Rock in Rio quer o nome do rock, mas não seu compromisso
Por Otaviano Lacet
Postado em 27 de setembro de 2026
O festival virou um megafestival generalista, mas preserva no nome o gênero que lhe deu prestígio, identidade e valor comercial. Chamar isso apenas de "ecletismo" já não basta.
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O Rock in Rio não sofre de crise de identidade. Ele sabe perfeitamente o que se tornou: um gigantesco festival generalista de entretenimento, interessado em vender ingressos para públicos de rock, pop, funk, sertanejo, eletrônico, rap, K-pop, piseiro e o que mais tiver força de mercado. O problema é outro. Enquanto abandona qualquer obrigação de manter o rock como centro curatorial, a organização se recusa a abrir mão justamente da palavra que construiu seu prestígio, sua história e boa parte de seu capital simbólico. Quer a liberdade de programar qualquer coisa, mas também quer continuar explorando comercialmente o nome do gênero que já não se sente obrigada a representar.
E talvez seja essa a razão de uma discussão que atravessa mais de quatro décadas sem morrer. Não é apenas implicância de roqueiro envelhecido, purismo de metaleiro ou incapacidade de aceitar diversidade musical. Há uma contradição real, objetiva e até linguística: se "rock" não define mais o conteúdo do Rock in Rio, o que exatamente justifica que continue definindo seu nome?
A edição de 2026 levou essa contradição quase ao ponto da caricatura. O festival reuniu mais de 700 mil pessoas, 190 shows, mais de 1.300 artistas e 45 apresentações internacionais. Na própria prestação de contas, a organização descreveu uma programação que foi "do rock ao pop", passando por música brasileira, eletrônico e K-pop. Ou seja: quando apresenta os gêneros efetivamente oferecidos, o próprio Rock in Rio trata o rock como uma categoria musical perfeitamente identificável, separada das demais. Só quando precisa justificar o nome é que "rock" magicamente deixa de ser gênero e vira "atitude".
Isso não é explicação. É um truque semântico.
Rock não é uma palavra decorativa
A defesa mais repetida pela organização é conhecida: Rock in Rio nunca significou exclusivamente música rock; "rock" representaria comportamento, rebeldia, liberdade, atitude.
É uma solução publicitária engenhosa porque torna a palavra infinitamente elástica.
Se rock é "atitude", Ivete Sangalo pode ser rock. Stray Kids pode ser rock. Alok pode ser rock. Chitãozinho & Xororó podem ser rock. João Gomes pode ser rock. Anitta pode ser rock. Um quarteto de cordas tocando Vivaldi também poderá ser rock, desde que alguém encontre uma atitude suficientemente libertária na execução.
Só existe um inconveniente: quando uma palavra passa a significar tudo, ela deixa de significar alguma coisa.
A teoria da música popular não trata gêneros como caprichos de fãs chatos. Simon Frith, um dos principais estudiosos da cultura pop, dedicou um capítulo inteiro de Performing Rites às "regras de gênero", mostrando que categorias musicais estruturam a forma como a cultura popular é organizada, divulgada, reconhecida e consumida. O gênero orienta expectativas.
Franco Fabbri vai ainda mais longe. Em sua teoria clássica dos gêneros musicais, define gênero como um conjunto de eventos musicais submetidos a regras socialmente aceitas. Essas regras incluem elementos sonoros, comportamentais, sociais e ideológicos. Em outras palavras, dizer "rock", "samba", "jazz", "sertanejo" ou "heavy metal" comunica algo concreto a uma comunidade.
É por isso que ninguém precisa escrever uma tese para entender por que Megadeth seria uma presença estranha na Festa do Peão de Barretos.
Ou Sepultura no circuito principal do Carnaval de Salvador.
Ou AC/DC encerrando o Festival Folclórico de Parintins.
Nada impediria artisticamente essas apresentações. Algumas poderiam ser espetaculares. Mas ninguém acusaria o público de "purismo" por perguntar o que aquelas bandas estavam fazendo em eventos cuja identidade cultural aponta para outra direção.
Só no Rock in Rio parece ter se tornado ofensivo acreditar que a palavra "rock" deveria guardar alguma relação especial com o rock.
