O álbum do Pink Floyd que Richard Wright nunca gostou de ouvir
Por Bruce William
Postado em 27 de maio de 2026
"Animals" ocupa um lugar curioso na discografia do Pink Floyd. Lançado em 1977, depois de "The Dark Side of the Moon" e "Wish You Were Here", o álbum veio mais duro, mais amargo e menos contemplativo. A banda já não parecia interessada em viajar pelo espaço interior do ouvinte; desta vez, Roger Waters olhava para fora, para a sociedade britânica da época, e transformava gente em porcos, cães e ovelhas.
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O disco foi gravado no Britannia Row, estúdio que o próprio Pink Floyd havia montado em Londres, e acabou sendo o primeiro álbum da banda em que Richard Wright não recebeu nenhum crédito de composição, relembra a Far Out. Com exceção de "Dogs", assinada por Waters e David Gilmour, as faixas foram creditadas a Waters. Isso já indica uma mudança interna importante: a voz conceitual do baixista crescia, enquanto Wright, que havia sido decisivo para a atmosfera de discos anteriores, começava a sumir do processo criativo.
O saudoso Wright não tentou disfarçar seu descontentamento ao falar sobre "Animals", reconhecendo que não gostava muito de parte no álbum e assumindo sua parcela de responsabilidade: "Eu não gostei de muitas coisas na escrita de 'Animals', mas infelizmente eu não tinha nada a oferecer. Acho que toquei bem, mas lembro de não me sentir muito feliz ou criativo, em parte por causa de problemas no meu casamento. Esse foi o começo do meu bloqueio criativo."
A declaração ajuda a separar duas coisas. Como compositor, Wright estava apagado. Como músico, ainda era importante. Seus teclados em "Dogs", "Pigs (Three Different Ones)" e "Sheep" não aparecem com a mesma presença quase flutuante de "The Dark Side of the Moon" ou "Wish You Were Here", mas ajudam a engrossar o clima sombrio do disco. Em "Animals", ele não ilumina tanto as músicas; parece mais afundar dentro delas, criando um cenário frio para a visão amarga de Waters.
O mais irônico é que muitos fãs colocam "Animals" entre os grandes momentos da banda justamente por sua tensão. A aspereza que incomodava Wright é parte do que dá força ao álbum. "Dogs" se estende como uma peça amarga sobre ambição e desgaste; "Pigs" mira figuras de poder com sarcasmo; "Sheep" fecha a alegoria com uma revolta quase mecânica. Não há o conforto melódico de "Wish You Were Here", nem a fluidez perfeita de Dark Side. Há pressão, cinismo e uma banda começando a ranger por dentro.
Nesta época, Waters se tornava o centro conceitual do Pink Floyd, Gilmour contribuía menos do que antes na escrita, e Nick Mason também ficava mais distante da parte autoral. Pouco depois, a situação de Wright pioraria. Durante as sessões de "The Wall", Waters pressionou por sua saída, e o tecladista acabou participando da turnê seguinte como músico contratado, não mais como integrante pleno.
Talvez Wright nunca tenha voltado a "Animals" com prazer porque, para ele, o disco não era só uma obra do Pink Floyd. Era a lembrança de um período em que já não conseguia oferecer músicas, em que sua vida pessoal pesava e em que o equilíbrio interno da banda começava a se romper. Para o público, "Animals" pode soar como um clássico sombrio. Para Richard Wright, parecia mais o registro de um momento em que ele ainda tocava bem, mas já sentia que estava ficando sem lugar.
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