O guitarrista clássico idolatrado e ao mesmo tempo zoado pelos caras do Angine de Poitrine
Por Bruce William
Postado em 18 de abril de 2026
O Angine de Poitrine virou assunto, principalmente depois de uma passagem pelo KEXP, e não foi só por causa da música, como bem coloca o Ultimate Guitar. Chamaram atenção também os figurinos estranhos, os pontos espalhados pela cena, os ruídos, a cara de performance meio fora do eixo e, claro, aquele instrumento bizarro de dois braços que parece saído de uma oficina em pane. Agora, os próprios integrantes explicaram que a coisa toda nasceu de anos de piadas internas e de uma vontade clara de empurrar o rock para o exagero.

Em entrevista ao Cult MTL, o guitarrista Khn de Poitrine disse que o projeto é "a culminação de muitos anos de piadas internas". Segundo ele, os nomes Angine de Poitrine já existiam como alter egos em um projeto de free jazz de dez minutos, em que ele brincava no saxofone enquanto Klek ficava na bateria. Ou seja, antes de virar sensação de internet, a dupla já estava flertando com o absurdo fazia tempo.
A tal guitarra-baixo de dois braços também nasceu nesse espírito. Klek contou que pegou duas guitarras, tirou os trastes de uma escala que já estava enferrujada e meio ferrada e colocou em outra. A partir daí, Khn passou a gravar loops na guitarra microtonal, trocando depois para o baixo enquanto a bateria entrava por cima. Em algum momento, os dois perceberam que fazia sentido unir tudo num instrumento só. A ideia, segundo eles, pareceu uma piada por alguns segundos, mas logo virou algo sério. E visualmente, convenhamos, o troço realmente chama atenção.
Só que o mais interessante não é a gambiarra em si, mas o pensamento por trás dela. Khn admitiu que a proposta da banda sempre teve um lado satírico em relação ao rock. Eles queriam um exagero, e a guitarra de dois braços entrou justamente como forma de brincar com a figura do herói da guitarra, esse personagem carregado de pose, virtuosismo e reverência. O grupo chega a inserir pequenos comentários musicais como piada deliberada, do tipo tocar um clichê de guitarra e berrar "Salve Santana!" no microfone.
A graça está em que a zombaria não vem de desprezo puro. Pelo contrário. O próprio Khn deixou claro que eles adoram Santana. A brincadeira funciona como caricatura afetuosa, não como ataque vazio. É quase uma forma de dizer que o rock, a guitarra e seus ídolos podem ser levados a sério e ao mesmo tempo ridicularizados um pouco - até porque, se ninguém rir de si mesmo, o gênero acaba virando estátua de praça.
Talvez seja por isso que o Angine de Poitrine tenha chamado tanta atenção tão rápido. Não é só uma banda esquisita tentando ser esquisita. Há ali uma consciência de linguagem, uma vontade de brincar com símbolos velhos do rock e uma estética que parece dizer o tempo todo: sim, isso tudo é ridículo - e justamente por isso pode ser divertido. No meio de tanta banda que ainda trata o instrumento como totem sagrado, aparecer com uma monstruosidade microtonal de dois braços para tirar sarro dos deuses da guitarra acaba sendo uma boa maneira de entrar em cena.
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