O próprio ingresso de 1985 desmonta a versão conveniente da história
Há uma tentativa recorrente de recontar o passado do festival como se o nome jamais tivesse pretendido identificar musicalmente coisa alguma.
É verdade que o primeiro Rock in Rio já era plural. James Taylor, George Benson, Ivan Lins, Elba Ramalho e outros artistas conviviam com Queen, AC/DC, Iron Maiden, Ozzy Osbourne, Scorpions, Whitesnake e Yes. Ninguém sério precisa negar isso.
Mas daí concluir que o festival "nunca foi sobre rock" exige ignorar o próprio material publicitário de sua estreia.
Um ingresso original de 1985, preservado pela Billboard Brasil, anunciava literalmente o Rock in Rio como "o maior festival de rock de todos os tempos". Aí a conversa muda...
Não era "o maior festival de atitude de todos os tempos".
Não era "o maior festival multicultural de entretenimento".
Não era "o maior encontro de gêneros musicais".
Era festival de rock.
A primeira edição reuniu 1,38 milhão de pessoas em dez dias, segundo a história oficial do evento. Foram 15 atrações nacionais e 16 internacionais, e o peso do rock internacional era absolutamente central naquilo que tornava o festival extraordinário para o Brasil de 1985.
Portanto, o argumento de que sempre houve artistas de outros gêneros é verdadeiro, mas insuficiente. Ecletismo nunca significou inexistência de eixo.
Uma pizzaria pode vender salada sem deixar de ser pizzaria. Porém, se metade do cardápio vira sushi, churrasco, tacos, comida tailandesa e doces, talvez seja hora de admitir que o estabelecimento se transformou em outra coisa.
Erasmo Carlos provou que curadoria não é jogar artistas num liquidificador
O caso de Erasmo Carlos em 1985 é especialmente revelador porque desmonta uma objeção comum.
Erasmo era rock. Não apenas "tinha atitude": era um dos pioneiros do rock brasileiro.
Mesmo assim, foi recebido com fortes vaias quando colocado numa noite em que parte expressiva da plateia estava voltada para Whitesnake e Iron Maiden. A própria Folha de S.Paulo, ao reconstruir o episódio, chamou a situação de erro de programação (do festival, não do cantor). O próprio Erasmo reconheceu posteriormente que a organização ainda não havia compreendido plenamente as diferentes "tribos" presentes naquele público.
O episódio é importante porque revela algo elementar que o discurso do "tudo é música" costuma esconder. Curadoria existe.
Não basta reunir artistas excelentes e concluir que qualquer combinação funcionará porque todos produzem sons.
Públicos possuem expectativas, repertórios, códigos e identidades. Um festival profissional deveria saber disso melhor do que qualquer pessoa.
Se até dois universos dentro do próprio rock podem produzir choque quando combinados sem inteligência, imaginar que gêneros inteiramente distintos são intercambiáveis apenas porque "música une as pessoas" não é sofisticação cultural, mas simplificação preguiçosa.
Carlinhos Brown em 2001 foi o aviso mais brutal possível
Dezesseis anos depois, o Rock in Rio repetiria o problema de forma muito mais grave.
Carlinhos Brown entrou no Palco Mundo em 2001 numa noite que terminaria com Papa Roach, Oasis e Guns N' Roses. A recepção tornou-se um dos episódios mais constrangedores da história do festival.
Garrafas e copos foram atirados. Brown interrompeu a apresentação, discutiu com parte do público, ironizou a exigência por rock e acabou enfrentando uma hostilidade que ultrapassou qualquer limite aceitável.
A violência precisa ser condenada sem qualquer hesitação. Quem atira uma garrafa num artista é responsável pela própria estupidez.
Mas condenar a agressão não obriga ninguém a absolver a curadoria.
A cobertura da Folha publicada naquele mesmo dia começou de maneira quase profética: "A mistura falhou." O texto registrava que, desde o anúncio da programação, havia advertências sobre os riscos de combinar artistas de estilos radicalmente diferentes naquela sequência.
O festival colocou um músico fortemente associado à percussão, à música afro-baiana e à MPB diante de uma massa que aguardava Papa Roach, Oasis e Guns N' Roses.
Depois descobriu, da pior maneira, que a plateia possuía preferências. Surpreendente seria se não possuísse.
