ou responsáveis pela manutenção do site, mas apenas dos autores e colaboradores citados. Em caso de quebra de copyright ou por qualquer motivo que julgue conveniente denuncie material impróprio e este será removido. Conheça a nossa Política de Privacidade.

Em fevereiro: 1.218.643 visitantes, 2.740.135 visitas, 6.216.850 pageviews.

Usuários online