A banda de rock nacional que falou sobre amor entre homens, foi censurada e recebeu anistia
Por Gustavo Maiato
Postado em 13 de abril de 2026
O caso do Ave Sangria voltou a chamar atenção após um vídeo de Júlio Ettore recontar a trajetória da banda pernambucana, uma das mais promissoras do Nordeste nos anos 1970. Logo na abertura, o jornalista resume o tamanho do episódio: "Pela primeira vez, uma banda de rock brasileira foi anistiada". Em seguida, traduz o peso disso em linguagem direta: "O Estado brasileiro reconheceu que ferrou com a carreira deles".

A história ajuda a explicar por que o grupo acabou virando símbolo de uma ferida pouco lembrada do rock nacional. Segundo Ettore, o Ave Sangria era "a maior banda do estado de Pernambuco, talvez até a maior do Nordeste em plena década de 70" e surgia como aposta para ocupar um espaço parecido ao que os Secos & Molhados haviam alcançado no país.
O problema começou por causa de "Seu Valdir", faixa em que o eu lírico se declara para outro homem. Ettore observa que a música "era só uma piada, mas nem precisava ser", deixando claro que o ponto central não estava na intenção cômica ou não da letra, mas na reação conservadora que ela provocou. O fato é que a canção incomodou em cheio o ambiente político e moral da época.
No vídeo, ele reconstrói como a música ganhou força no rádio nordestino até explodir. Foi então que veio a reação. "Os discos foram retirados das lojas por pressão dos militares e a banda se foi", afirma. Mais adiante, reforça que a letra havia sido aprovada no escritório regional da censura em Recife, o que indica que a ordem para barrar o grupo veio de instâncias mais altas. "Foi alguém de cima que mandou censurar", diz.
A censura foi devastadora. A gravadora relançou o LP sem "Seu Valdir", mas o dano já estava feito. Sem estrutura, sem perspectiva de renovação contratual e com as músicas fora do rádio, o grupo perdeu o embalo. Em dezembro de 1974, fez seus últimos shows da formação original e pouco depois acabou.
Ettore trata o caso como "uma das histórias mais tristes do rock brasileiro", mas ressalta que ela agora parece ganhar outro desfecho. Isso porque a Comissão de Anistia reconheceu que houve prejuízo profissional causado pela ação do Estado, concedendo reparação aos integrantes contemplados. Para o jornalista, é um reconhecimento tardio, mas simbólico, de que a trajetória do Ave Sangria foi interrompida por razões políticas e morais, não por fracasso artístico.
O próprio vídeo destaca esse contraste. De um lado, uma banda com contrato em grande gravadora, música tocando, shows lotados e chance real de crescer nacionalmente. Do outro, uma carreira desmontada em menos de dois meses por causa da pressão em torno de uma canção. É por isso que Ettore diz que a história "parece que tá tendo um final feliz".
Confira o vídeo abaixo.
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