A organização não causou as agressões. Mas foi responsável por construir o cenário curatorial que colocou artista e público em rota de colisão.
Isso importa porque a história oficial costuma tratar a diversidade musical como demonstração automática de virtude. Não é.
Mistura pode gerar invenção.
Mistura também pode ser apenas má programação.
Anitta mostrou que outro gênero pode funcionar. E isso não resolve nada
Quando Anitta finalmente levou o funk ao Palco Mundo em 2019, o resultado demonstrou algo que os puristas mais radicais precisam reconhecer: um artista que não faz rock pode entregar um grande show no Rock in Rio.
Evidentemente. Isso nunca esteve seriamente em questão.
Um músico não precisa tocar guitarra distorcida para ter presença de palco, talento, público ou legitimidade artística. K-pop, funk, samba, forró, rap e sertanejo não precisam pedir licença ao rock para existir.
Mas aqui está o ponto que costuma escapar no debate: um grande show de funk continua sendo um show de funk.
O êxito não muda o gênero.
Lotação não muda o gênero.
Aplauso não muda o gênero.
Um filme de terror exibido com enorme sucesso num festival de comédia não se transforma em comédia porque vendeu todos os ingressos.
Anitta pode ter sido excelente no Rock in Rio e, ao mesmo tempo, sua presença pode reforçar a pergunta sobre a identidade do festival.
As duas coisas não se anulam.
O sertanejo acabou com qualquer ilusão de fronteira
Em 2024, o festival rompeu uma barreira simbólica ao colocar sertanejo pela primeira vez no Palco Mundo.
Chitãozinho & Xororó dividiram o espetáculo "Para Sempre Sertanejo" com Ana Castela, Simone Mendes e Junior. O Dia Brasil ainda reuniu trap, MPB, samba, pop, rap, funk, jazz, soul, bossa nova, eletrônico e, naturalmente, rock.
Como celebração da música brasileira, a proposta é defensável.
Aliás, "Dia Brasil" é um nome muito mais intelectualmente honesto para esse conceito.
Brasil comporta sertanejo, rock, samba, rap, forró, funk, música clássica, tecnobrega, choro e o que mais nossa cultura produzir.
"Rock", não.
A diferença parece elementar, mas o Rock in Rio insiste há décadas em tentar apagar essa fronteira com uma explicação publicitária.
Quando Dinho Ouro Preto comentou a entrada do sertanejo no festival, sintetizou uma reação que existe entre fãs há anos: o sertanejo já possui seus próprios grandes espaços e públicos.
Isso não significa expulsá-lo da convivência cultural. Mas sim reconhecer uma coisa aparentemente revolucionária em 2026: gêneros possuem identidade.
Em 2026, o rock virou apenas um dos departamentos
Se ainda restava dúvida sobre a transformação, a programação de 2026 praticamente resolveu a questão.
Nos dois primeiros dias do Palco Mundo, havia forte eixo roqueiro: Foo Fighters, Rise Against, The Hives e Nova Twins; depois Avenged Sevenfold, Bring Me The Horizon, MGK e Sepultura.
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Então o festival virou outra coisa.
No dia 6, Calvin Harris, Black Eyed Peas e Nelly dividiram a programação principal com Barão Vermelho. No dia 7, Elton John, Gilberto Gil, Jon Batiste e Luísa Sonza. No dia 11, o Palco Mundo teve Stray Kids, Alok, Hwasa e NEXZ. No dia 12 vieram Maroon 5, Demi Lovato, J Balvin e Pedro Sampaio. No encerramento, Twenty One Pilots, Halsey, Lola Young e Ivete Sangalo.
João Gomes apareceu no Palco Sunset, anunciado pelo próprio festival como "fenômeno do piseiro", com uma apresentação que prometia transformar o palco em "vaquejada".
Não há nada de errado com João Gomes. E este jornalista que vos escreve é um legítimo e orgulhoso Nordestino, conterrâneo pernambucano do artista.
O estranho é que alguém precise argumentar longamente para explicar por que piseiro, vaquejada, K-pop, reggaeton, eletrônico e funk compõem naturalmente um evento chamado Rock in Rio, enquanto achar essa combinação curiosa seria sinal de atraso cultural.
