O álbum do Black Sabbath gravado com equipamentos de John Lennon
Por Bruce William
Postado em 27 de maio de 2026
O Black Sabbath tinha conseguido uma virada rara com "Heaven and Hell", em 1980. Depois da saída de Ozzy Osbourne, Ronnie James Dio entrou com outra voz, outra postura e outro jeito de escrever melodias sobre os riffs de Tony Iommi. A banda não apenas sobreviveu à troca de vocalista; por um breve momento, pareceu rejuvenescida. O problema é que a estabilidade durou pouco. Bill Ward saiu ainda em 1980, Vinny Appice assumiu a bateria, e o Sabbath teve que provar de novo que aquela segunda vida não dependia de uma única boa tacada.
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"Mob Rules", lançado em novembro de 1981, foi o segundo álbum de estúdio do Black Sabbath com Dio e o primeiro com Appice. O disco vinha com uma missão ingrata: suceder "Heaven and Hell" sem parecer apenas uma repetição dele. Parte da crítica da época e muitos fãs enxergaram justamente esse problema, como se o Sabbath tivesse feito uma continuação direta do álbum anterior. Iommi depois chamaria Mob Rules de "um álbum confuso" para a banda.
Antes de chegar ao álbum completo, a faixa "The Mob Rules" apareceu ligada ao filme de animação Heavy Metal, também de 1981. Iommi já lembrou que aquela foi a primeira música escrita para o disco, feita originalmente para o filme, e que a entrada de Vinny Appice deu outra pegada ao grupo. O próprio guitarrista explicou em comentário faixa a faixa publicado na Shazam.com que Bill Ward tocava mais "atrás" do riff, enquanto Vinny empurrava a música para frente.
A gravação, porém, não começou de forma tranquila. O Sabbath havia comprado um estúdio em Los Angeles, investido em equipamento e mesa cara, mas a coisa simplesmente não soava como deveria. "Foi desastroso", lembrou Iommi, em conversa publica na Apple.com. "Compramos aquele maldito estúdio, colocamos todo o equipamento - uma mesa de 250 mil dólares - e ajeitamos tudo. Entramos lá para começar a tocar e era uma porcaria. Não conseguíamos um som adequado."
No meio dessa busca por um caminho, a banda acabou em Tittenhurst Park, a antiga propriedade de John Lennon e Yoko Ono em Sunningdale, na Inglaterra. Era o lugar do piano branco de "Imagine", da casa que também havia recebido sessões e imagens ligadas à fase solo de Lennon, destaca a Far Out. Depois, a propriedade passou para Ringo Starr, que a manteve entre 1973 e 1988. Para o Sabbath, o detalhe curioso é que "The Mob Rules" nasceu justamente naquele ambiente cheio de memória beatle.
Iommi contou a história em suas redes ao lembrar o aniversário do disco: "Não sei se vocês já viram o vídeo de 'Imagine', de John Lennon, em que aparece o piano branco, mas foi exatamente ali que escrevemos a música 'The Mob Rules', naquela mesma sala." Ele também disse que a banda montou o equipamento usando material de Lennon. A cena é boa demais: Black Sabbath, já em sua fase Dio, criando uma faixa pesada no mesmo espaço associado a uma das imagens mais delicadas e pacifistas da carreira de Lennon.
Essa dualidade ajuda a dar uma cor diferente a "Mob Rules". O álbum não tem a aura de renascimento de "Heaven and Hell", nem a mesma sensação de descoberta. Ele soa mais pressionado, mais fechado, às vezes mais duro. Mas também tem momentos fortes, como "Turn Up the Night", "Voodoo", "The Sign of the Southern Cross" e a própria "The Mob Rules". Dio continuava cantando por cima dos riffs de um jeito que mudava a escrita da banda, enquanto Appice trazia uma batida mais reta e agressiva, menos elástica do que a de Bill Ward.
O disco ficou como um capítulo meio turbulento dentro da história do Sabbath. Foi grande o bastante para manter a fase Dio viva, mas também carregou tensões que logo explodiriam em "Live Evil" e na saída de Dio e Appice, antes do retorno dos dois em "Dehumanizer", em 1992. No meio dessa confusão, há essa imagem improvável: Tony Iommi encontrando um riff pesado na casa de John Lennon, com equipamentos deixados por um Beatle, enquanto o Black Sabbath tentava descobrir como continuar sendo Black Sabbath depois de já ter mudado quase tudo.
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