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Por Gabriel Costa, Fonte: Bizarre
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A revista britânica Bizarre conduziu em outubro de 2009 uma extensa entrevista com o músico e produtor canadense Devin Townsend (STRAPPING YOUNG LAD, STEVE VAI, OCEAN MACHINE, ZILTOID, entre outros). Na conversa, Townsend discute "Addicted" e "Deconstruction", segundo e terceiro discos, respectivamente, de uma série de quatro álbuns a serem lançados sob o nome DEVIN TOWNSEND PROJECT, além de falar sobre o primeiro disco da série, "Ki", música pesada e dançante, cabelo sujo e morte. Confira alguns trechos da conversa abaixo:

Bizarre: Você disse que 'Ki' é bastante contido, enquanto 'Addicted' é um pouco mais parecido com um álbum pop com muitas camadas. Você pode falar um pouco mais sobre as ideias por trás de tudo?

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Townsend: "Bem, você sabe, é um projeto de álbuns completos. Basicamente, deve ser uma história do início ao fim. De certa forma, não é uma história minimalista, mas eu acho que esse segundo disco é... Deus, essa é a minha primeira entrevista sobre ele, então é melhor eu tentar decidir sobre o que diabos é isso. É sobre tentarmos entender, tipo, todos nós, qual é o nosso negócio aqui. Por exemplo, existe um deus? É OK fazermos certas coisas e não é OK fazermos outras?"

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Townsend: "Você tem um filho e de repente toda a sua realidade parece completamente fora de proporção. Parece ficar mais e mais fora de proporção. Eu sempre acabo pensando, 'Bem, qual é o significado por trás de tudo?' Eu acho que, por muitos anos, fiquei pendurado nessa questão. Assim como com um sentimento real, sobrepujante, de precisar saber. Eu conheci várias pessoas em minha vida que eram muito religiosas, e algumas pessoas que estavam ligadas a coisas mais sombrias e outras ligadas a coisas mais leves, mas no fim das contas eu acho que tudo se resume ao fato de que todo mundo tem medo de que isso aqui seja tudo. Sabe, todos têm medo de que talvez não haja nada mais. Talvez nós apenas... tenhamos todos esses tipos de realidades e sistemas de crenças apenas para evitar aquele sentimento de incrível isolamento."

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Townsend: "Mas, de várias formas, eu acho que o que 'Addicted', esse disco, é sobre é, bem, dizer que não há nada mais. Dizer que isso é tudo. Sabe, que há esse infinito espaço de nada sobre nós e tudo o que temos é, tipo, um bando de outros humanos. Então qual é o resultado final disso? E, por anos, minha música tem sido realmente meio metafórica, e tem havido muita escuridão na música. Mas a percepção de que talvez não haja nada mais foi realmente revigorante pra mim porque eu pensei. 'Ok, se não há mais nada, então tudo o que precisamos ter é uns aos outros. Então o que nós queremos fazer? Nós provamos uns aos outros que estamos certos?'"

Townsend: "Ou, meu tipo de coisa é, bem, eu só quero fazer música que seja pesada, mas eu quero que as pessoas possam dançar. Eu quero dançar. Eu quero música que seja divertida, que seja refrescante. Bons refrões que você pode cantar junto, e que você não esteja necessariamente cantando junto com a neurose de alguém tanto quanto, por exemplo, 'Essa é uma letra legal. Essa é uma melodia legal, uma batida legal'. E, por um longo tempo, eu meio que lutei com a ideia de que música pesada fosse apenas sobre a minha própria busca. Era espiritualmente nocivo para mim tocar música pesada. E então eu pensei, bem, eu sou um homem branco e eu realmente gosto desse tipo de agressão, mas eu acho que há uma distinção a ser feita entre música agressiva e música tóxica, e eu acho que elas podem sera mutamente excludentes em muitas formas, então o que eu tentei fazer com 'Addicted' foi algo realmente pesado."

