A música do Genesis que Phil Collins tinha vergonha de cantar ao vivo
Por Bruce William
Postado em 31 de maio de 2026
"Supper's Ready" é o tipo de música que explica por que o Genesis dos anos 70 ainda provoca devoção quase religiosa em uma parte do público. São quase 23 minutos, várias seções, mudanças de clima, imagens bíblicas e surrealistas, trechos acústicos, explosões instrumentais e aquele senso teatral que Peter Gabriel levava para o palco com figurinos, personagens e narrativas estranhas entre uma parte e outra. Lançada em "Foxtrot", de 1972, a faixa virou uma das peças mais ambiciosas da banda naquele período.
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O problema é que, anos depois, Phil Collins olhava para aquele material com bem menos carinho do que muitos fãs. Para ele, parte do Genesis antigo carregava um peso de fantasia sci-fi e escapismo surreal que já não fazia sentido. A Far Out recuperou uma fala em que Collins admitiu o incômodo: "Foi 'sugerido' que eu cantasse 'Supper's Ready'. Muito do Genesis antigo era escapismo surreal de ficção científica, e eu não consigo ouvir aquilo. Não sou um grande fã do nosso passado. Quando ouço um disco antigo do Genesis, nove vezes em dez, tendo a ficar envergonhado. Quer dizer, Tony Banks sentaria aqui e diria que não tem vergonha disso."
Essa reação é até meio curiosa porque Collins não era um estranho dentro daquela música. Ele tocava bateria no Genesis desde 1970 e participou da gravação original de "Supper's Ready"; depois da saída de Gabriel, ainda cantou a faixa ao vivo em algumas turnês, inclusive na fase em que a banda precisava provar que sobreviveria sem seu vocalista mais teatral. A música seguiu aparecendo em apresentações de 1976, 1977 e 1982, enquanto trechos dela também entraram em medleys posteriores.
A vergonha de Collins talvez diga menos sobre a qualidade da composição e mais sobre a distância entre dois Genesis diferentes. O primeiro era cheio de máscaras, histórias estranhas, longas jornadas e seções em 9/8; o segundo, especialmente a partir do fim dos anos 70 e começo dos 80, aprendeu a condensar ideias em músicas mais diretas, sem abandonar completamente a sofisticação. Collins ficou no meio desse corredor: era o baterista brilhante da fase clássica e, ao mesmo tempo, o vocalista que levaria o Genesis a um público muito maior.
No fim, "Supper's Ready" continuou maior do que o desconforto dele. Para quem ama a fase Gabriel, é quase um monumento; para Collins, parecia uma fotografia antiga em que a roupa, a pose e a expressão já não combinavam com quem ele havia se tornado. Dá para entender os dois lados. A música é exagerada, torta e cheia de imagens que beiram o delírio. Mas é justamente por isso que tantos fãs ainda a tratam como uma das grandes aventuras do rock progressivo - mesmo que o sujeito que depois precisou cantá-la preferisse não olhar muito para trás.
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