Nos Trilhos do Blues: acompanhe uma saga através dos 12 sub-estilos da vertente
Por Marina Martini Lopes
Postado em 17 de julho de 2021
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"Nos Trilhos do Blues" é um projeto idealizado por Marina Martini Lopes (reportagem) e Ben Ami Scopinho (arte), que explanará sobre os 12 sub-estilos do Blues, tendo como guia conceitual as velhas ferrovias norte-americanas, com cada estação sendo um dos sub-gêneros. Ou seja, uma travessia (ou jornada, como preferir) pela história dessa sonoridade. Quem narra a história é o bilheteiro do trem, e cada estilo terá um tracklist, desenvolvido especialmente pelo vocalista e gaitista da banda The Headcutters, a maior referência catarinense do Blues.
Acompanhem!
Howdy! Welcome, y'all, a bordo do Blues: o trem a vapor mais bonito que se pode ver por essas partes, e também mais cheio de histórias - e de música, é claro. Deixe-me conferir seu bilhete, com licença, senhor. É para isso que eu estou aqui, afinal de contas: pode me chamar de Bilheteiro, só isso mesmo, senhorita. Encontrem seus lugares e sentem-se todos, por favor. Temos uma longa viagem pela frente - e, enquanto rodamos, eu posso, se for de seu agrado, contar duas ou três histórias que presenciei aqui mesmo nestes vagões. Eu me lembro de cada um que viajou com esse trem ao longo dos anos, ah, lembro sim.
Tudo começou há mais de cem anos, com os trabalhadores negros: os anos 1800 iam se acabando, e a vida dessa gente, apesar da liberdade conquistada a partir de 1863, não era nada fácil. O que foi, senhora? Como eu sei disso, se aconteceu há tanto tempo? Detalhes! Deixe-me continuar, com sua licença, senhora. Aqui, no sul dos Estados Unidos, espalhados pelos belos estados do Alabama, do Mississippi, da Louisiana e da Geórgia, eles buscavam consolo e motivação nas suas raízes africanas, muitas vezes por meio da música: cantando em grupo suas canções de roda, e também, enquanto trabalhavam nas plantações de algodão, as repetitivas work songs. Foi cantando que eles construíram este trem, sem sequer saber que nome teria ou o quão famoso se tornaria. Não é irônico, meu rapaz, o fato de que nenhum dos construtores chegou a de fato embarcar no Blues? Eles simplesmente o construíram, bless their hearts, com seu suor e sua música, e o deixaram livre para viajar.
O primeiro que eu vi embarcar no trem foi um sujeito chamado W.C. Handy. Ele contava uma história de como, um dia, ouviu um homem tocando violão com um canivete; e aquele ritmo não saiu mais de sua cabeça. Inspirado nesse personagem, ele escreveu a música St. Louis Blues, uma das primeiras que ouvimos a bordo. Logo foram aparecendo outros; viajantes solitários que iam e vinham por estes trilhos, recriando com seus violões e gaitas de boca cantos que já eram familiares aos ouvidos dos sulistas.
Um dia, apareceu um passageiro que roubou a cena: Robert Johnson era o nome dele, um sujeito que viajou com o Blues por não mais que dois anos - mas que nunca mais foi esquecido. Sim, senhor, o tal Johnson era um talento daqueles; mas também era cercado de histórias sinistras... Ou interessantes, dependendo do ponto de vista. O boato que corria é que, numa noite de lua nova, na encruzilhada entre as rodovias US 61 e US 49, em Clarksdale, no Mississippi, Johnson fez um pacto com o próprio Diabo: vendeu a alma em troca de talento e sucesso. Vocês acreditam nessas coisas, y'all? Ele morreu com 27 anos, depois de beber um uísque envenenado pelo dono de um bar - que tinha ciúmes da esposa, e achava que ela tinha um caso com Johnson. Será que foi o Diabo vindo reclamar a alma do sujeito?
Muito mais gente entrou e saiu desse trem conforme o tempo foi passando e o Blues foi avançando pelos trilhos - e novas estações foram sendo construídas para dar conta da demanda, cada uma com suas características...
FONTE: Ben Ami Scopinho
https://www.nsctotal.com.br/especiais/nos-trilhos-do-blues
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