No dia 11, o próprio site oficial identificou Stray Kids como K-pop. Identificou Hwasa dentro do mesmo universo. O festival sabe perfeitamente distinguir os gêneros quando divulga artistas.
Portanto, não estamos diante de confusão conceitual. Mas sim de uma escolha empresarial.
O mercado explica o que a retórica da "atitude" tenta romantizar
Aqui a conversa fica realmente interessante. Não é necessário atribuir ganância pessoal a Roberto Medina, nem imaginar conspiração alguma.
Basta olhar para os incentivos.
O Brasil cresceu 14,1% em receita de música gravada em 2025 e tornou-se o oitavo maior mercado fonográfico do mundo, segundo a IFPI. Na América Latina, 88,1% das receitas já vieram de streaming.
Ao mesmo tempo, o consumo brasileiro está fortemente concentrado fora do rock. No levantamento anual da Pro-Música, 47 das 50 faixas mais tocadas em 2025 eram brasileiras. Pagode assumiu o topo depois de sete anos de liderança do sertanejo, enquanto funk, trap, piseiro e arrocha mantiveram forte presença.
O cálculo empresarial é quase obscenamente simples: se o festival se restringir majoritariamente ao rock, disputa uma fatia menor do mercado.
Se abrir o Palco Mundo para pop, funk, K-pop, sertanejo, eletrônico, rap, reggaeton e piseiro, multiplica públicos potenciais, patrocinadores, influenciadores, repercussão digital e compradores de ingressos. É racional e muito.
E justamente por isso chega a ser desnecessário esconder a transformação atrás da frase infantil de que "rock é atitude". A explicação é mercado, ponto final.
Keith Negus, em seus estudos sobre indústria fonográfica, mostrou como gêneros são administrados também dentro de estratégias corporativas, numa relação em que cultura e economia se moldam reciprocamente.
Em outras palavras, empresas não simplesmente recebem gêneros prontos: organizam públicos, repertórios e oportunidades segundo lógicas comerciais.
O Rock in Rio faz exatamente aquilo que uma empresa de entretenimento racional faria: amplia seu mercado.
A crítica começa, porém, quando pretende ampliar ilimitadamente o produto sem admitir que o nome original já deixou de descrevê-lo.
O "rock" deixou de ser gênero e virou patrimônio comercial
Talvez essa seja a parte que a organização nunca formulará com tanta clareza: o "rock" tornou-se valioso demais para ser abandonado. Não necessariamente como música, mas como marca.
A história oficial do festival registra 12,3 milhões de pessoas na plateia e 4.667 artistas escalados desde 1985. Estamos falando de quatro décadas de investimento, memória afetiva, exposição mundial, mídia, patrocinadores e associação cultural.
Trocar o nome agora significaria abrir mão de um patrimônio extraordinário.
Então surge uma solução comercialmente perfeita: conserva-se "Rock in Rio", mas redefine-se "rock" para que possa significar qualquer coisa.
O gênero fica no logotipo.
A curadoria fica livre.
O capital simbólico permanece.
O mercado aumenta.
E quem percebe a operação ainda corre o risco de ser chamado de "purista".
É um negócio brilhante. Como coerência cultural, porém, é muito mais difícil de defender.
Não é preciso provar má-fé para reconhecer a conveniência. O resultado objetivo é este: a organização usufrui de tudo o que quatro décadas de associação com o rock acrescentaram à marca, mas não aceita que essa associação gere qualquer obrigação curatorial. Ou seja: quer o bônus, mas recusa o ônus.
A prova contra o próprio Rock in Rio chama-se The Town
Há um problema particularmente embaraçoso para toda a justificativa.
A própria empresa responsável pelo Rock in Rio já mostrou que sabe criar um festival plural sem fingir que o nome de um gênero musical significa outra coisa. Chama-se The Town.
O festival paulista é produzido pela Rock World, a mesma empresa do Rock in Rio, e se define como festival de "música, arte e cultura". Recebe estilos completamente diferentes sem precisar montar uma defesa filosófica cada vez que escala um rapper, uma estrela pop ou uma banda de rock.
Em 2025, o The Town recebeu 425 mil pessoas em cinco dias, misturando gerações, estilos e culturas. Funciona.
Ninguém pergunta por que Katy Perry está no The Town.
Ninguém se revolta porque Travis Scott está no The Town.