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Townsend: "De diversas formas, é mais pesado do que qualquer coisa que eu já tenha feito, mas eu compensei isso fazendo com que as letras e a mensagem, se você quiser chamar assim, por trás, fossem neutras mas realmente positivas. Tipo, 'Sim, a vida é uma merda de muitos jeitos, mas há muitas coisas ótimas'. Nós ouvimos o disco a noite passada e dançamos, porque há tanta coisas negativa e anestesias são tão estúpidas que parece que passamos tempo demais pensando em coisas que nunca vamos resolver e nós vamos apenas acabar perpetuamente deprimidos. Então eu só quis fazer um disco que fosse incrível e divertido."

Bizarre: Por que você usou vocais femininos?

Townsend: "A minha voz, bem... eu posso cantar, eu posso berrar, eu posso fazer minhas próprias coisas, mas também deve ser dito que uma voz feminina é como se fosse o outro lado da equação, porque obviamente humanos são ou um ou outro. Então uma moça meio que apareceu na minha vida, chamada Anneke, e ela costumava cantar na banda The Gathering. Ela me mandou um vídeo no YouTube da banda dela tocando uma canção do disco Ziltoid e eu vi e pensei, 'Uau, ela é realmente boa'. Não é uma voz pesada, mas é tão confiante que ela poderia cantar sobre a música mais pesada e ainda seria limpa e bela e funcionaria. (...)"

Townsend: "Eu tive um sonho com ela cantando a canção 'Hyperdrive'. De repente, eu estava agindo por instinto e mandei um e-mail e disse, 'Bem, por que você não vem a Vancouver? Eu tenho uma tonelada de canções que estava prestes a cantar, mas eu amo vocais femininos.' Quando eu era adolescente, eu amava Enya, amava Abba, eu amo qualquer coisa que tenha vocais femininos claros, confiantes."

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Townsend: "Todo mundo envolvido neste disco tem basicamente a mesma idade. Nós estamos todos na faixa dos 40, e três de nós quatro temos crianças. Quando eu tinha 20 e poucos anos, eu sabia exatamente onde eu estava. Eu estava com raiva, e puto, e basicamente, 'Foda-se o mundo'. Mas conforme você envelhece, não é que isso vá embora, mas torna-se uma percepção de que talvez os motivos pelos quais eu estava zangado eram diferentes do que eu estava pronto para admitir a mim mesmo."

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Townsend: "E agora, nesse ponto da minha vida, isso tudo não apenas não importa tanto para mim como é ruim berrar por causa daquela merda. Eu tenho problemas o suficiente na minha vida sem catalisar isso subindo no palco e fazendo 'arghhhhhhhhh!' Então, o que na verdade me fez sentir melhor foi subir no palco e cantar sobre coisar que me faziam sentir muito bem. Sempre, enquanto eu escrevia as letras, havia o potencial de beirar a breguice. Eu sempre tento evitar afirmações exageradas do tipo 'Eu tenho as respostas', porque o que eu tenho a dizer não chega nem perto. Eu tenho minhas respostas, mas mesmo elas mudam diariamente. Eu acho que o negócio com um disco pesado e positivo é que as letras precisam ser às vezes neutras, às vezes bobas."

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Townsend: "Na canção 'Addicted, o refrão diz, 'You’re addicted' [você está viciado], mas o último refrão é tipo, 'We’re addicted too' [nós também estamos viciados']. Não é como se alguém soubesse. Eu acho que a coisa legal sobre essa canção é apenas ser humano. Existe esse nível da realidade em que nós quase compartilhamos nossa estupidez. De diversas formas, isso é o que nos define - nossa incapacidade em descobrir por que diabos estamos aqui. Então esse disco é essencialmente não sobre isso, mas mais sobre... sabendo disso, vamos festejar. É isso. (...)"

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Bizarre: Você poderia falar um pouco sobre o terceiro disco? Seria legal saber como as coisas vão progredir com o seu personagem a partir daí. Se chama "Deconstruction", certo?

Townsend: "O personagem decide descontruir tudo depois que ele percebe que há algo por baixo de tudo com que ele precisa lidar. Então ele decide se desfazer em pedaços, todos os elementos dele... da bebida ao sexo à religião... e simplesmente entender por que ele faz o que faz. De algumas formas, o personagem está convencido de que pode entender isso. Que ele é mais importante ou inteligente que todos os outros humanos e ele quer tentar por uma razão muito egoísta. Mas no final de 'Deconstruction' ele percebe que o que ele está olhando é um cheeseburguer, que é uma metáfora para qualquer coisa."

