Entrevista: Mike Patton mergulha no caos sonoro
Fonte: Folha Ilustrada
Postado em 21 de fevereiro de 2004
ALEXANDRE MATIAS
free-lance para a Folha
Para a maioria das pessoas, Mike Patton é um nome associado aos anos 90 --líder de uma banda tão importante para a década passada quanto o Tears for Fears foi para a anterior. Mas para um público fiel e espalhado por todo o planeta, o vocalista é um dos mais importantes nomes da história da música (e não apenas pop), sendo comparado a artistas igualmente idiossincráticos, como John Zorn, Frank Zappa ou George Clinton.
"Sou muito agradecido pelo fato de algumas pessoas gostarem do que eu faço, mas faço em primeiro lugar para me agradar", conta à Folha, por e-mail, Patton, 36, que lança "Delirium Córdia", o terceiro disco de um dos seus inúmeros projetos pós-FNM, o grupo Fantômas. "Não busco atingir um certo público", explica o vocalista sobre a relação entre seus velhos e novos fãs. "O Faith No More acabou faz tempo. Acho que a maioria dessas pessoas [que ouviam FNM] está morta ou ouvindo Sting, hoje em dia. Não faço a menor idéia."
Formado por Patton, Buzz Osbourne (guitarrista dos Melvins), Dave Lombardo (baterista do Slayer) e Trevor Dunn (ex-baixista do Mr. Bungle, primeira banda de Patton), o grupo dá continuidade ao disco anterior, "Director's Cut" (2002), de forma inusitada --se antes homenageavam o mundo das trilhas sonoras regravando temas clássicos do cinema de horror, neste preferem fazer um filme sonoro.
"Delirium Córdia", o terceiro álbum do Fantômas, é mais um vôo no abismo da não-canção em que Patton flutua desde os dias do Mr. Bungle. Dedica-se a visitar todos os territórios da música gravada, de preferência simultaneamente. O resultado é uma música psicótica, pesada e paranóica. A arte de Patton --tocada apenas com a boca, que o cantor encara como instrumento-- é um desenho animado ultraviolento.
Mas "Córdia" é apenas o primeiro dos vários planos de Patton para 2004, que acaba estrear sua carreira de ator. "Foi ótimo!", lembra, "um grande desafio". O vocalista participa do filme "Firecracker", vivendo dois papéis complementares: ele é o irmão mais velho e bêbado do protagonista Jimmy e o dono do circo para onde Jimmy vai depois de fugir de casa. "O filme é bem esquisito", completa Patton.
Ele ainda tem em seus planos colaborações com o maestro finlandês dos samples Kaada, com o rapper Rahzel e com o grupo de DJs X-ecutioners. "Vamos gravar um disco de batalha: Mike Patton versus os X-ecutioners." Mas o grande acontecimento, em termos de mercado, será a colaboração dele com a cantora islandesa Björk! "Sou fã da música dela e ela da minha e nos conhecemos num festival na Europa. Estou pensando em fazer um disco só de versões de músicas do Iron Maiden e do Ratos de Porão", desconversa com seu humor sórdido.
Pilotando sua própria gravadora, a Ipecac, Patton explica que a montou apenas para lançar seus próprios discos. "Passar muito tempo preocupado com o lado comercial e vendas afeta o seu trabalho como artista."
Sobre seus afazeres para o ano, Mike Patton arremata: "Turnê com o Fantômas. Turnê com o Rahzel. Acabar o outro disco do Fantômas. Aí tem o Peeping Tom, o disco com os X-ecutioners, o trabalho com a Björk, o trabalho com o Kaada, o disco novo do Tomahawk e talvez mais filmes. Pela Ipecac saem as Desert Sessions, o Kid 606, Pink Anvil... Um ano devagar".
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