Ninguém precisa explicar que "The Town é atitude".
A palavra não promete um gênero musical específico.
É exatamente o mesmo princípio adotado por Coachella, Lollapalooza, Glastonbury e inúmeros grandes festivais generalistas.
A Rock World, portanto, já possui a resposta para o problema.
Só não a aplica ao Rock in Rio porque Rock in Rio vale demais como marca para ser mexido.
E isso talvez seja a explicação mais honesta de todas.
O problema não é a diversidade. É oportunismo semântico
Não há razão para transformar essa crítica numa guerra contra outros estilos.
Funk não é inferior ao rock.
Sertanejo não é inferior ao rock.
K-pop não é inferior ao rock.
Piseiro não é inferior ao rock.
Essa nem sequer é a discussão.
A questão é muito mais simples e desconfortável: um festival pode ser musicalmente plural sem sequestrar para fins de marketing a identidade de um gênero específico.
Se a organização deseja manter o rock como eixo e abrir espaço para outros estilos, ótimo. Foi assim desde 1985.
Mas, se a intenção é transformar o evento numa grande feira global de entretenimento onde rock é apenas mais uma prateleira entre muitas outras, também não há crime algum.
Só não chamem a crítica de incoerente.
Incoerente é o contrário.
Incoerente é sustentar que "rock" não significa rock quando isso atrapalha a escalação, mas continuar explorando toda a memória, a iconografia, a história e o prestígio associados ao rock quando isso fortalece a marca.
Incoerente é vender durante décadas uma Cidade do Rock e tratar como antiquado o sujeito que chega procurando rock.
Incoerente é programar uma noite inteira de K-pop e eletrônico no Palco Mundo e depois agir como se a pergunta "cadê o rock?" fosse intelectualmente ilegítima.
Incoerente é dizer que a palavra deixou de ter sentido musical, mas considerar impensável retirá-la do nome.
Se o rock não importa, tirem o rock do nome
Talvez toda essa discussão possa ser reduzida a um teste brutalmente simples.
Se amanhã a Rock World anunciasse:
"A partir da próxima edição, o festival passará a se chamar Rio Music Festival."
O que mudaria na programação atual? Quase nada:
Stray Kids continuaria cabendo.
Alok continuaria cabendo.
João Gomes continuaria cabendo.
Ivete continuaria cabendo.
J Balvin continuaria cabendo.
Sepultura continuaria cabendo.
Foo Fighters continuaria cabendo.
Gilberto Gil continuaria cabendo.
Todo mundo caberia.
Só uma coisa seria perdida: o peso histórico e comercial da palavra "rock". E é precisamente por isso que ela permanece.
A edição de 2026 provou mais uma vez que o Rock in Rio pode sobreviver perfeitamente com pouquíssimo rock em vários de seus dias. O que aparentemente não pode sobreviver é sem Rock na fachada.
Essa inversão diz tudo.
O festival tem todo o direito de mudar. Tem direito de acompanhar o mercado, buscar novos públicos, abraçar K-pop, sertanejo, funk, eletrônico, piseiro ou qualquer outro gênero.
O público tem o mesmo direito de chamar a transformação pelo nome.
O Rock in Rio deixou há muito tempo de ser simplesmente um festival de rock e tornou-se um gigantesco negócio de entretenimento musical generalista.
Nada de errado nisso.
O erro é querer continuar cobrando os dividendos simbólicos do rock enquanto se despreza a obrigação de tratá-lo como identidade.
Em 1985, o ingresso prometia "o maior festival de rock de todos os tempos".
Em 2026, o próprio festival comemorou uma edição que atravessou rock, pop, eletrônico, música brasileira e K-pop. Quarenta e um anos separam essas duas definições.
O festival mudou.
O produto mudou.
O mercado mudou.
A única coisa que não mudou foi o nome.
E não mudou porque, aparentemente, o Rock in Rio já descobriu que pode abrir mão do rock muito antes de abrir mão da palavra "rock".
Otaviano Lacet (Jornalista, Escritor, Editor e Músico sofrível, com pós-graduações em Jornalismo Digital; Análise do Discurso Midiático; Produção Textual; MBA em Comunicação e Semiótica; Docência no Ensino Superior; Arqueologia).
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