As duas bandas gigantes que fizeram Eric Clapton achar que o rock havia perdido as raízes
Por Bruce William
Postado em 30 de maio de 2026
Eric Clapton sempre falou como alguém que enxerga o rock a partir do blues. Isso não significa que ele tenha passado a carreira inteira repetindo a mesma fórmula, mas ajuda a entender por que certas fases da música popular lhe soavam tão distantes. Para ele, guitarra, canção e interpretação precisavam carregar algum rastro de origem, alguma ligação reconhecível com o blues, o R&B, o folk ou a tradição que alimentou o rock desde o começo.
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Em 2006, essa implicância apareceu em uma declaração dura envolvendo Coldplay e U2. Clapton não estava apenas reclamando de uma música específica, nem fazendo aquela crítica genérica de veterano contra "a juventude". O alvo era a forma como ele via o poder da música naquele momento: mais ligado a premiações, celebridades e indústria do entretenimento do que a raízes musicais.
A frase foi pesada. "Agora, o poder da música está com Simon Cowell, Coldplay e U2, que são realmente pessoas que apenas frequentam premiações. Só de ouvir, não consigo diferenciar Coldplay e U2. Acho que isso mostra como todas as coisas atuais estão incrivelmente desligadas de suas raízes. O que me preocupa no que está acontecendo agora é que as pessoas não sabem de onde tudo veio, e suponho que nem estejam tão interessadas." A declaração foi publicada originalmente em entrevista ao The Times e repercutiu bastante entre fãs de U2 na época
Dá para entender por que Clapton colocaria Coldplay nessa mira. A banda de Chris Martin apareceu no começo dos anos 2000 com um rock mais atmosférico, melancólico e polido, muito mais próximo de Travis, Radiohead e da linhagem britânica pós-OK Computer do que de qualquer tradição blues. "Parachutes", de 2000, e "A Rush of Blood to the Head", de 2002, ajudaram a transformar o Coldplay em um dos maiores nomes do rock de arena da década, mas não era exatamente um som que faria Clapton ouvir ecos de Muddy Waters ou Robert Johnson.
Com U2, a questão é mais complicada. A banda irlandesa sempre teve pouco a ver com blues no sentido mais clássico, mas não era exatamente um grupo sem memória musical. Em "Rattle and Hum", de 1988, Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. mergulharam de forma explícita em referências americanas, gravaram com B.B. King em "When Love Comes to Town" e tentaram se aproximar de gospel, blues, soul e rock de raiz. O resultado dividiu opiniões, mas mostra que a crítica de Clapton, ao menos nesse ponto, pegava uma banda que já havia tentado dialogar com esse passado.
O incômodo dele talvez estivesse menos no passado real do U2 e mais na imagem que a banda carregava nos anos 2000, teoriza a Far Out. Naquela altura, Bono já era uma figura global, envolvida em campanhas humanitárias, encontros com líderes políticos e grandes eventos públicos. O U2 seguia lotando estádios, mas também se tornara uma marca enorme, cercada por discursos, causas, produção grandiosa e um tipo de monumentalidade que poderia soar distante demais para alguém como Clapton.
A ironia é que o próprio Clapton também virou uma instituição. O jovem que saiu dos Yardbirds por achar "For Your Love" pop demais, brilhou com John Mayall, explodiu com o Cream e depois buscou outra rota com Derek and the Dominos acabou se tornando, décadas depois, um nome de prestígio, premiações, turnês gigantescas e projetos cheios de convidados famosos. Ou seja, ele podia criticar o rock de arena moderno, mas também não falava exatamente da margem do sistema.
Mesmo assim, existe um ponto interessante na bronca. Clapton não parecia incomodado apenas com o sucesso de Coldplay e U2, mas com a sensação de que o rock havia se afastado demais da matéria-prima que o formou. Para ele, o problema não era uma banda usar produção moderna ou fugir do blues. Era uma geração inteira talvez não saber, ou não se importar, com o caminho que ligava aquela música aos velhos discos que sustentaram tudo.
Só que o rock nunca foi uma linha reta. Ele saiu do blues, mas também passou por folk, soul, psicodelia, punk, eletrônica, pop, hip hop, música irlandesa, música africana, estúdio, estádio e computador. Coldplay pode não dizer muita coisa a quem procura raízes blues; U2 pode soar grandioso demais para quem prefere algo mais cru. Mas o fato de Clapton não reconhecer suas origens ali não significa que elas não existam de outro jeito.
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