O roqueiro que Slash definiu como um dos maiores seres humanos que conheceu
Por Bruce William
Postado em 31 de maio de 2026
Slash conheceu muita gente grande antes mesmo de virar Slash no sentido que o mundo passou a reconhecer. Cresceu em um ambiente próximo da música e da moda, viu David Bowie circular por perto ainda criança e, depois, entrou no turbilhão do Guns N' Roses no momento em que a banda deixava de ser apenas mais uma ameaça da cena de Los Angeles para virar um nome mundial. Mesmo assim, quando falava de Lemmy Kilmister, o tom era diferente.
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O encontro aconteceu em 1987, quando o Guns N' Roses foi ao Reino Unido para tocar no Marquee Club, em Londres. A banda ainda estava no começo da escalada, pouco antes de "Appetite for Destruction" mudar tudo de vez. O disco sairia em julho daquele ano, mas aqueles shows no Marquee já entraram para a mitologia do grupo, justamente por registrarem o Guns em uma fase crua, barulhenta e ainda longe do gigantismo dos anos seguintes.
Slash lembraria que alguém perguntou se eles queriam conhecer o Motörhead, que estava gravando. Para ele, a situação era intimidadora. Ele já havia visto o Motörhead ao vivo antes, cresceu ouvindo aqueles discos e, de repente, estava diante de Lemmy, um sujeito que parecia encarnar uma ideia inteira de rock and roll sem precisar fazer pose. "Fomos até lá e eles foram legais - e Lemmy e eu nos tornamos amigos desde então", contou o guitarrista em uma lembrança resgatada pela Far Out.
A amizade durou décadas. Depois da morte de Lemmy, em dezembro de 2015, Slash falou sobre ele com uma mistura de luto, carinho e respeito. "Lemmy era um dos meus seres humanos favoritos de todos os tempos. Ficamos amigos em 1987, quando viemos para cá pela primeira vez, quando o Guns tocou aquelas datas no Marquee. Para mim, perdê-lo foi realmente perder alguém que era um dos maiores amigos que se poderia ter, e um dos maiores mentores, um dos maiores pilares do que o rock and roll é para mim. Apenas um filho da mãe realmente doce."
Essa última parte é o que dá graça e peso à lembrança. Lemmy podia parecer intimidador: chapéu, botas, verruga, voz de cascalho, baixo Rickenbacker pendurado alto e aquele jeito de quem parecia ter saído de um saloon para destruir um amplificador. Mas muita gente que conviveu com ele falava de outro lado, mais generoso, fiel e direto. Slash não o descreve como celebridade distante, e sim como alguém que serviu de referência humana.
Também havia identificação estética. O Guns N' Roses apareceu em uma época em que Los Angeles estava cheia de bandas maquiadas demais, calculadas demais, prontas demais para caber no mercado. Lemmy era o oposto disso. O Motörhead nunca precisou parecer moderno, bonito ou comercialmente domável. Era uma banda que seguia tocando como queria, com Lemmy mantendo uma coerência que, para Slash, valia mais do que qualquer discurso sobre autenticidade.
Os dois ainda cruzaram caminhos em gravações. Lemmy participou de "Doctor Alibi", faixa do primeiro álbum solo de Slash, lançado em 2010, e o guitarrista também tocou no tributo Lemmy: 49% Motherf**ker, 51% Son of a Bitch, documentário sobre o líder do Motörhead. Para Slash, Lemmy representava uma forma de estar no mundo sem parecer fabricado. Não era santo, não era exemplo de vida saudável, não era personagem limpo para documentário motivacional. Mas era alguém que tratava o rock and roll como prática diária, não como fantasia de marketing. E talvez por isso o guitarrista o chamasse de mentor. Não porque Lemmy ensinasse por palestra, mas porque bastava vê-lo existir daquele jeito para entender uma parte do manual.
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