Townsend: "Ao tentar entender o que é, ele entende que o que ele está olhando é algo realmente estúpido e inconsequente e ele nem come cheeseburguers, então ele fica com dor de cabeça. E percebe por meio dessa desconstrução que, não importa o quão fundo você vá na realidade ou no infinito, você está sempre no meio. Essa é a natureza do infinito - em qualquer direção que você vá, você está sempre onde você está. Então indo em todas essas direções você consegue toda essa informação que, no fim das contas, só enche a sua cabeça de barulho."

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Townsend: "'Deconstruction' é um disco realmente pesado, uma verdadeira sinfonia de muitas formas, mas com músicos pesados do mundo do metal - amigos meus. Eu amo metal e tenho escutado o estilo por toda a minha vida então eu estou simplesmente envolvido com artistas de outras bandas. Especialmente vocalistas de death metal, porque eu não consigo realmente fazer isso. Eu posso enganar, mas não consigo fazer a coisa gutural de fato. Então estou tentando achar amigos de bandas de death metal que possam interpretar vários personagens no álbum. Será um disco absolutamente, desorientantemente pesado. E então, o último disco, onde o cara percebe que não têm todas as respostas, terá canções acústicas, pop, folk. Coisas realmente calmas e belas".

Bizarre: Você pode dizer com que artistas de death metal você vai trabalhar no próximo álbum?

Townsend: "Eu quero pessoas com fãs estabelecidos. Eu saio em turnê em janeiro, então eu vou ver se alguém estará interessado nisso. Existem muitos vocalistas legais que fazem muitos estilos diferentes e existem muitos personagens diferentes nesse disco. Então eu gostaria de poder dizer, 'Eu sei que a sua banda gosta de tal coisa, então aqui está um personagem que personifica isso.'"

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Townsend: "A coisa a se manter em mente é que eu não quero fazer um disco que tenta sacudir as pessoas em suas crenças. Os personagens estão mais obvservando as coisas a seu redor, e eu não quero criar paródias desses músicos de alto nível do metal. Eu verdadeiramente quero fazer um disco loucamente pesado, e há certas coisas que eu não posso fazer. Quando eu escrevo uma canção, eu ouço esses monstruosos vocais death, mas toda vez que tento fazê-los, não consigo. Então eu quero alguém que possa sacudir o chão. Eu tenho ideias, mas não falei com ninguém ainda, então não quero dizer nada".


Bizarre: Eu ouvi dizer que você ainda tem o seu cabelo. O que você fez com ele?

Townsend: "Yeah, ele está numa caixa. Eu provavelmente vou dar pra alguém ou colocar no Ebay e ver se alguém quer".

Bizarre: Você já voltou a "experimentar" o cabelo?

Townsend: "De jeito nenhum. O negócio é nojento. Eu não lavei o cabelo por três anos, e fazia muitas turnês, então ele está cheio de catarro e suor. Quando eu finalmente cortei tudo, eu estava, tipo, 'Por que você está mantendo essa cabelo?', mas é como se fosse minha identidade. Então eu pensei, 'Mas é nojento. Então a sua identidade é nojenta?' Se eu me livrasse dele, eu não teria mais cabelo e aí o que as pessoas pensariam? Aí eu pensei, 'Bem, talvez eles pensem que você é menos nojento.' Mas isso tudo é um mecanismo de defesa, porque se as pessoas não pensam que eu sou nojento, então eu sou só um cara normal, certo? Então está em uma caixa rotulada 'cabelo'"

Leia a entrevista completa, em inglês, no site da Bizarre.


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Sobre Gabriel Costa

Carioca, jornalista por profissão e roqueiro de nascença, Gabriel teve o primeiro contato direto com o rock and roll ao ouvir o álbum de estreia do Black Sabbath em um velho vinil de seu pai. Garoto do século 20, nascido em 1984, é absolutamente fascinado por tudo o que envolve o estilo, da música à mitologia. Canta na banda Six Pack Wonder, escuta de Backyard Babies a Strapping Young Lad, ama The Wildhearts e segue fielmente os ensinamentos de Lemmy e Danko Jones. Escreve no Twitter em http://twitter.com/gabrielccosta.

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