Uli Jon Roth: "A música perdeu sua importância social"
Por Nacho Belgrande
Fonte: Maximum Metal
Postado em 05 de agosto de 2015
Em uma nova entrevista com o site Maxiumum Metal, o lendário guitarrista teutônico ULI JON ROTH [SCORPIONS] foi perguntado sobre o que ele acha que teria que acontecer para que o futuro da música melhorasse. Ele respondeu:
"Ah, muita coisa. Eu acho que está tudo zuado. Há um abismo enorme entre como é e como deveria ser, em vários aspectos da música – sem falar apenas das finanças ou a possibilidade de viver da música, o que hoje em dia, para a maioria dos músicos, é o mais difícil. Sabe, os músicos têm que viver também, e muitos deles ficam restritos a raspar o tacho apenas para poderem comer e fazer música. Eles têm que fazer todo tipo de sacrifício e isso não é bom para a música em si, porque a música deveria ser livre de todo esse tipo de coisa. Então esse é um aspecto.
"Quanto à música em si, eu não sou muito seduzido por toda essa mentalidade de gratificação instantânea dos downloads. Sabe, o lance do iTunes é igual ao McDonalds. Você pode ter qualquer música instantaneamente, e as faixas são desconectas umas das outras. A minha música, por exemplo, eu sempre tentei compor como um álbum de peças que sejam interligadas. E daí sim, claro, você pode ouvi-las separadamente, mas eu sinto que não é a mesma coisa. Eu tendo a pensar em planos de trabalho artísticos mais amplos. E eu não sou o único, sabe? Kate Bush também pensa assim, tal como vários outros. Esse é outro aspecto.
"Eu acho que a geração jovem, já que tudo é baixado em segundos, não tem mais o aspecto físico, e eles parecem não se ligar com os artistas. Mas os artistas precisam de um laço com seu público, um entendimento mais profundo, que role de ambas as partes, entende? Ambos os lados estão perdendo se isso não acontecer, porque a música se beneficia disso, a qualidade da música se beneficia desse tipo de ligação, que é um entendimento mútuo e um respeito mútuo, um pelo outro – o público pelo artista e do artista pelo público. Isso se reflete na música e também na qualidade da música. Então isso é um pouco deplorável. "
Uli prosseguiu: "Para onde a jornada está levando, eu não faço ideia, porque eu não estou tentando ser um profeta dizendo essas coisas. Sabe, eu apenas vou com a maré nesse campo. No momento, a maré não parece estar pra peixe. Pelo menos é o que eu estou observando ou assistindo, sabe? Quanto a mim, eu tento não ser afetado por isso, ou não ser muito afetado, apesar de que isso afeta a todo mundo a certo ponto. E eu não sou uma pessoa nostálgica que diz, ‘Ah, sim tudo era lindo nos anos 50 e 60’. Não era. Haviam outros problemas.
"Mas, já que você perguntou sobre as modas na música, etc., eu acho que a música perdeu muito da importância social que tinha. Nos anos 60, artistas como Bob Dylan, Jimi Hendrix, Beatles, essas pessoas ainda tinham de fato muito a dizer, e quando elas se pronunciavam, isso criava muita onda e energia no mundo material. Os políticos tinham que ouvir àquilo. Eles não podiam simplesmente varrer aquilo pra debaixo do tapete. Mas hoje em dia, os artistas, a maioria deles eu sequer chamaria de artistas. Basicamente são animadores de plateia. E o entretenimento é algo totalmente diferente da arte. É muito raro que ambos andem de mãos dadas. É possível, mas eu não garanto que haja. Animadores geralmente não mudam o mundo para melhor. Eles têm o poder de mudar ao mundo até certo ponto. Mas, geralmente, não há muita sabedoria refletida naquilo.
"Agora, artistas de verdade têm mais desse tipo de força para mudar o mundo se sua arte for conectada à sabedoria. Mas hoje em dia, é quase impossível para que artistas de verdade tenham uma plataforma que seja notada pelo mainstream. Isso é meio triste, porque tanto no campo da música clássica como de qualquer outro, há muitas vozes de gente que tem de fato algo para contribuir e elas pelo meio do caminho e são ignoradas, entende? Você vê isso nas artes visuais, você vê isso na música ou em qualquer gênero. Então é um sinal dos nossos tempos. É por isso que chamo de Sociedade McDonalds. É tudo fast food mental. A fast food da mente é o nome do jogo aqui. É isso que domina o planeta. Sabem, é informação rápida, informação rasa, informação barata. Qualquer coisa instantânea, mas muito pouco disso tem profundidade. É apenas o tempo em que vivemos, e leva um tempo para que a transformação de dentro de nós se ajuste com esse tipo de velocidade, entende? "
Uli finaliza: "Tudo é muito mais rápido agora do que era antes. O trem da humanidade está rodando em uma frequência diferente agora, e essa frequência não está necessariamente muito ajustada com o que seria saudável para a mente humana. Há um certo tipo de espectro do mais e menos de uma velocidade saudável que conduz ao real progresso da mente e do espírito humanos. Mas se você passar disso, se a velocidade for alta demais, o trem sai dos trilhos. E daí o aprendizado não é facilitado com isso, porque a velocidade é alta demais para o que somos naturalmente equipados.
"Talvez a próxima geração se adapte a esse tipo de velocidade, mas eu conheço muito pouca gente até agora. A maioria das pessoas estão apenas à margem disso, e talvez nem percebam, mas quando você finalmente analisa o que está acontecendo, eu não conheço ninguém que tenha dominado isso até agora, mesmo que pareça estar à frente doa demais. Muitas coisas preciosas ficam pelo caminho. E eu não quero dizer apenas financeiramente. Eu me refiro a espiritualmente precioso, mentalmente preciso, entende? Muitas das coisas boas ficam pelo caminho. Elas são esmagadas por esse trem incrivelmente rápido."
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