Lemmy lembra shows ruins de Jimi Hendrix; "o pior tipo de coisa que você ouviria na vida"
Por Bruce William
Postado em 08 de dezembro de 2025
Jimi Hendrix costuma ser colocado naquele pedestal onde tudo parece perfeito, como se cada show tivesse sido uma sequência de revelações históricas. Só que Lemmy, que não era exatamente o tipo de sujeito que dourava nada, preferia lembrar o lado humano até dos nomes mais gigantes. E isso ganha um peso extra quando a crítica vem de alguém que, mais tarde, também viraria sinônimo de personalidade, força de palco e uma forma muito própria de atravessar o rock sem pedir licença.
Em 1967, Lemmy ainda estava longe do personagem definitivo que o mundo conheceria no Motörhead. Era um cara circulando por um ambiente muito diferente, com trabalhos de estrada e convivência real com bandas e músicos que estavam mudando o som da época por dentro. Essa proximidade com o universo de Hendrix acabou levando a uma percepção menos mitológica e mais de bastidor, aquela visão de quem assistiu de perto o brilho, mas também notou as rachaduras ocasionais do espetáculo.

Ele nunca negou a importância de Hendrix ou a sensação de estar diante de um artista fora de série. A ideia de que ninguém tocava, inventava e se apresentava daquele jeito estava clara na memória dele. Só que admiração, no caso de Lemmy, não significava tratar o outro como santo. Significava reconhecer o tamanho do impacto sem fingir que o palco era sempre um ambiente controlado, especialmente numa era em que volume, efeitos e improviso podiam fazer a noite desandar sem aviso.
É aí que entra a fala mais dura - e sincera - que ele deixou registrada e que foi republicada pela Far Out. "Ele subia no palco e as pessoas já iam 'ahhh', mesmo nas noites ruins. Em muitas noites ele soava péssimo, o pior tipo de coisa que você ouviria na vida" Lemmy ainda explicou o que, para ele, acontecia nesses dias tortos: Hendrix ficava desafinado, pisando no fuzz e soando "terrível", mas continuava dominando a plateia, reconhecendo que ele possuía algo que poucos tinham: presença suficiente para segurar o espetáculo mesmo quando o instrumento não obedecia como deveria.
Isso torna a lembrança realmente interessante, pois a crítica não desmonta o mito - muito pelo contrário, aumenta ainda mais; Hendrix podia ter noites em que a execução saía do eixo, mas o carisma e a autoridade artística continuavam ali, como se a performance fosse maior do que a soma de afinação, timbre e precisão. E talvez essa seja uma das lições silenciosas que Lemmy levou para si: o palco não é só sobre tocar bem, é sobre sustentar uma figura que convence, mesmo quando o som vira uma guerra controlada.
No fim, esse tipo de relato também serve como antídoto contra aquela ideia de perfeição impossível. Se alguém do tamanho de Hendrix podia tropeçar ao vivo, isso não diminui a revolução que ele promoveu na guitarra. Na verdade, aproxima ainda mais a história de qualquer músico que já teve uma noite ruim e seguiu em frente. O gênio não some por causa do caos de um show; ele sobrevive justamente porque o conjunto da obra é grande demais para ser derrubado por alguns minutos de turbulência.
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